Ttulo: Magia Cigana.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Livros Abril, So Paulo, 1984.
Ttulo Original: Gypsy Magic.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Cristina Ferreira.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.


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Magia Cigana

Jovens ciganas danavam ao redor do fogo ao som de uma melodia alegre e selvagem. Quando a msica terminou, e as danarinas desapareceram nas sombras, Letcia estremeceu. 
Afinal chegara a sua hora. A msica tinha mudado e agora era mais lenta e sensual. Tensa, ela iniciou o seu bailado e aos poucos j acompanhava a melodia com uma 
graa natural. Fascinado, o rei Vicktor a contemplava, sem saber se aquela mulher era real ou uma materializao de seus desejos mais ntimos. E enquanto danava, 
Letcia pedia aos deuses que fizessem Vicktor atender aos apelos do sangue cigano que lhes corria nas veias e resolvesse aceit-la como esposa, na mgica cerimnia 
de um casamento cigano...


Barbara Cartland


Magia Cigana


Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.


LIVROS ABRIL


Romances com Corao


Caixa Postal 2372 - So Paulo


Ttulo original: "Gypsy Magic"


Copyright: (c) Cartland Promotions 1983

Traduo: Lygia Junqueira


Copyright para a lngua portuguesa: 1984 Abril S. A. Cultural - So Paulo


Esta obra foi composta na Linoart Ltda. e impressa na Editora Parma Ltda.


CAPTULO I

1825

Letcia pousou a costura no colo, admirando o resultado de seu trabalho por alguns instantes, antes de soltar um suspiro desconsolado. Virou-se para a irm, a princesa 
Marie-Henriette, ocupada em bordar uma sobressaia, e o comentrio que fez revelava o desnimo que a dominava.
- No adianta! Nunca farei com que este vestido fique apresentvel.
- Ora, no exagere! Voc fica bonita com qualquer roupa.
- Agora  voc quem est me superestimando! Sabe muito bem que, por melhor que eu me apresente, prima Augustina no me poupar crticas e desaprovaes...
Marie-Henriette piscou o olho, maliciosamente, em retribuio ao sorriso que se desenhara nos lbios muito vermelhos da irm.
- A gr-duquesa age assim por despeito. Ela tem medo que uma de ns seja mais elogiada que Stephanie. Enfim, nos detesta, e nem mame escapa de suas perseguies.
Letcia levou um dedo aos lbios, num gesto que indicava  irm que deviam falar mais baixo, e olhou em direo  porta, certificando-se de que ningum se aproximava.
-  verdade, Hettie, mas no converse a respeito com mame, sabe como ela fica perturbada, coitada, j anda to deprimida ultimamente.
- No  para menos. Sem dinheiro e com a "hostilidade" que vem
do palcio... Ah, como seria bom se pudssemos mudar para outro lugar.
- Ah, mas isso  invivel! Temos que aguentar firmes.
Depositou a cesta de costura e o vestido que estava reformando em um aparador e rumou para a janela entreaberta. Gostava de observar o movimento dos criados no ptio 
e perdia horas nessa contemplao.
A pequena distncia do palcio, havia vrias construes atraentes. Eram conhecidas como "casas de cortesia", destinavam-se aos parentes do
gro-duque e aos estadistas que tinham servido o pas e no dispunham de renda suficiente para possurem uma casa prpria.
Quando o prncipe Paul de Ovenstadt morrera, lutando ao lado de seu regimento contra um exrcito invasor, sua famlia tivera que deixar a casa onde viviam com conforto, 
mudando-se para uma pequena residncia "de cortesia". Apesar de se sentirem gratos pela acolhida, no gostavam daquilo que Marie-Henriette chamava de "hostilidade" 
do palcio.
Esse clima, diga-se de passagem, no se devia ao gro-duque, que fora um grande amigo do primo, o prncipe Paul, e sim  sua esposa, a
gr-duquesa.
Louis, o gro-duque, no era destinado a herdar o trono, pois tinha um irmo mais velho. Por isso, ele e o primo, o prncipe Paul, tinham sido criados juntos e haviam 
jurado que jamais se casariam.
Mas os anos passaram, e o prncipe Paul apaixonou-se loucamente pela linda filha de um nobre de sangue real que morava no outro lado do pas.
Embora pertencesse  nobreza, o pai dessa moa dispunha de uma posio pouco importante na hierarquia, e Paul teve de enfrentar uma certa oposio antes de obter 
permisso para o casamento. E ainda os protestos verdadeiros do primo, Louis, que, pela primeira vez na vida, sentia-se prestes a ficar privado do companheiro.
Seis meses depois, o herdeiro do trono morria de uma febre que os mdicos no conseguiam diagnosticar. Assim, Louis tornou-se herdeiro presuntivo da coroa, e comearam 
a pression-lo para que tambm se casasse.
Infelizmente, conseguiram convenc-lo a desposar uma princesa prussiana. Essa unio traria algumas vantagens para o pas do marido, e Augustina, a princesa, sabendo 
da importncia de que dispunha, logo dominou o marido.
 medida que os anos passavam, tendo ela se tornado a gr-duquesa, firmou ainda mais a sua autoridade, a ponto de haver muitas piadas dentro e fora do pas sobre 
quem "usava as calas" no casamento.

6


Tiveram dois filhos: um menino, Otto, que foi mimado desde o nascimento e logo se transformou numa pessoa to detestvel como a me, e uma filha, Stephanie, que 
se parecia com o pai e sabia se fazer amar por todos os que a conheciam.
A gr-duquesa, dominadora, gananciosa e extremamente invejosa, no apenas no gostava da linda mulher do prncipe Paul, como detestava os filhos do casal.
Isto no era de se admirar, pois Letcia e Marie-Henriette estavam ficando cada vez mais bonitas, e o outro filho, o prncipe Kyril, era infinitamente mais bonito, 
inteligente e, sem dvida, melhor desportista do que o herdeiro da coroa, Otto.
Sempre que a ocasio se apresentava, as duas irms eram tratadas com desprezo pela gr-duquesa, que demonstrava claramente que elas no eram bem-vindas no palcio.
Em recepes oficiais, ela era obrigada a convid-las porque o prncipe Paul tinha sido muito popular no regimento, e muito querido em Ovenstadt.
A gr-duquesa no ousava exclu-las nessas ocasies, mas, como Letcia costumava dizer, certamente o faria, se isso fosse possvel.
Quando estavam a ss, as duas irms muitas vezes cogitavam sobre o que o futuro lhes reservava.
- Uma coisa  bvia - afirmava Letcia, inmeras vezes. - No h chance de arranjarem noivos para ns, at que Stephanie esteja casada.
Fez uma pausa e acrescentou, pensativa:
- Mesmo a, creio que prima Augustina far todo o possvel para nos manter longe dos solteiros adequados. A no ser,  claro, que haja a probabilidade de irmos embora 
daqui, para sempre!
Letcia dizia isso sem amargura, como quem faz uma declarao. Em geral achava mais fcil rir desse assunto do que chorar. Ao mesmo tempo, logo faria dezoito anos, 
e no disporiam nem de dinheiro suficiente para vestidos bonitos para ela e Marie-Henriette, que era apenas dezasseis meses mais moa. Sua me, a princesa Olga, 
tinha de economizar cada nquel, at mesmo para comprar comida.
- Papai teria ficado furioso! - comentava Letcia, quando eram excludas de alguma festa no palcio, para a qual deveriam ter sido chamadas.
Dizia a mesma coisa quando no podiam mais esticar o dinheiro para retribuir aos convites que lhes eram feitos. Na ltima vez em que a escutara, a me suspirou:
- Sei disso, querida, mas  uma cruz que temos que suportar.
- Papai deu a vida pela ptria e no entendo porque temos que sofrer tudo isso, injustamente - replicou Letcia.

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A princesa Olga refletiu por um momento. Depois, consolou-a: - Sei que  duro para vocs, queridas, mas, ao mesmo tempo, eu no gostaria de morar no palcio, por 
mais confortvel que fosse.
Tanto Letcia como Marie-Henriette soltaram exclamaes de protesto. Depois, riram.
- Podem imaginar prima Augustina descendo para o desjejum dizendo que estamos atrasadas, ou adiantadas, que nossos cabelos esto em desordem, nossos vestidos abotoados 
erradamente e, mais ainda, que nossas caras no so l grande coisa? - perguntou Letcia.
- Tudo o que fazemos est errado para ela - observou Marie-Henriette.
- Basta, meninas! Sejam quais forem nossos sentimentos pela prima Augustina, o primo Louis gosta muito de ns.
-  verdade - concordou Letcia. - Ao mesmo tempo, ele  fraco demais, 
por no tomar uma providncia contra o comportamento da esposa. Foi uma pena o pai de papai no ter subido ao trono!
- Creio que, desde o princpio dos sculos, os segundos filhos se queixam por no serem os primognitos - replicou a princesa Olga.
- Mas seu pai no se importava, realmente. No queria ser gro-duque. Queria apenas aproveitar a vida e ser feliz conosco.
A princesa sempre se entristecia quando falava no marido. Agora havia em seu rosto uma expresso que fez com que as meninas mudassem logo de assunto.
Adoravam a me e achavam que o destino fora cruel, fazendo com que o prncipe morresse quando ele e Olga eram to felizes no casamento, ao passo que Louis tinha 
nas costas o peso de uma mulher que, como era sabido, ele detestava.
Assim sendo, o gro-duque se retirara, em grande parte, da vida pblica, deixando que a gr-duquesa tomasse decises por ele, recebesse os estadistas e o empurrasse 
cada vez mais para um segundo plano.
s vezes, quando ele sentia que no aguentaria mais, visitava a princesa Olga.
Ficava sentado na saleta pequena, to diferente dos imensos sales do palcio, e lhe falava de seus aborrecimentos.
- Sei o quanto voc sente a falta de Paul - disse ele, da ltima vez em que a visitara. - Tambm eu sinto mais falta dele a cada dia. Se estivesse vivo, sei que 
ajudaria e me impediria de ser to pouco eficiente.
- No deve falar assim! - censurou Olga, com sua voz suave. - O povo o ama, Louis.

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- Quando tem chance de me ver - argumentou o gro-duque. - E sei que me censuram por terem sido promulgadas muitas leis pelas quais no sou responsvel.
Fez uma pausa e continuou:
- Creio que voc sabe, como todo mundo, alis, que o novo primeiro-ministro  dominado por Augustina?
A princesa Olga no respondeu e se limitou a inclinar a cabea. O gro-duque continuou:
- Ele a visita todos os dias e no tem nem mesmo a delicadeza de fingir que me consulta. Mostra os documentos primeiro  minha mulher e, depois que decidem tudo, 
me pedem que os assine.
- Porque voc no se recusa a isso? - perguntou Olga.
- Porque no sou bastante homem para suportar uma cena
- justificou ele. - E  neste ponto que sinto falta de Paul. Ele sempre tomou o meu partido e sem ele sou como um homem que perdeu o uso do brao direito. Acho que 
no vale a pena fazer um esforo sozinho.
A princesa Olga suspirou. Depois, colocou sua mo sobre a dele.
- Creio que devia tentar, meu caro Louis.
- Para qu? Voc sabe to bem quanto eu que Augustina tomou as rdeas do governo.  ela quem governa o pas. Se eu me rebelasse contra suas decises, provavelmente 
seria considerado louco e encerrado num calabouo.
Ambos riram.
"Ao mesmo tempo", pensou Olga, com tristeza, "havia muita verdade no que ele dizia. "
Sabia que a gr-duquesa seria implacvel, se algum tentasse tirar-lhe o poder.
Depois que o gro-duque saiu, Olga rezou para que houvesse um milagre que o salvasse da vida infeliz que quase o levava ao desespero.
s vezes, pensava em apelar para ele, em favor das filhas, lembrando-lhe que, agora que Letcia completara dezoito anos, deviam dar um baile no palcio em sua honra, 
para que ela tivesse oportunidade de ficar conhecendo prncipes de pases vizinhos, ou, pelo menos, alguns solteiros de famlia nobre que a gr-duquesa raramente 
convidava para o palcio.
Mas sabia que, mesmo que o gro-duque concordasse, sua mulher faria uma tremenda oposio a isso, e ele no teria coragem de insistir para que houvesse o tal baile.
Quando falou sobre isto a Letcia, a moa disse:
- Tem toda a razo, mame. Tenho certeza de que o primo Louis

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no seria levado em considerao e nada seria feito. Por outro lado, cedo ou tarde, algum ter de enfrent-la. Mas  claro que no pode ser voc.
- Se ao menos seu pai fosse vivo! - lamentou Olga.
Depois, compreenderam que a conversa no levava a nada e que elas estavam de mos amarradas.
Agora,  janela, de costas para a irm, Letcia, comentou'.
- Acho que, em vez de ficarmos desanimadas porque no conseguimos as coisas que desejamos, devamos tentar a feitiaria!
- Feitiaria? - exclamou Marie-Henriette. - No conhecemos nenhuma feiticeira.
- Os ciganos entendem de magia - replicou Letcia.
- Eles tm pouca oportunidade de fazer isto aqui - respondeu a irm. - Voc sabe que prima Augustina os expulsou da capital e lhes disse que ficassem nos campos 
e nas montanhas, a no ser que quisessem sair definitivamente de Ovenstadt.
-  o tipo de coisa que ela faria! - acrescentou Letcia. - Isso faria com que o povo a odiasse mais ainda. Afinal de contas, h muita gente com sangue cigano em 
Ovenstadt, inclusive ns.
Marie-Henriette riu.
-  melhor que voc no deixe que prima Augustina a oua falar de sangue cigano, ou tambm ser expulsa daqui, para no contamin-la!
- Sempre ouvi dizer que os prussianos odeiam os ciganos - lembrou-se Letcia, pensativa, - Mas, para ns, fazem parte da nossa vida. E o pas no seria o mesmo sem 
eles.
Ao dizer isso, pensou nos bandos de ciganos de roupas coloridas que vagavam pelos vales, e na msica que sempre a emocionava e despertava nela o desejo de danar.
Seu pai lhe contara que, quando moo, ia sempre com o seu primo Louis a acampamentos ciganos. Sentavam-se ao redor do fogo e ouviam a msica melodiosa e ao mesmo 
tempo selvagem dos violinos deles.
Apreciavam tambm as jovens danarinas que se movimentavam com uma graa caracterstica da raa.
-  uma graa que voc tambm tem, minha querida - assegurara ele a Letcia, quando a menina tinha treze anos.
- Que maravilha! Tem certeza, papai?
- Absoluta! Assim como estou vendo que voc  linda e que terei muito orgulho de voc.
As histrias sobre a vida dos ciganos sempre a tinham deixado intrigada, embora ela no tivesse coragem de falar a respeito no palcio.

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Contavam que, na famlia, h muitos anos, o tetrav se casou duas vezes, no tendo filhos de nenhum dos dois casamentos.
A sua segunda esposa era muito mais moa do que ele.  medida que o tempo passava, o gro-duque foi ficando cada vez mais desesperanado de ter um herdeiro.
Se isso no acontecesse, a sucesso passaria da famlia Rknzi,  qual pertenciam, para um ramo que eles detestavam e que, no decorrer dos anos, se tornara indolente, 
devasso e, portanto, sem competncia para governar o pas.
O gro-duque, ento, levou a esposa para se consultar com os maiores mdicos da Europa, assim como para a Estao de Cura Spas. Finalmente, como ltimo recurso, 
pediu a ajuda dos ciganos.
A lenda, sempre contada por murmrios, dizia que, estando o velho doente na ocasio, a gr-duquesa fora sozinha ao acampamento da tribo mais importante do pas.
Foi muito bem recebida pelo Voivode, ou rei, que era jovem, moreno e muito bonito.
Tomou parte numa festa, onde os' ciganos encheram seus copos incrustados de pedrarias com o melhor vinho que j haviam produzido.
Depois da refeio, houve msica e dana em volta da fogueira.
Bem mais tarde, quando os violinos ainda tocavam e alguns dos ciganos mais velhos tinham adormecido, o rei levou-a para o bosque.
L, sob as estrelas, ele usou a mgica que garantiria um herdeiro ao trono.
Era uma histria muito romntica e o prncipe Paul a terminou, dizendo:
- A maioria dos membros da famlia Rknzi tm cabelos avermelhados e pele clara, mas de vez em quando um de ns nasce com cabelos escuros, olhos negros e pele clara 
como a sua, querida.
Letcia soltou uma exclamao de alegria.
- E ento, papai, foi essa a mgica que fizeram com a gr-duquesa!
- Olhe-se no espelho e ver que seus cabelos tm o reflexo azulado que todas as morenas desejam ter.
Sorriu afectuosamente e continuou:
- Seus clios tambm so escuros, querida, mas seus olhos so verdes como as estepes por onde os ciganos vagueiam. E sua pele  branca, o que  uma herana de minha 
famlia e da de sua me.
Quando pensou na prpria aparncia. Letcia achou-se realmente diferente dos outros membros da famlia Rknzi.
Nunca havia refletido a respeito e considerava normal o fato de ela ser morena, enquanto Marie-Henriette era loira como a me.

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Mas a irm tambm possua um toque de mistrio nos olhos escuros, de brilho intenso.
Na poca, a histria parecera muito romntica para os trs filhos do prncipe Paul, mas, depois que Augustina assumira o poder, ela proibiu qualquer meno ao assunto.
- Lendas desse tipo so sempre mentiras inventadas por pessoas no civilizadas, primitivas, que no tm mais nada em que pensar - afirmava a gr-duquesa, com raiva.
Fizera uma pausa e prosseguira, em tom firme:
- Estudei a rvore genealgica da famlia e garanto que no h uma palavra verdadeira nessa histria de sangue cigano entre os antepassados dos Rknzi.
Esperou, para ver se algum a contradizia, mas ningum se aventurou a discutir o assunto. Assim, ela acrescentou:
- Descobri mesmo, na histria da famlia, que a gr-duquesa responsvel por esse falatrio foi tratada por um competente mdico francs, que conseguiu faz-la engravidar.
Interrompeu-se novamente para verificar o efeito de suas afirmaes, e concluiu:
- Ento, essa histria no deve ser repetida por ningum da famlia!
Letcia nada retrucara. Mas, assim que chegou em casa, olhou-se no espelho e notou que seus cabelos eram diferentes dos de outras moas, que eram apenas escuros.
Lembrava-se tambm de que o pai lhe dizia que sua graa era uma herana dos ciganos.
Sempre que se via sozinha, Letcia danava e percebia que seu corpo era gil, e ela conseguia dar voltas, rodopiar e fazer os movimentos mais difceis das danas 
ciganas.
Sabia tambm dar saltos no ar, pular por sobre uma fogueira parecendo voar, como apenas os ciganos eram capazes.
Decidida a descobrir mais coisas sobre a vida deles, sempre que saa a cavalo e se via longe das restries palacianas, parava e conversava com os membros de alguma 
tribo que andasse vagueando pelos vales floridos ou subindo as encostas dos morros.
Sabendo quem ela era e sentindo-se honrados com sua presena, os ciganos no apenas conversavam com Letcia, como respondiam s suas perguntas e lhe ensinavam algumas 
palavras de romani.
Tendo muito boa memria, logo ela adquiriu um bom vocabulrio cigano.
Conforme esperava, soube que eles conheciam a lenda do antepassado

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cigano da famlia Rknzi e admiravam seus cabelos escuros porque, assim como Letcia, acreditavam que fossem herdados deles.
Como odiava os ciganos, naquele ltimo ano a gr-duquesa passara a persegui-los, sempre que a ocasio se apresentava. Baniu-os cada vez para mais longe da capital, 
e Letcia tinha agora maior dificuldade em localiz-los.
- Como  que prima Augustina pode ser to cruel? - perguntara um dia  me, zangada, quando soubera que dois ciganos, acusados de crimes que eles juravam no ter 
cometido, tinham sido executados.
- Isso vai gerar grande descontentamento - respondeu a princesa Olga, suspirando. - Nossos ciganos sempre foram bons e amistosos e fazem parte de nosso pas.
- Precisa falar com primo Louis, mame, e pedir-lhe que faa alguma coisa a esse respeito.
- vou tentar! Mas voc bem sabe, querida, que ele acha difcil fazer qualquer coisa sem o apoio do primeiro-ministro...
- Que s faz o que prima Augustina lhe diz! - concluiu Letcia.
- Oh, mame, ela  uma mulher horrvel! S desejo que os ciganos faam algum feitio contra ela, para que sofra tanto quanto ela os faz penar!
A princesa Olga protestara:
- No diga uma coisa dessas, querida! D azar!
- Porque nos daria azar, a ns, que amamos os ciganos? Papai dizia que herdei meus cabelos dos ciganos, assim como meus movimentos, e tenho muito orgulho disso.
A princesa Olga sorriu. Sabia que, no apenas por Letcia ser muito bonita, como tambm porque ela parecia ter traos de sangue cigano, a gr-duquesa aproveitava 
todas as ocasies para humilh-la, excluindo-a das festas do palcio s quais a jovem tinha o direito de comparecer.
Como eles eram muito pobres e no podiam gastar em divertimentos, a princesa Olga passava horas imaginando o que poderia fazer a respeito.
Rezava, noite aps noite, para receber ajuda de algum jeito, primeiro para o seu filho querido, que encontrava dificuldades para viver no Regimento com a pequena 
mesada que a me podia lhe dar; segundo, para que Letcia, que estava com dezoito anos, tivesse mais oportunidade de frequentar a sociedade; por ltimo, por Marie-Henriette, 
que estava ficando to bonita quanto a irm.
- Oh, Paul, Paul! - suplicava Olga, no escuro. - Ajude-me a

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fazer pelos nossos filhos o que for possvel. Neste momento, tenho a impresso de que estou contra a parede.
Como sempre acontecia quando pensava no marido, caa em profunda depresso. Mas ocultava isso dos filhos, porque no queria
entristec-los.
Assim sendo, somente com o gro-duque falava a respeito de Paul. Louis o amara tanto quanto ela e compreendia os olhos marejados de lgrimas que ela mostrava nessas 
conversas.
Ainda  janela, Letcia disse:
- Vou fazer uma mgica cigana, ou, antes, um pedido para que certa coisa acontea.
- O que  que voc deseja? - perguntou Marie-Henriette ainda sentada  mesa, costurando.
- Qualquer coisa. s vezes sinto-me como que encarcerada aqui. Parece-me que ficaremos cada vez mais velhas e que aqui ser nossa sepultura.
- No fale desse jeito! Isso me d calafrios!
- Um cigano com quem conversei me falou de uma mgica. Se a gente acreditar bastante, o desejo sempre se realiza.
- Ento, faa isso! - pediu Marie-Henriette. - No sei o que est esperando.
- Ele disse que a gente deve fazer isso na lua cheia - esclareceu Letcia. - E ainda falta uma semana. Se vou formular um desejo mgico, que seja um bom!... Ento, 
pense em todas as coisas que voc deseja, Hettie, e procurarei guardar tudo na minha cabea.
Marie-Henriette riu.
- Meus desejos encheriam uma mala! Voc pode comear com uma dzia de vestidos novos e, pelo menos, trs ou quatro bailes, para eu poder
us-los.
- Muito bem. Vou colocar tudo na lista. Mais alguma coisa?
- Um prncipe alto, bonito e rico, que danar comigo e pagar as contas de meus vestidos.
Letcia riu, com o tom zombeteiro da irm.
- Isto seria muito imprprio!
- Pois bem,  pouco provvel que mame pudesse pagar por eles.
- Mas pagar, porque este  um dos meus desejos - replicou Letcia. - E, se voc quer um prncipe alto e bonito, tambm eu quero um.
- Ento,  fcil - disse Marie-Henriette. - Voc pede dois

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prncipes altos, bonitos e imensamente ricos. E, naturalmente, solteiros.
- Creio que desejar isso  o mesmo que ir  Lua. Mas os ciganos acham que suas mgicas nunca falham.
De repente, soltou uma exclamao.
- Deus do cu! No pode ser! Mas !
-  o qu? - perguntou a outra.
-  Stephanie! Vem correndo para c e est sozinha!
- No acredito! Voc sabe tanto quanto eu que ela no tem licena para dar um passo sem aquela baronesa velha e rabugenta por perto.
- Est sozinha!
Letcia atravessou a sala correndo e foi abrir a porta da frente.
- Stephanie! Que surpresa!
Quando a prima entrou no hall, Letcia percebeu que ela estava chorando.
- O que foi que aconteceu?
- Oh, Letcia, eu precisava v-la!
-  claro! Vamos para a saleta. Mame est de repouso e h sculos que voc no aparece aqui.
- Sim... eu sei - respondeu a moa, engolindo as lgrimas que lhe escorriam pelas faces. - Mame no permite que... eu venha... E agora consegui escapar daquela 
baronesa horrvel.
Soltou um soluo e continuou:
- Fugi por uma porta lateral e... vim correndo.
Letcia ajudou-a a se acomodar em uma poltrona e tentou acalm-la:
- Sente, querida. Tire o chapu e conte-me o que aconteceu.
Stephanie no possua leno e Marie-Henriette lhe ofereceu um.
A moa enxugou os olhos, mas foi intil, as lgrimas continuaram.
Era muito bonita, com cabelos loiros com reflexos ruivos e os olhos de um castanho-dourado, um trao caracterstico da famlia Rknzi.
No era nada parecida com a me, que tinha os traos duros e fortes dos prussianos. Qualquer pessoa que a visse perceberia que estava diante da filha do gro-duque. 
Na realidade, ela e Marie-Henriette eram muito parecidas.
Stephanie tirou o chapu e entregou-o a Letcia que se ajoelhara ao seu lado, abraando-a.
- Conte, querida, o que a perturbou - pediu Letcia. - No suporto v-la nesse estado.

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- Oh, Letcia... S o que desejo ... morrer!
- No diga isso. O que aconteceu, para torn-la to infeliz, meu bem?
Por um momento, teve a impresso de que a outra no conseguia falar. Depois, gaguejou:
- Mame disse que... tenho que casar com... o rei Vicktor!
Letcia encarou-a.
- O rei Vicktor, de Zvotana?
- S... Sim...
As lgrimas no a deixaram continuar. Soluava alto e todo o seu corpo tremia. Depois de algum tempo, ela continuou:
- Como poderia me casar com ele, quando vocs sabem que amo Kyril... e ele me ama...
As duas irms fitaram Stephanie, atnitas.
Sabiam que, quando o irmo estava em casa, sempre saa a cavalo com Stephanie. E tambm passava muito tempo no palcio, dizendo que l havia muito mais o que fazer 
do que em casa.
Sabiam que ele gostava muito de Stephanie, assim como elas, mas nunca lhes ocorrera que houvesse mais alguma coisa entre os dois.
- Ele... me ama!... Ele me ama! - soluou Stephanie. - E eu o amo. Se no puder me casar com ele... juro que me matarei!
Letcia soltou uma exclamao de protesto e abraou a prima com mais fora.
- No diga essas coisas horrveis! J contou  sua me o que sente por Kyril?
- No... claro que no! Mame ficaria... furiosa!  muito ambiciosa...
As duas irms sabiam que aquilo era verdade. Nada agradaria mais a
gr-duquesa do que uma aliana com um pas mais prspero do que Ovenstadt e ver Stephanie ser rainha.
- Mas contei a papai... E ele disse que nada lhe agradaria mais do que... me ver casada com Kyril.
- Ele sabe que sua me disse que voc tem que se casar com o rei?
- Sabe, sim... Mas no far nada para impedir. Deixar que mame faa o que bem entender... como sempre. E terei que casar com aquele homem horrvel... quando s 
o que desejo  estar com Kyril.
As lgrimas lhe escorriam pelas faces. Letcia enxugou-as delicadamente e pediu:

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- Pare de chorar, Stephanie! Conte-nos tudo o que foi planejado, desde o princpio.
Mame me deu a notcia... uma hora depois de ter visto o
primeiro-ministro...
Letcia prendeu a respirao, sabendo que isso significava que se tratava de uma deciso do Gabinete.
- Creio que ele trouxe uma carta... do rei, dizendo que aceitava o convite para vir nos visitar - relatou Stephanie. - Seja como for, mame disse:
- Tenho boas notcias para voc, Stephanie. Tenho certeza de que vai ficar muito contente. O rei Vicktor de Zvotana vem aqui na prxima semana e sei que vai pedi-la 
em casamento.
- E o que voc disse? - perguntou Letcia.
- No primeiro momento no consegui falar. Mame continuou:
- Voc  uma moa de sorte. Como se trata de uma visita oficial, vamos dar um jantar, um almoo e um baile em homenagem ao rei. Seu noivado ser anunciado quando 
dermos a ele a chave da cidade.
- E voc disse que no quer se casar com ele?
- No disse nada! Fiquei olhando para mame, achando que o teto havia desabado sobre a minha cabea. Depois, ela saiu, mas,
antes, disse:
- H muita coisa para fazer e, quanto mais cedo comearmos, melhor!
- Oh, pobre Stephanie! Que horror para voc!
O tom carinhoso de Marie-Henriette fez com que a prima recomeasse a" chorar.
- No suporto... isso... como posso falar com Kyril e pedir-lhe que... fuja comigo?
Letcia fitou-a, surpresa.
- Est disposta a isso?
Stephanie fez com as mos um gesto de desamparo.
- Creio que seria intil. Mame mandaria os soldados atrs de ns, e Kyril seria morto ou feito prisioneiro... por traio. Oh, Letcia... o que posso fazer?
Estava chorando to desesperadamente que Letcia a abraou com mais fora ainda.
Depois, olhando para a irm, disse:
- Precisamos fazer alguma coisa! Ela vai ficar doente.
Marie-Henriette fez o mesmo gesto desconsolado de Stephanie.
- O que podemos fazer? Ela tem razo ao dizer que a prima Augustina mandaria persegui-los e Kyril ficaria desonrado para sempre.
- Alm do mais, no teriam dinheiro - observou Letcia, baixinho.

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- No posso me casar com o rei Vicktor! No posso! - soluou Stephanie. - Ouvi falar dele...  um homem horrvel... e ningum quer se casar com ele.
- Porque diz isso? - perguntou Letcia, curiosa.
Como viviam muito isoladas, depois da morte do pai, recebendo poucas pessoas que ocupavam cargos oficiais, quase nada sabiam sobre o que se passava nos pases vizinhos.
Por outro lado, ningum diria nada  sua me, enquanto ela ou
Marie-Henriette estivessem presentes.
Mas, apesar disso, recordava-se de uma meno a um escndalo envolvendo o nome do soberano de Zvotana.
- Sempre achei que mame... no gostasse dele - disse Stephanie, enxugando as lgrimas. - Lembro de que, quando papai quis convid-lo para a estao de caa, no 
outono passado, ela disse que no... que o rei, alm de no se comportar bem, tinha... sangue cigano.
Letcia sobressaltou-se.
- Ela disse mesmo isso?
- Disse, sim, e cortou o nome dele da lista. Em vez disso, tivemos a visita daquele maante margrave de Baden-Baden. Papai disse que ele no seria capaz de acertar 
num elefante... a menos de dez metros de distncia!
Em outra ocasio, Letcia teria rido disso, mas Stephanie estava to pattica que nem mesmo pareceu engraado.
- Ento, tambm o rei tem sangue cigano nas veias!
-  uma coisa que mame sempre desprezou - respondeu Stephanie. - Mas um rei  um rei... e ela quer que eu seja rainha.
- Precisa refletir, Stephanie - aconselhou Letcia. - Pense cuidadosamente sobre o que podemos fazer. Claro que voc no pode se casar com o rei, amando Kyril.
Ao dizer isso, no pensava apenas na moa, mas tambm em Kyril.
Se ele amava mesmo a prima, o que Letcia concluiu que era verdade, ento ela estava decidida a fazer o que fosse humanamente possvel, com a ajuda de algum poder 
mgico ou divino, para obter o que seu irmo desejava.
Depois do pai, Kyril era a pessoa que Letcia mais amava no mundo. Desde pequenos os dois se pareciam demais.
Kyril correspondia a tudo que um pai desejasse num filho: bonito, atltico, ptimo cavaleiro e um verdadeiro desportista.

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Alm do mais, nunca tinha um pensamento mau. Assim como o pai, que fora adorado por todos aqueles com que tivera contato, Kyril tambm era muito querido, tanto na 
capital como nas outras regies do pas. E Letcia ouvira meno de que ele era muito popular no Regimento.
Tinha adquirido fama de bravura. Um general que viera visitar a princesa Olga dissera que os homens sob o comando de Kyril preferiam morrer a decepcion-lo.
A princesa ficara muito orgulhosa e Letcia tambm. Todas as noites, rezava para a segurana e a felicidade do irmo.
Agora, achou-se muito obtusa por no ter percebido, antes, que Kyril se apaixonara por Stephanie.
Sempre parecia muito feliz quando voltava do palcio, onde estivera com Stephanie. Como Letcia tambm se sentisse bem na companhia do irmo, atribua a euforia 
dele ao fato de estar em casa, em contato com a famlia.
"Que tolice a minha", pensou, "naturalmente, Kyril e Stephanie combinam muito um com o outro!"
Muito alto, forte e masculino, Kyril, na certa, se sentia tentado a proteger uma criatura doce, feminina e frgil como a prima.
Tendo sido criados juntos, Letcia considerava Stephanie quase como uma irm, mas agora compreendia que Kyril e a prima tinham muitas afinidades um com o outro.
Em Stephanie, sobressaam-se a delicadeza, a bondade e o encanto que herdara do pai.
Mas uma coisa era saber que seriam felizes juntos, e outra bem diferente, encontrar uma forma de alcanar essa felicidade. O irmo tinha tantas chances de se casar 
com a princesa como ela e Marie-Henriette de ver seus sonhos realizados.
Se a gr-duquesa enfiara na cabea que a filha se casaria com um rei, nem por um momento admitiria a hiptese de uni-la a outro homem. Por maior infelicidade que 
isso causasse, ela no permitiria que ningum a contrariasse.
- O que posso fazer, Letcia? - perguntou Stephanie. - Ajude-me, por favor.
Letcia levantou-se, e rumou de novo para a janela. Depois, em tom decidido, afirmou:
- Precisamos fazer alguma coisa. O primeiro passo, embora eu no saiba como possa ser dado,  impedir que o rei pea a sua mo.

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Houve silncio. Letcia virou-se e viu que tanto Stephanie como Hettie a fitavam, atnitas.
Depois, como se Letcia as tivesse hipnotizado, Stephanie perguntou;
- Voc poderia... fazer isso? Mas... como, Letcia?
- Ainda no sei. Mas deve haver um meio e temos que encontr-lo. E depressa!

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CAPTULO II

De repente, Stephanie estremeceu ao se lembrar de que deixara o palcio sem autorizao. Teria problemas se dessem pela sua falta, e resolveu dar a visita por encerrada.
- Mame no sabe que vim aqui.
Letcia aproximou-se e assentiu com a cabea.
- Creio que seria um erro deixar que ela descobrisse. Mas, querida, procure no se preocupar. Prometo fazer o que estiver ao meu alcance para salvar voc.
- Est falando srio?
- Se for humanamente possvel, assistiremos ao seu casamento com Kyril e no com o rei!
Stephanie no respondeu de imediato. Colocou os braos  volta do pescoo da prima e recomeou a chorar.
- Amo Kyril... Amo-o tanto que s me casarei com ele! Mas no tenho coragem de enfrentar sozinha a clera de mame.
Letcia no fez mais nenhum comentrio. Tanto ela como a irm conheciam de sobra o temperamento da gr-duquesa, para saberem
O quanto seria difcil para Stephanie contrari-la.
Afastou-se suavemente da prima e, enquanto a via despedir-se de
Marie-Henriette, apanhou-lhe o gracioso chapeuzinho de fitas. Beijou-a carinhosamente, ajudando-a a recompor-se, e a acompanhou at  porta.
Espiou os dois lados do ptio para se certificar de que ningum as observava e fez um sinal para a prima. Stephanie saiu e correu em direo ao palcio.

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Nunca faltavam sentinelas nas entradas principais; em compensao as portas laterais estavam sempre desguarnecidas. E eram essas passagens que Stephanie e as primas 
usavam quando queriam encontrar-se longe de olhares curiosos.
Letcia observou o pequeno vulto afastar-se at desaparecer em meio das moitas e das rvores que circundavam o castelo. Fechou a porta silenciosamente e retirou-se 
de volta  saleta de costura. Assim que entrou, a preocupao estampada no rosto, desabafou com a irm.
- Tenho a impresso de que o mundo est de pernas para o ar, Como  que no percebemos que Kyril e Stephanie se amavam?
-  estranho mesmo. E o que  pior: prima Augustina jamais consentir nesse casamento.
- No podemos permitir que Stephanie se case com o rei, estando apaixonada por Kyril!
-  horrvel algum ser condenado a conviver com uma pessoa a quem no ame. Nunca aceitei essa ideia, embora papai tenha me dito h muitos anos, que  esse o preo 
de se ter sangue real nas veias.
- Voc discutiu com papai sobre casamento?
- Sim. E ele confessou que tivera muita sorte em se apaixonar por mame e obter consentimento para se casar com ela. Mas temia que conosco as coisas fossem diferentes.
- Esse tipo de opinio no me parece caracterstica de papai.
- Ele estava perturbado porque a prima Carlotta tinha sido obrigada a se casar com aquele horrvel prncipe de Wurttenberg. Ela se lamentara com papai dizendo que 
era muito infeliz.
Lembrando-se da prpria famlia, Letcia constatou que quase todos os seus parentes haviam se casado por razes polticas e diplomticas e raramente por amor.
Mesmo o gro-duque submetera-se aos interesses estatais, e agora devia maldizer-se por isso. Levava uma vida miservel com a esposa prussiana, que no perdia uma 
chance de humilh-lo e submet-lo aos seus caprichos. Era revoltante!
- Acho que os anarquistas tm razo quando desejam a abolio da monarquia.
Marie-Henriette soltou uma exclamao escandalizada.
- Letcia, isso no  coisa que se diga!
- Sim, eu sei. Mas, se isso acontecesse, Stephanie no seria pressionada para se casar sem amor!
- No seja to romntica! Ela ter a compensao de ser rainha.

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Como Letcia no retrucasse, Hettie continuou a desfiar uma srie de vantagens e confortos que a prima desfrutaria sendo rainha:
Possuir os mais belos vestidos, viver num palcio confortvel
e todos se curvaro ao v-la passar.
Letcia suspirou. No gostava quando a irm falava daquela forma to interesseira. Contudo, no podia conden-la por isso. Afinal, ela nunca se conformara com a 
decadncia que se abatera sobre a famlia depois da morte do pai. As duas, embora fossem quase da mesma idade, tinham ideias diferentes, e Marie-Henriette dava muita 
importncia a coisas como vestidos, jias, criados, luxo...
"Pobre Hettie, vai sofrer muito por causa dessa ambio...", pensava ela, quando um gritinho abafado a trouxe de volta  realidade.
- Letcia! Estamos perdidas! Se vai mesmo haver um baile, prima Augustina ser obrigada a nos convidar e no temos uma nica roupa decente para vestir!
- Vou falar com mame, mas no fique muito esperanosa. Voc sabe como estamos mal de finanas, no momento. No h mais nada para vendermos, a no ser o anel de 
noivado dela, e no  justo que ela se desfaa de algo to precioso e cheio de recordaes.
- No, claro que no!
Se as palavras iam de encontro s ideias da irm, a expresso que havia em seus olhos indicava coisa muito diferente. Ela parecia estar se segurando para no gritar 
que de nada adiantavam brilhantes, se viviam isoladas da sociedade e ningum as admiraria.
- Vamos descobrir uma soluo - confortou-a Letcia, afagando-lhe a mo. - Mas, primeiro, temos que pensar em Stephanie e em suas preocupaes.
- Espero que voc no tenha tornado as coisas mais difceis para ela. Agora, Stephanie acredita que voc encontrar algum meio mgico que impea o rei de pedi-la 
em casamento. E ns duas sabemos muito bem que prima Augustina j tem pronta a corda para amarr-lo assim que ele pise aqui.
Marie-Henriette tinha conscincia de que a irm preferia a ao s Palavras. Assim, com certa curiosidade, observou-a encaminhar-se at
ao vestbulo e colocar o chapu, que conservava certa elegncia, apesar dos anos.
- Vou visitar nossa tia-av Aspsia e pedir-lhe um conselho.
- Ela no poder ajud-la, querida.
Mas Letcia j tinha sado e no a escutou. Atravessou o ptio

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rapidamente e dirigiu-se para uma casa no lado oposto.
Era maior do que a delas. Tinha sido uma das primeiras a serem construdas e servia de residncia  tia-av Aspsia depois que ela fora banida do palcio pela esposa 
do gro-duque.
Na poca, as relaes entre as duas sofrera um grande abalo, e a princesa Aspsia resolvera se instalar ali, com vrios criados idosos para
servi-la.
Como tinha dificuldades para se locomover, no tomava parte nas cerimnias da corte. Em compensao, sabia de tudo e vivia de mexericos. No havia nada do que se 
passasse no palcio, na capital ou mesmo no pas que a velha senhora no ficasse a par.
Sua "rede de espionagem" constitua um verdadeiro mistrio para todo o mundo. Mas no sobravam dvidas de que ela era a pessoa mais bem informada do lugar.
Muita gente lhe temia a lngua ferina, ou devotava verdadeira averso por sua franqueza e espontaneidade. Letcia, no entanto, achava-a fascinante e lhe dedicava 
muita afeio. Sabia que a boa senhora jamais se recusaria a ajud-la.
Bateu a aldrava de prata polida e aguardou algum tempo at que o velho mordomo viesse abrir a porta. Assim que o viu, cumprimentou-o:
- bom dia, Feliz!
- Oh, que surpresa agradvel! Sua Alteza Real ficar contente por v-la.
- No se d ao trabalho de me anunciar - tranquilizou-o Letcia, sabendo que o velho no tinha a mnima inteno de se cansar, subindo a escada.
Apoiando-se no corrimo, ela se precipitou para o andar de cima, saltando os degraus de par em par. Pouco depois, entrava na grande sala, ao lado do quarto ocupado 
por Aspsia, onde as visitas eram recebidas pela dona da casa.
Via-se ali uma srie de bibels e estatuetas antigas que a princesa havia colecionado durante toda a vida e das quais nunca se separaria. Muitas peas de porcelana 
e prata que ela ganhara durante a juventude se espalhavam pelos aparadores ao lado de uma poro de outras lembranas, entre as quais um quadro que um de seus antepassados 
fizera, e vrios retratos pintados por amadores. Guardava tambm um estojo cheio de medalhas ganhas por seu pai, alm de uma espada que pertencera a um de seus irmos.
Ramos de flores secas e potes com perfumes completavam as preciosas relquias da princesa. Tudo isso estava disposto em mesinhas

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e tamboretes, que ocupavam toda a passagem at a poltrona em que a tia-av se acomodara, prxima  janela. Letcia teve que fazer acrobacias para se aproximar da 
velha, que a recebeu com um sorriso.
- Estava  sua espera, querida.
Letcia fez uma reverncia e beijou-lhe a mo e a face.
- Como sabia que eu viria? -. perguntou.
- Imaginei que voc gostaria de conversar sobre a visita do rei Vicktor.
Letcia fitou-a, atnita. Aquela mulher era realmente surpreendente. Parecia adivinhar as coisas antes mesmo que acontecessem.
- Como descobriu isso?
- H algumas semanas me contaram que a "vbora" andava conspirando com o primeiro-ministro de duas caras, para trazer o rei a Ovenstadt, em visita oficial.
A princesa mantinha prxima de si uma confortvel cadeira de estilo elizabetano para as visitas. Apontou-a para Letcia, que logo se acomodou, sorrindo. Sabia que 
a tia-av gostava que lhe falassem de perto, embora no admitisse que o principal motivo disso fosse a surdez que se agravara nos ltimos tempos.
Aspsia tinha como ponto de honra manter sempre a imagem de mulher alegre e cheia de vida, apesar de seus oitenta anos. Muito espirituosa, chocava a todos com o 
tom depreciativo com que falava das pessoas.
Quem se desse ao trabalho de observ-la estranharia o fato de que nunca tivesse se casado. Seus traos revelavam que fora atraente durante a juventude e, se tivesse 
frequentado a sociedade em vez de gastar a mocidade cuidando dos pais, na certa sua sorte teria sido outra.
Letcia a admirava demais e estranhava que ela se mantivesse sempre a par de tudo. Assim, no teve receio de ir direto ao assunto, porque sabia que no precisaria 
perder horas com explicaes:
- Bem, ento voc deve suspeitar tambm das intenes de prima Augustina em relao ao rei Vicktor e Stephanie.
- Ham, ham! Ela j comunicou  filha o destino que a espera?
- Sim! Stephanie acaba de sair de nossa casa. A pobrezinha est muito abalada!
- Uma de minhas criadas a viu correndo pelo jardim, chorando! Ela lhe contou que est apaixonada por Kyril?
- Voc sabe disso, tambm?

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- Claro! E se voc fosse um pouquinho perspicaz teria percebido como estavam melosos um com o outro, durante todo o inverno!
Letcia riu. Quem lhe dera chegar quela idade com tamanha lucidez!
- Oh, tia Aspsia! No existe ningum como voc! Bem, vou direto ao motivo da minha visita. Quero que me diga como fao para impedir que o rei pea a mo de Stephanie, 
e para ajud-la a se casar com Kyril.
A expresso da velha senhora mudou. Agora no se mostrava maliciosa e sim tristonha. Em vez de responder, Aspsia limitou-se a sacudir a cabea.
Para Letcia isso foi um balde de gua fria em suas esperanas. Olhou-a desalentada, e perguntou:
- Acha impossvel?
- S com um milagre os dois obteriam consentimento para se casarem. A "vbora" jamais admitiria que a filha no fosse rainha.
-  revoltante! Stephanie est to infeliz que prefere morrer a se casar com o rei.
- Tornar-se rainha vale qualquer sacrifcio - argumentou a princesa, secamente.
- Hettie  da mesma opinio, mas eu tenho certeza de que nada compensaria a infelicidade de se unir a um homem quando se ama outro.
- Concordo que as coisas se compliquem, pelo fato de Stephanie estar apaixonada por Kyril. Do contrrio, seria feliz com o rei.
Letcia fitou-a, surpresa.
- Como diz isso? Todos comentam que ele  horrvel.
- Isso  despeito da gr-duquesa, simplesmente porque ele no  convencional e despreza os padres prussianos.
Aspsia fez uma pausa para observar o efeito de suas palavras e com uma expresso irnica, acrescentou:
- Pessoalmente, adoraria conhecer o rei Vicktor. Pelo que sei a respeito dele, aposto que nos daramos muito bem.
- Que tipo de coisas so?
- Coisas que no devo repetir a uma menina como voc.
A boa senhora reforou as palavras com um gesto de reprimenda. Agora havia um brilho malicioso em seu olhar, e Letcia desconfiou que se tratasse de alguma fofoca 
divertida e imprpria que a tia-av descobrira.

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- Diga-me o que , por favor!
- Porque est to interessada?
- Prometi a Stephanie que tentaria salv-la.
A princesa fez um muxoxo que era um misto de desaprovao e de zombaria.
- Est assumindo uma responsabilidade muito grande, menina!  melhor no deixar que prima Augustina descubra que voc est incitando a filha a rebelar-se. Sabe muito 
bem que ela espera ser obedecida cegamente!
Letcia no pde deixar de rir. Como detestava a gr-duquesa, era um consolo ouvir algum falar dela de maneira to sarcstica.
- Se ao menos os dois pudessem fugir! Mas Stephanie tem medo de que os soldados os persigam e prendam Kyril como traidor.
- No tenha dvidas de que seria esse o desfecho. Vocs tm que arranjar uma soluo melhor.
Seguindo o curso dos prprios pensamentos, Letcia ps-se a analisar a situao em voz alta:
- No temos muito tempo. O rei chega dentro de uma semana, na
quinta-feira.
- Exato! Ouvi dizer que vem de carruagem, ou a cavalo, desde Zvotana. A viagem levar um dia inteiro, e ele pretende passar a noite no castelo Thor, nas montanhas.
Letcia soltou uma exclamao:
- No me lembrei disso!  bvio que precisar pernoitar l.
Letcia conhecia e adorava o castelo Thor! Nos bons tempos, seu
pai e o gro-duque costumavam levar as famlias para l, durante as frias de inverno. O melhor dessas temporadas era a chance de se ficar distante de Augustina. 
Como ela detestava o frio e se via sempre ocupada com os negcios de Estado, permanecia na capital.
Os dias corriam tranquilos, sem ningum para pr defeitos em tudo, ou fiscalizar as brincadeiras e aventuras que o grupo programava. Todos se entusiasmavam e descobriam 
ocupaes excitantes para passar ? tempo.
O gro-duque e o prncipe Paul escalavam as montanhas de picos cobertos de neve ou desciam at ao vale, para andar a cavalo. As crianas no ficavam atrs, e se 
divertiam escorregando nos imensos tobogas que se formavam nas encostas cobertas de neve.
Kyril adorava escalar os muros do castelo, o que deixava Letcia
aflita. Era muito arriscado subir pelas torres, ou andar perigosamente sobre as ameias, apenas para demonstrar que no tinha vertigem.

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 noite, todos cantavam e danavam no hall imenso, com a vasta lareira aquecendo o ambiente. A princesa Olga tocava piano para que as trs garotas e os dois meninos 
fizessem acrobacias ao som das msicas ciganas, que conheciam desde pequenos. Em algumas ocasies representavam pequenos textos infantis e, de vez em quando, at 
mesmo uma pea escrita e "dirigida por Letcia.
Depois da morte do pai de Letcia, as frias no castelo cessaram. Ningum ignorava que fora a gr-duquesa quem as impedira, da mesma forma que dificultava qualquer 
divertimento para a famlia do prncipe Paul.
Fugindo dessas recordaes, Letcia quebrou o silncio:
- Espero que o rei aprecie o castelo. Papai o adorava.
A nota de nostalgia em sua voz revelou a Aspsia o quanto ela tinha saudade dos velhos tempos. A boa senhora sacudiu a cabea e tentou consol-la:
- Duvido que o rei Vicktor goste de alguma coisa, depois que descer das nuvens e se encontrar com a "vbora". Ele no deve sequer desconfiar do que esperam dele 
em Ovenstadt.
- No entendo porque um homem to importante, que governa um pas bem maior do que o nosso, precisa vir aqui e atrapalhar tudo, obedecendo  prima Augustina.
- Vou dizer-lhe o que sei, isto , o que acho que voc pode ouvir. Talvez a ajude a decifrar esse enigma.
- Por favor conte-me tudo. Estou desesperada, sem saber como fazer para salvar Stephanie...
- Chegou aos meus ouvidos que o rei Vicktor est com muitos problemas em Zvotana.
- Porqu?
- Ele subiu ao trono h apenas trs anos. Antes disso, devido a um regente estpido e incompetente, cresceu no pas o nmero de rebeldes.
- De que modo?
- Havia revolucionrios influenciando o povo contra a monarquia, o que no foi difcil, porque tanto poltica como financeiramente a situao estava pssima. Quando 
chegou da Frana, onde tinha ido estudar, o rei Vicktor se viu numa situao capaz de estontear qualquer rapaz da idade dele.
- Ento,  jovem! Pensei que tivesse pelo menos quarenta anos!

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Ele vai fazer trinta anos mas no esperava herdar a coroa, porque  apenas sobrinho do ltimo rei.
- E o que aconteceu com o herdeiro?
- Boris era muito jovem quando o pai morreu e por isso foi escolhido um regente. Mais tarde, quando ele estava em idade de assumir, se envolveu num duelo.
Letcia estava de olhos arregalados. A princesa sorriu e continuou: - Claro que nunca deveriam ter permitido isso, mas o regente, um idiota, no soube de nada, at 
que j era tarde.
- O prncipe morreu?
- Sim! E por causa de uma atriz qualquer, com a qual nunca deveria ter se envolvido.
- Deve ter sido um escndalo...
Aspsia reforou o comentrio, com as lembranas que tinha da poca:
- As cortes da Europa no falaram em outra coisa, mas o caso foi abafado na medida do possvel. Vicktor, que estava em Paris, divertindo-se,
viu-se obrigado a retornar para ser coroado e assumir o governo de um pas do qual estivera ausente tantos anos.
A princesa deu uma risadinha e esclareceu num tom mais terno:
- Tenho pena do pobre rapaz! Acredito que os ltimos trs anos tenham sido muito desagradveis para ele.
- Ento, porque prima Augustina sempre afirmava que no o queria aqui no palcio, e que ele tem sangue cigano?
Aspsia deu um sorriso malicioso e, com um tom insinuante, disse:
- Voc  jovem demais para saber a primeira parte da resposta.
- A gr-duquesa o achava imoral?
- Ele no levava uma vida de monge na Frana, e no viu motivos para modificar isso, depois de ter se tornado rei.  intil acrescentar que existem muitas damas 
bonitas dispostas a diverti-lo e distra-lo dos negcios de Estado.
- Dentro dos padres de prima Augustina isso deve ser um escndalo!
- Se h um lugar que faa a morte parecer prefervel,  o modelo de corte prussiana que a "vbora" tentou introduzir aqui.
Soltou um suspiro e baixou o olhar para o cho. Logo, ps-se a falar de suas recordaes de jovem:
- Nos tempos em que papai governava, o palcio era um lugar

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alegre, sempre com festas. Nosso povo tem uma natureza muito extrovertida e brincalhona, quando consegue ficar em paz.
- Meu pai sempre comentava a respeito.
- O prncipe Paul era um verdadeiro ovenstadtiano. Agia como eles e gostava das mesmas coisas: cantar, danar, rir e viver despreocupadamente.
- Conte-me mais a respeito do rei.
- A segunda parte da resposta : sim! Ele tem sangue cigano, da mesma forma que nossa famlia.
- Prima Augustina diz que isso  mentira.
- Cada um acredita naquilo que quer... Mas voc, minha menina,  bonita porque tem os cabelos negros iguais aos de nossos antepassados ciganos.
- Estou contente por encontrar mais algum que no duvide da lenda. No converso nunca a respeito porque tenho raiva quando desmentem essa histria.
- No  segredo nenhum que meu tetrav levou a esposa a todos os mdicos, curandeiros e clnicas antes de recorrer  ajuda de um cigano para fazer aquilo que ele 
no fora capaz...
Aspsia pareceu arrepender-se de falar to impulsivamente sobre o passado com uma pessoa to jovem como Letcia. Mas, vendo o interesse estampado no rosto da sobrinha, 
decidiu concluir o relato:
- Depois daquela magia, meu tetrav teve finalmente um filho, que se tornou to bonito a ponto de as damas da corte ficarem boquiabertas ao v-lo. Muitas chegavam 
ao cmulo de desmaiar quando ele lhes dirigia a palavra!
Letcia bateu palmas, entusiasmada com a histria.
- Estou contente por ter me contado isso!  muito romntico!
Enquanto escutava as aventuras de seus antepassados, ela pareceu
voar at aquela poca cheia de sonhos. Agora, entretanto, os problemas de Stephanie a traziam de volta  realidade. Por isso pediu:
- E o rei? Porque tem sangue cigano nas veias?
- A ligao dele com os ciganos  mais estreita do que a nossa, porque seu bisav se casou com uma cigana.
- Como?
- Ela era russa. Como os ciganos cantam e danam maravilhosamente, os gro-duques e os prncipes da Rssia competiam uns com os outros para contrat-los para atuar 
em suas casas e teatros particulares.

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Fez uma pausa. Percebendo que Letcia ouvia de olhos arregalados, prosseguiu:
- A bisav dele, Saviya, era a mais famosa danarina cigana da poca. Durante uma visita do rei de Zvotana ao czar, ela se apresentou no palcio, em So Petersburgo, 
e o bisav de Vicktor apaixonou-se loucamente por ela.
- E a moa concordou em se casar com ele?
- Creio que voc sabe que os ciganos tm costumes muito severos. Saviya recusou-se a ser amante do rei, pois pretendia, algum dia, formar uma famlia e desposar 
um homem da prpria tribo...
- Mas o destino a levou a casar-se com o rei... - interrompeu Letcia, com ansiedade.
- Parece que foram muito felizes. Mas, quando ela chegou em Zvotana, houve muito descontentamento e vrios parentes se recusaram a receb-la.
- Que situao horrvel!
- Saviya morreu quando teve o primeiro filho, uma menina.
- Que tristeza!
- O rei ficou desolado, mas teve que contrair novas npcias, para que houvesse um herdeiro ao trono. O neto desse herdeiro era Boris, aquele que morreu num duelo.
- E a filha de Saviya?
- Por ironia do destino, ela se casou com um primo do rei. Tiveram uma filha que desposou o tio de Boris, o irmo mais moo do falecido rei. O filho desse casal 
 Vicktor, que, no final, veio suceder ao tio.
- -  uma histria fascinante! Ele tem tipo cigano?
A princesa sorriu condescendente.
- Est a uma pergunta que no sei responder. Nunca o vi. Mas, se sua famlia servir de exemplo, o sangue cigano deve t-lo tornado to atraente como Kyril.
As palavras da tia-av fizeram-na lembrar-se mais uma vez da ameaa que havia sobre o romance do irmo e Stephanie.
- Por mais bonito que seja, Stephanie no poder am-lo tanto como ama Kyril.
- Talvez! Mas no esquea que os membros da realeza tm a obrigao de casar-se com quem lhes for determinado. E a "vbora" far ? o impossvel para que a filha 
no a desafie.
- Meu Deus, tem que haver uma soluo!

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- Gostaria muito de ajud-la, minha querida.
Sacudiu a cabea desanimada e acariciou os cabelos de Letcia, antes de completar:
- S posso lhe prometer que tentarei descobrir a opinio do rei Vicktor sobre tudo isso.
- Ele no tem motivos para se casar com Stephanie. Afinal, nem a conhece.
- Engana-se. Ele viu um retrato dela.
- Como sabe?
Antes que a princesa respondesse, Letcia soltou uma exclamao:
- Naturalmente! Stephanie posou para um retrato h um ms mais ou menos.
- Correto! Foi ideia da "vbora" mandar o quadro para Zvotana, e dizer  filha que seria um presente para o gro-duque.
- Por mais bonita que Stephanie estivesse no retrato, isso no justifica um pedido de casamento.
- Na minha opinio, tudo no passa de uma encenao, como um circo romano!
Como Letcia era muito instruda, sabia que, quando os governantes romanos queriam desviar a ateno do povo de alguma derrota nos campos de batalha ou das privaes 
que estavam sofrendo, providenciavam magnficas exibies no Circo Mximo. Podiam ser representaes dramticas, corridas de bigas ou caadas de animais selvagens.
Assim, mantinham as pessoas entretidas, fazendo com que no pensassem em seus problemas. A expresso era usada agora para designar artifcios polticos com essa 
finalidade.
Letcia fitou-a com incredulidade e, depois de alguns minutos de silncio, falou:
- Ento o casamento do rei com Stephanie ser um circo romano para Zvotana!
- Voc tem o raciocnio rpido, querida. As mulheres de todos os pases gostam de um casamento e voc ver que aqui o povo esquecer, ao menos por um dia, o quanto 
odeia a gr-duquesa e as novas leis e impostos que esto sendo aplicados, em nome do pobre Louis.
Letcia fitou a tia-av, surpresa.
- O povo realmente detesta prima Augustina tanto quanto ns?
- Muito mais! E, se Zvotana precisa de um circo romano, Ovenstadt no fica atrs.
- Jamais imaginei que a situao estivesse to ruim.

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- A poltica do primeiro-ministro elevou o custo de vida de maneira astronmica. E lembre-se: quando o povo passa fome se rebela!
- E o gro-duque?
- Gostaria apenas que Louis percebesse o que est acontecendo.
- Talvez mame pudesse conversar com ele.
-  a melhor ideia. Acho que a princesa Olga  a nica pessoa capaz de faz-lo perceber o quanto precisa se firmar e acabar com a corrupo antes que seja tarde 
demais.
- Ento, porque no conta a ela o que est me dizendo?
A princesa fez uma pausa e acrescentou lentamente.
- Minha querida, tenho pensado nisso h muito tempo. Mas sei o quanto vocs j sofrem por causa do dio e da inveja da "vbora", e as coisas poderiam se complicar 
ainda mais.
Era bvio que, se suspeitasse que Louis tratava de poltica com Olga, a gr-duquesa arranjaria uma forma de dificultar as coisas para os dois. Letcia, porm, no 
admitia a ideia de permanecer de braos cruzados,  espera de um milagre.
- Ento o que podemos fazer?
- Apreciar o circo romano, suponho...
Letcia no podia se conformar com isso e interrompeu a boa senhora com um protesto.
- No, no! No podemos ser to fracos a ponto de permitir que Stephanie e Kyril sejam infelizes para o resto da vida.
- Voc fala exatamente como seu pai quando queria ajudar algum. E ele sempre conseguia.
- Se papai estivesse aqui, diria que no  justo que duas pessoas sofram pela falta dos outros.
- Tenho certeza que sim, mas nem Paul encontraria uma soluo dessa vez.
Letcia levantou a cabea. Em seus olhos brilhava um misto de determinao e coragem. Quando falou, espantou-se com a prpria firmeza da voz:
- Deve haver uma sada. Hoje  tera-feira, temos uma semana at a chegada do rei.
Letcia estava muito bela. Os cabelos brilhando contra a claridade da janela, o corpo muito altivo, um leve rubor nas faces e os olhos com uma expresso intensa.
Bonita demais para ficar trancada naquela pequena casa", considerou Aspsia, mentalmente.

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De repente sentiu-se velha e intil. Ento, com a intuio prpria das pessoas idosas, ps-se a incentiv-la, quase sem perceber:
- No sei como, meu anjo, mas tenho o pressentimento de que voc achar uma maneira de ajudar Stephanie e Kyril. Sua causa  justa e fora de vontade no lhe falta. 
Estarei torcendo para que tudo corra bem.
Voltando para casa, Letcia sentia-se reanimada pelas palavras encorajadoras da tia-av. Apesar de no ter a mnima ideia sobre o que fazer, estava certa de que 
se desincumbiria bem da tarefa a que se propusera.
Durante o leve almoo, a conversa girou em torno do eventual casamento de Stephanie. Letcia sentia um aperto no corao cada vez que essa possibilidade era mencionada. 
Precisava se afastar dali, para refletir com calma sobre o assunto. Assim, logo que a mesa foi tirada e o caf servido, comunicou a Olga sua deciso de sair:
- Vou andar a cavalo esta tarde, mame.
-  vontade, querida! Mandarei Gustave lhe fazer companhia. Voc sabe que prima Augustina se choca ao v-la cavalgar sozinha.
- Gustave est velho at mesmo para cuidar dos cavalos. Porque lev-lo junto num passeio cansativo? Ficarei longe do palcio e espero que nem prima Augustina nem 
seus criados espies me vejam.
A princesa suspirou, mas no teve coragem de contrari-la e calou-se.
No era nenhuma novidade que a gr-duquesa havia introduzido no palcio vrios criados que lhe contavam tudo o que acontecia. Principalmente o que se referia  famlia 
do prncipe Paul.
Letcia beijou a me com carinho, despediu-se de Hettie e rumou para os estbulos, no fundo da casa. Nas baias, restavam apenas dois dos muitos animais de raa que 
o pai criava. Haviam se desfeito dos demais, por ocasio da mudana para a "casa de cortesia".
Cumprimentou Gustave, que estava parado na entrada, e acariciou os dois garanhes, negros e lustrosos, que batiam as patas irrequietos Observando-os, concluiu que 
o prncipe Paul ficaria orgulhoso dos belos puros-sangues. Agradeceu tambm pelo fato de Kyril estar de servio no Regimento; caso contrrio, o irmo monopolizaria 
tanto os cavalos que ela no teria chance de dar seu passeio.
Ordenou ao cavalario que selasse Kaho, o que foi feito com extrema  habilidade, e saiu. Contornou o castelo e as "casas de cortesia" por trs, aproveitando as sombras 
das rvores e rezando para passar despercebida at atingir o descampado, longe da cidade.

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Enquanto cavalgava, ia imaginando o que Augustina diria se soubesse o significado do termo Kaho.
- Seria muito engraado - murmurou ao acariciar o pescoo macio do animal - se a "vbora" descobrisse que seu nome quer dizer chefe, e que  uma palavra romani. 
Ela mandaria fuzilar ns dois.
Bastou um leve toque de chicote para que o cavalo avanasse a todo galope em direo ao vale. Assim que se viu distante da cidade, diminuiu a marcha, at quase parar, 
dominada pelo fascnio que a vista de Ovenstadt produzia nela.
Ao longe, havia uma cadeia de montanhas que tambm pertencia a Zvotana. Como se estendesse por uma rea considervel, servia de fronteira natural com outros pases, 
alguns no to amigos.
Eram to altas que, mesmo no vero mais quente, avistava-se um pouco de neve nas fendas e no topo. Agora, no final da primavera, os picos brancos reluziam contra 
o azul do cu. A gua do lento degelo irrigava as terras, tornando-as frteis. Por isso, observava-se uma profuso de flores silvestres multicoloridas.
 medida que se afastava da cidade, olhava para a direita e para a esquerda, tentando identificar algum sinal do que procurava: uma tribo cigana!
Devido ao que Aspsia lhe contara sobre a descendncia do rei Vicktor, ela se convencera de que os ciganos seriam capazes de indicar uma soluo para seus problemas 
e dificuldades. Talvez possussem alguma magia que ela pudesse utilizar, ou fossem capazes de lhe dar uma nova sugesto.
De qualquer modo, o impulso que a levava a procur-los possua uma fora to irresistvel que ela jamais se perdoaria se no o fizesse. Surpreendentemente, teve 
que cavalgar mais de uma hora at avistar um grupo de ciganos, com suas carroas de lonas coloridas.
Letcia esperava ter encontrado uma tribo importante, se possvel hngara. A Hungria fazia divisa com Ovenstadt a leste, e os ciganos de l, embora frequentemente 
perseguidos e maltratados, eram inteligentes e vinham de uma das linhagens mais antigas. Naquele pas, o chefe da tribo era chamado "Duque do Pequeno Egito". O rei 
da Hungria, em pocas passadas, havia dado cartas de proteo aos ciganos, mas, atualmente, elas pareciam ter pouco valor.
Assim que se aproximou, ela pressentiu que a sorte a ajudara. Percebera, por alguns sinais, que eles no apenas eram hngaros, mas especificamente do ramo Kalderash. 
Essa tribo se tornara conhecida atravs dos maravilhosos copos de ouro que produzia. Os nobres na

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Hungria os procuravam para adquirir esses enfeites para suas mesas Alm desse trabalho eles confeccionavam tambm outras raridades em metal, e podia-se dizer que 
aquela fosse a tribo que mais entendia de magia.
- Obrigada, meu Deus!  justamente o que eu estava precisando - murmurou Letcia, fustigando o cavalo para ir mais depressa.
Sentia o corao bater apressado como se j tivesse encontrado a frmula para salvar Stephanie,  medida que se aproximava das oito carroas.
Quando chegou, vrios ciganos de pele morena viraram-se para ela e fitaram-ha, por um momento, com olhos suspeitos.
Eram extremamente atraentes, com as mas do rosto salientes, olhos e cabelos negros. Por essas caractersticas, Letcia deduziu que, alm de hngaros, deviam possuir 
sangue russo tambm.
Uma das mulheres deve t-la reconhecido, pois pronunciou seu nome em romani. Em segundos, todos a fitavam sorrindo e as crianas corriam curiosas em sua direo.
Letcia parou o cavalo, e cumprimentou-os em romani:
- bom dia! Quero falar com o Voivode.
Muitas das mulheres, com lenos vermelhos na cabea e enormes brincos de ouro pendentes das orelhas, bateram palmas e soltaram exclamaes de contentamento ao perceberem 
que ela falava na lngua deles.
Um dos meninos correu para uma carroa e, logo depois, surgia, acompanhado de um homem alto. O porte do desconhecido, assim como as roupas, revelaram a Letcia que 
estava diante de um "Duque do Pequeno Egito".
Usava um casaco azul e botas de cano bem longo. Em sua curta jaqueta havia vrios botes dourados e no pescoo pendia uma grossa corrente de ouro com um medalho. 
Trazia na mo um basto chamado bare esti roble rupui, que era uma espcie de cetro.
No basto estava gravado o semno, ou o autntico sinal dos ciganos, compreendendo os cinco smbolos rituais. Todo de ouro e prata, era enfeitado com uma borla vermelha.
Enquanto o via aproximar-se, Letcia desceu do cavalo. No mesmo instante dois adolescentes se adiantaram para cuidar de Kaho.
Ela atravessou a multido de ciganos curiosos at chegar ao Voivode e estendeu-lhe a mo.
- Creio que sabe que sou a princesa Letcia de Ovenstadt e gostaria de falar-lhe em particular, se for possvel.

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Ele fez uma reverncia ao apertar-lhe a mo, num cumprimento em nada subserviente, mas de igual para igual.
- Ficaria honrado, Vossa Alteza - assentiu com voz grave.
Andaram entre as carroas at chegarem a uma mais decorada, junto  qual havia uma poltrona. O Voivode estalou os dedos e uma menina trouxe rpido outra cadeira 
e a colocou ao lado da primeira.
- Vossa Alteza quer se sentar? - convidou ele.
Letcia acomodou-se e decidiu falar alguma coisa:
- Para onde esto indo?
- No para sua cidade, se  isso que Vossa Alteza imagina.
- No estava pensando nisso. Posso apenas lamentar as novas leis que os impedem de andar livremente pelo pas como sempre fizeram no passado. Sei que isto deixaria 
meu pai muito triste.
- Sentimos muito a falta do prncipe Paul, mas estamos surpresos que o gro-duque permita que uma mulher prussiana, termine com a hospitalidade que sempre desfrutamos 
aqui.
- Ela no acredita, como eu, que temos o mesmo sangue que vocs.
Letcia disse isso de propsito e viu pela expresso dos olhos do
Voivode que ele estava no s satisfeito mas tambm surpreso por ela admitir esse fato.
- Ns, da famlia Rknzi, temos antepassados ciganos, e o rei Vicktor de Zvotana tambm.
O Voivode fez que sim com a cabea, como se j soubesse de tudo isso. Letcia sentiu-se encorajada a ir direto ao assunto:
- Quero lhe pedir um grande favor.
- Seus desejos so uma ordem, Alteza.
Letcia revelou-lhe em poucas palavras o que pretendia, e ele concordou. Ela no conteve a alegria e o agradecia sem parar:
- Obrigada, sou-lhe muito grata!
O Voivode sorriu comovido.
- Espero que aceite nossa hospitalidade. Como ainda  muito cedo Para uma refeio, posso lhe oferecer um copo de vinho?
- Sim, obrigada!
Ela no desejava ofend-lo, recusando a gentileza. Sabia que era uma grande honra ser convidada para beber com o Voivode porque a maior parte das tribos  muito 
reservada e s em circunstncias excepcionais permite que estranhos compartilhem das refeies.
O Voivode se levantou, foi at  porta da carroa e falou rpido em romani com algum que estava l dentro.
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Logo depois essa pessoa entregou-lhe dois maravilhosos copos de vinho trabalhados em ouro e enfeitados com pedras semipreciosas.
O Voivode pegou os copos e ofereceu-lhe um. Era uma pea to bonita que ela no pde deixar de elogiar:
- Nunca vi nada to extraordinrio! Foi o seu povo que fez?
- Ns os copiamos, mas esses copos esto na minha famlia h geraes e so famosos entre os Kalderash por sua perfeio.
- Tenho certeza de que muitas pessoas achariam estranho que voc tivesse objetos como esses, no s to belos mas tambm to valiosos.
- Se est pensando em ladres comuns, eles no tocariam em nada nosso com receio de uma maldio. Apenas os soldados nos tratam de forma bruta, mas, s vezes, at 
eles tm medo.
- Eles temem sua magia e  dela que preciso agora.
- Vou pensar sobre o que me disse...
- Ento ajude-me se for possvel.
- Voc j me tocou e farei tudo o que estiver ao meu alcance para
ajud-la.
Foi como ele a estivesse repreendendo por no confiar nele e Letcia desculpou-se com humildade:
- Perdoe-me, mas h tanta felicidade em jogo que no posso deixar de achar errado que as pessoas sejam infelizes por causa da ganncia e nsia de poder de outras.
Letcia estava se referindo  gr-duquesa quando falou e o Voivode, como se tivesse lido seus pensamentos, respondeu calmamente:
- Ela  m, mas para aqueles que acreditam ns temos uma magia mais forte do que os poderes do mal.
- Eu acredito, juro que acredito!
O Voivode sorriu como se as palavras dela o tivessem agradado.
- Sei que o que me disse veio de seu corao, Alteza. A magia que ns, Kalderash, podemos fazer est baseada no poder que vem do amor.
Como se no houvesse mais nada a dizer ele bebeu toda a bebida e Letcia o acompanhou.
O vinho era doce e suave, diferente de todos os que j provara.
Ela sentiu uma sensao maravilhosa e imaginou se seria magia tambm. Aquilo que os camponeses chamam de "poo do amor".
Sorriu por ter uma ideia to absurda e, levantando-se, disse:
- Obrigada mais uma vez pela bondade e hospitalidade. Confio em sua promessa.
Ele ps a mo na dela e despediu-se carinhosamente:

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V em paz. O caminho lhe ser mostrado, e seu corao deve
segui-lo.
O homem falou de maneira solene, quase como se a estivesse abenoando. Sem refletir, Letcia fez uma mesura para ele.
Ao andar at onde Kaho estava, no sabia se por causa do vinho, sentiu-se extremamente feliz, quase em xtase.
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CAPTULO iii

Ao retornar ao palcio, Letcia viu uma carruagem com o bras, do gro-duque estacionada ao lado de sua casa.
Entrou pela porta da frente e se dirigiu direto para a sala de jantar no fundo. Era um cmodo muito pequeno, separado da sala de estar por uma cortina grossa que 
podia ser aberta para dar mais espao, caso houvesse convidados.
Na verdade, como nunca podiam dar festas, a cortina raramente era aberta, mas Letcia sabia que conseguiria ouvir a conversa se fosse o gro-duque que estivesse 
com a me.
"E se for prima Augustina?", pensou, temerosa. Tinha medo de que a "vbora" houvesse descoberto seu empenho em ajudar Stephanie e quisesse implicar com isso.
Entretanto, para seu alvio, a voz que ouviu do outro lado era profunda e grave, em nada se parecia com o tom agressivo da prussiana.
-  intolervel, mas no h nada que eu possa fazer.
- Sinto muito por voc, querido Louis. No posso acreditar que prima Augustina realmente queira fazer algo to inconvencional.
Letcia conheceu pelo tom preocupado da me que algo muito grave estava para acontecer. O gro-duque tambm demonstrava grande amargura em cada palavra que dizia:
- Ela est decidida a afirmar sua autoridade, e isso no  tudo. No ltimo dia de visita do rei, ele receber a chave da cidade. Como voc sabe, Olga, segundo a 
tradio, quem est no trono  que deve entreg-la.
- Sim, claro. Lembro-me da visita do imperador da ustria e como voc desempenhou bem sua parte na cerimnia.

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- Eu supunha que ia ser tudo igual desta vez.
- Alguma coisa foi mudada?
Minha esposa insiste em ir receber o rei acompanhada apenas
de Otto e em entregar ela mesma a chave da cidade.
Houve uma pausa e Letcia sabia que a me olhava atnita para o
gro-duque, antes de perguntar:
- E onde voc ficar?
- Eu deverei tomar o lugar dela na carruagem junto com o rei. Mas nessa altura ele j ter pedido a mo de Stephanie, que vir conosco.
Letcia prendeu a respirao. Foi sem surpresa que percebeu que a princesa Olga tambm compartilhava de sua indignao.
- Isso  intolervel, Louis! No suporto v-lo humilhado dessa maneira to acintosa.
- J discuti com ela at cansar. No h nada que eu diga ou faa que a convena a refletir melhor.
Ficaram em silncio, e a princesa Olga comeou a soluar:
- Sinto muito, muito, querido Louis. Gostaria de poder ajud-lo.
- Voc me ajuda, porque  a nica pessoa que compreende, a nica com quem posso conversar.
Como a conversa havia mudado de tom, Letcia sentiu que no era correto continuar a ouvir escondida. Agora que estavam falando de maneira mais ntima, o assunto 
no a interessava mais.
Saiu da sala de jantar, subiu as escadas e foi para o quarto. Pensou como a esperada visita do rei Vicktor aborrecia a todos.
Em primeiro lugar, Stephanie estava desesperada. Kyril tambm ficaria fora de si, quando chegasse no dia seguinte com o Regimento e soubesse do suposto noivado da 
prima.
Agora, o gro-duque se mostrava humilhado e chateado, e isso significava que a princesa Olga compartilharia do aborrecimento dele.
- Como  possvel que uma mulher cause tanto desgosto? - Ao se fazer essa pergunta, Letcia percebeu que odiava a gr-duquesa tanto quanto os ciganos.
Trancou a porta do quarto e tirou da ltima gaveta da cmoda um vestido, no qual vinha trabalhando sempre que lhe sobrava um pouco de tempo. Era um modelo cigano 
que ela usara trs anos antes, na ltima vez em que estivera no castelo Thor.
Naquela ocasio ela havia escrito uma pea cigana para divertir o Pai e o gro-duque. Todos trabalharam na encenao. Depois, tinham danado em volta de uma fogueira 
artificial, no centro do hall baronia!, ao som de msicas ciganas que Olga tocara no piano.

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O gro-duque e o prncipe Paul aplaudiram muito toda a representao, mas se entusiasmaram particularmente com sua dana.
Letcia havia praticado com afinco antes de viajarem para o castelo Chegara mesmo a espiar os acampamentos ciganos, sem que os pais soubessem, para memorizar os 
passos, os gestos e a maneira incrvel com que saltavam sobre o fogo e em volta dele.
Havia comprado aquele vestido na cidade e pedira a uma das criadas que o enfeitasse com contas douradas brilhantes, lantejoulas fitas iguais s usadas pelas ciganas.
Apenas o corpete justo de veludo no tinha adornos. Como seu talhe era esguio, ela sabia que quando usasse a roupa tpica se pareceria com uma slfide. Um vu vermelho 
com moedas douradas penduradas, que tilintavam com os movimentos da dana, e pulseiras amarradas com fitas vermelhas nos pulsos e tornozelos completavam o traje.
Embora suas jias no fossem verdadeiras como as das danarinas ciganas, produziam um bom efeito no palco.
Como crescera muito desde a ltima vez que usara o vestido, teve que alarg-lo e encomprid-lo. Hbil com a agulha, fez pequenas modificaes que deixaram o modelo 
ainda mais bonito do que antes.
Costurou durante uma hora e ento guardou o vestido numa gaveta, Tomou o cuidado de tranc-la  chave para que ningum o achasse sem a sua autorizao.
Sabia que o gro-duque no estava mais com a me, pois olhara pela janela e vira que a carruagem j havia ido embora. Sua suposio se confirmou, ao encontrar Olga 
sentada na sala de estar, parecendo triste.
- Vi que voc tinha chegado, querida, mas o primo Louis estava aqui comigo, e no pude ir receb-la.
- Imagino que ele veio desabafar...
- Sim. Eu gostaria de poder ajud-lo. No suporto que um homem bom e inteligente como Louis seja to infeliz.
- Todos os casamentos arranjados so ruins, e ele est pagando caro por isso. Nada, mame, me faria casar com um homem que eu no amasse.
A princesa ficou imvel por um momento. Quando falou, a sua voz saiu triste, quase desesperada:
- Sempre me pergunto se vocs tero oportunidade de se casar com algum, vivendo aqui desse jeito.
Letcia beijou-a, tentando reanim-la. Detestava ver que a me sofria por causa delas.

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- No fique deprimida, mame. Talvez no baile oficial haja algum prncipe charmoso que se apaixone por mim ou por Hettie.
Letcia sabia que a me no ignorava que, depois da morte do prncipe Paul, elas eram to pouco importantes que era quase impossvel que algum membro de uma famlia 
real pedisse a mo delas.
Esse pensamento desanimado a fez afastar-se um pouco da me e voltar-se em direo ao espelho. A imagem refletida lhe mostrou uma moa bonita, com belos olhos, pele 
morena e sorriso encantador.
"Pareo uma cigana, e isso diminui minhas chances", refletiu com apreenso. Em nada a agradava essa incerteza com relao ao futuro. Mas logo deu de ombros, pensando 
que isso no tinha importncia. Afinal, de nada adiantava ficar angustiada  toa. O melhor seria ter f no futuro. O pai sempre acreditava que as coisas se ajeitavam 
no final. E talvez um milagre surgisse para ela e Hettie tambm.
Decidindo no dar mostras da prpria angstia para a me, quebrou o silncio pesado que se estabelecera:
- Tenho certeza de que o primo Louis foi embora sentindo-se melhor, porque a senhora foi boa e compreensiva com ele. Se pelo menos "a vbora", como a tia-av a chama, 
no estivesse no palcio, poderamos ir at l como fazamos antigamente.
- Voc viu Aspsia? Isso me lembra que preciso visit-la. Ela deve estar muito s.
- Ela  esperta demais para isso. Tia Aspsia sabe de tudo o que aconteceu no palcio, na cidade, no pas, e em qualquer lugar da Europa! E isso a mantm sempre 
em atividade.
A princesa Olga riu.
-  verdade! Ela tem sido sempre a mesma, uma fofoqueira inveterada, mas muito divertida. Vou sugerir a Louis que a visite. Talvez ela possa anim-lo.
- Sim, faa isso, mame! Ela  ptima e nunca nega a fama que adquiriu. Imagine que ela j tinha conhecimento dos planos da prima Augustina para Stephanie, antes 
mesmo que Stephanie soubesse!
Fez uma pausa e, depois, como deduzisse pela imobilidade da me que aquilo no lhe fosse novidade, tomou coragem e acrescentou:
Ela tambm sabia, ao contrrio de ns, que Stephanie e Kyril esto apaixonados!
- Houve um instante de silncio. Letcia teve foras para encarar a me. Depois de alguns segundos, Olga falou com a voz embargada:
  Oh" no! Desejei que mais ningum soubesse disso, a no ser eu!
Ento, a senhora...

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No pde concluir a frase, porque foi interrompida pela me:
- Sim, claro! Quando percebi que seu irmo estava se apaixonando, rezei para que, enquanto estivesse fora, como nesses ltimos meses, ele a esquecesse.
- Stephanie tem certeza de que ele a ama...
- No duvido disso, mas prima Augustina no pode desconfiar de maneira nenhuma. Se ela suspeitar que Kyril est interferindo em seus planos para a filha, far tudo 
que for possvel para arruin-lo.
De repente, soltou uma exclamao de horror e tapou o rosto com as mos.
- Sei o que ela faria!
- O qu, mame?
- Ela me falou disso no ano passado, mas no creio que tenha sido por causa de Stephanie.
- O que ela insinuou?
- Que seria uma boa ideia Kyril e Otto irem para a Prssia por um ano para treinarem nos quartis do exrcito prussiano.
Letcia no conteve uma exclamao de horror, mas a me pareceu no escut-la.
- A nica coisa que a impediu foi saber pelo gro-duque sobre o tratamento severo dispensado aos cadetes, os duelos que so obrigados a enfrentar e as punies brutais 
que sofrem quando fazem alguma coisa errada.
com voz trmula e quase num sussurro continuou:
- Eu no suportaria a ideia de que Kyril seria obrigado a aguentar tal tratamento. Mas tenho a certeza de que, se prima Augustina se aborrecer com ele, o mandar 
para l, quer Otto o acompanhe ou no.
- Isso no pode acontecer nunca, mame!
- Ele precisa ter muito cuidado, muito cuidado. Quando Kyril chegar amanh, voc deve conversar com ele e preveni-lo. Prometa-me que o far, Letcia.
- Sim, claro! Tente no se preocupar.
Apesar do tom tranquilo, Letcia sentia como se a gr-duquesa fosse uma nuvem escura que tirava o sol de suas vidas e os ameaava a todos com um temor que parecia 
infiltrar-se aos poucos em suas mentes.
Kyril chegou na manh seguinte, extremamente elegante no bonito uniforme de botes dourados. Assemelhava-se tanto ao pai, que Letcia, apesar da alegria que sentia 
pelo retorno do irmo, no pde deixar de
entristecer-se com a lembrana do falecido prncipe Paul.

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Kyril abraou a me, depois Letcia, e por fim Marie-Henriette, com um sorriso to encantador que parecia encher a pequena casa, tornando impossveis as recordaes 
tristes e afastando as preocupaes.
- Pensei que s tornaria a v-las daqui a trs meses. Foi uma sorte que o rei Vicktor desejasse nos fazer uma visita oficial.
Por sua maneira de falar, Letcia percebeu que ele no tinha a menor ideia sobre o motivo daquela visita.
Esperou at que o irmo contasse sobre as manobras que o Regimento vinha fazendo nas montanhas, o novo aparato militar, os picos que tinha escalado e os cavalos 
que costumava montar. Por fim, quando a me anunciou que iria se arrumar para o jantar e levou consigo
Marie-Henriette, Letcia conseguiu um jeito para ficar sozinha com o recm-chegado.
- No vejo a hora de tomar um banho, estou exausto!
- Sim, claro. Na verdade, Gertrude j esquentou a gua e preparou-lhe a roupa, Kyril.
- Querida e boa Gertrude... sabia que ela estaria pensando em mim! Vou at  cozinha dar um beijo nela.
Gertrude era a velha criada que os acompanhava desde a infncia e sempre havia mimado Kyril porque ele era seu preferido.
- Antes que v, Kyril, preciso lhe dizer algo.
- O que ? A propsito, voc est extremamente bonita! Os oficiais do Regimento vo me congratular se a virem durante as cerimnias de recepo.
- Voc sabe para que so essas festividades?
- Para homenagear o rei Vicktor, creio.
com muito esforo, Letcia segurou-o pelo brao e o encarou:
- Prima Augustina convidou-o a vir aqui para arranjar... o casamento dele com Stephanie!
Letcia teve vontade de chorar ao notar a expresso chocada do irmo. Parecia que uma dor extremamente grande o dominara, fazendo-o parecer instantaneamente muito 
mais velho.
-  verdade?
Sim! Stephanie, como voc pode imaginar, est desesperadamente infeliz.
Ela lhe contou que ns nos amamos?
Sim, ela veio aqui. Mas, Kyril,  mais importante do que qualquer coisa que prima Augustina no suspeite desse romance.
Maldita! Ela no se importa com os sentimentos de Stephanie, quer apenas que a filha seja to poderosa quanto ela sempre desejou s-lo.

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- Sim, eu sei. Se ela desconfiar que Stephanie o ama, mandar voc para a Prssia.
Letcia viu o horror estampado na face do irmo. Ele ficou mudo por alguns instantes e, quando falou, a sua voz tinha um timbre estranho.
- Se no posso me casar com Stephanie, no importa onde eu v ou o que eu faa.
Como no podia suportar v-lo to desesperado, Letcia se levantou e tomou-lhe a mo com ternura.
- Oua, Kyril. Vou tentar impedir de todas as maneiras que o rei pea a mo de Stephanie. No sei ainda como posso faz-lo, mas estou rezando para conseguir sucesso.
Fez uma pausa, e acrescentou devagar:
- Pelo menos isso dar tempo a voc e a ela para refletirem melhor sobre o futuro.
- No h futuro para ns, sinto em meu corao.
- Primo Louis disse a Stephanie que voc  a pessoa que ele mais gostaria de ter como genro.
Kyril fitou a irm atnito, como se no pudesse acreditar.
- Ele disse isso mesmo?
- Stephanie diz que sim. Se pudermos impedir que algum mais importante pea a mo dela, talvez com o tempo voc tenha uma chance.
- No, se prima Augustina estiver envolvida nisso. Ela nos odeia e prefere ver Stephanie casada com um urso pardo a v-la comigo. ;
- Decerto voc est disposto a lutar para torn-la sua mulher? ;
- Lutaria, e morreria por ela. Eu a amo, como no poderia nunca amar outra pessoa.
- Sei disso.
Ele fez uma pausa e depois acrescentou:
- Papai amava mame da mesma maneira. Ele contava que desde o primeiro instante em que a viu foi impossvel olhar para outra mulher.
- Eles foram felizes. Embora fssemos pobres, mas no to pobres, quanto somos... agora.
Kyril no respondeu. Depois de alguns instantes, como se precisasse impression-lo com o perigo, Letcia alertou-o:
- As coisas ficaro piores, muito piores, se a gr-duquesa suspeitar do que voc e Stephanie sentem um pelo outro. Oh, Kyril, pelo nosso bem... e pelo seu bem, tenha 
cuidado!

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- Voc sabe que terei. Mas, agora que voltei, voc ter que me
ajudar.
- O O que quer que eu faa?
- Em primeiro lugar, quero ver Stephanie, a ss.
- Isso ser difcil.
- Voc levaria um recado para que ela me encontre no lugar onde nunca fomos descobertos at hoje?
- Oh, Kyril! Tenho medo! Onde  esse lugar?
Kyril piscou e disse:
- Aposto que voc nunca adivinharia.
- Conte-me.
- No telhado do palcio!
- Que lugar incrvel para um encontro!
-  o que qualquer um pensaria. Por isso que  seguro.
- Mas como voc chega l?
- Subo naquele telhado desde menino, assim como costumvamos escalar o castelo Thor. Na verdade, o palcio  muito mais fcil de ser escalado.
- E, claro,  mais fcil para Stephanie sair do quarto e subir, do que descer, quando poderia ser vista pelos guardas de servio - concluiu Letcia como se estivesse 
falando para si mesma.
- Exatamente! Portanto, d-lhe o recado assim que puder.
- Claro! Antes, prometa-me por tudo que  sagrado que ser muito cauteloso.
- Sim, eu prometo! Pois bem, agora que eu lhe contei meu segredo,
revele-me o que far para impedir o rei de pedir a mo de Stephanie, uma vez que prima Augustina lhe dir tudo o que deve fazer. Imagino que ela seria capaz de apontar 
uma pistola para a cabea de Vicktor se ele se recusasse.
- No posso lhe contar ainda! No porque eu queira fazer segredo, mas no tenho nada definido.
Ao falar, ela lembrou do Voivode e das palavras encorajadoras que ele dissera. Essas recordaes a fizeram reanimar-se, como se toda a sua esperana tivesse aumentado, 
por isso incentivou o irmo a no perder as esperanas.
- Apenas confie em mim e reze. Reze muito para que eu tenha Acesso.
Kyril abraou-a e lhe deu um beijo. Ento, como se no suportasse mais falar sobre aquele assunto, saiu da sala. Letcia ouviu-o entrar na Pequena cozinha para procurar 
Gertrude. Consultando o relgio, ela viu que ainda tinha uma hora at ao jantar.

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Isso significava que havia tempo para falar com Stephanie a si O gro-duque e prima Augustina estariam em seus aposentos, e Stephanie devia permanecer no prprio 
quarto.
Nos tempos passados, as refeies eram servidas em clima informal sem protocolo, quando se podia rir e falar  vontade, que nada do que fosse dito  mesa seria repetido.
O atual gro-duque havia sido educado assim e depois que se casou protestou contra as refeies formais que Augustina implantava. Agora, havia uma criada atrs de 
cada cadeira e "ajudantes de campo' e damas de companhia. Enfim, todos esses estranhos que inevitvel mente restringiam a conversa.
Mas, para no variar, a gr-duquesa fez as coisas  sua maneira. Chegava mesmo a usar um diadema todas as noites e a exigir que o gro-duque usasse suas condecoraes.
-  to mortalmente enfadonho - queixava-se frequentemente u prncipe Paul -, que da prxima vez acharei qualquer desculpa para no ir ao palcio, a menos que seja 
imprescindvel.
Mas, como era muito afeioado ao primo, no recusava nada que Louis lhe pedisse.
Letcia lembrava-se como ele resmungava quando era obrigado a usar meias de seda compridas, bombachas, a fita da "Ordem de St. Michael" cruzando o peito em cima 
da camisa branca e as cruzes brilhantes sobre o palet de gala.
- Est muito elegante, papai - Letcia costumava dizer quando o via descer as escadas e encaminhar-se at  carruagem que o esperava do lado de fora.
- Se quer saber a verdade, essa maldita roupa no  nada confortvel!
Isso fazia com que Olga protestasse em tom brincalho:
- Francamente, Paul, no deve praguejar na frente das crianas!
- Elas tambm xingariam se estivessem no meu lugar! - retrucava ele, sorrindo zombeteiro.
Ento, quando chegava ao hall, olhava para a esposa com uma tiara de safiras e diamantes na cabea e um colar das mesmas pedras e dizia:
- Meu nico consolo  que voc est linda, querida. Voc  quem deveria ser a gr-duquesa e no uma certa dama cujo nome no devemos mencionar na frente das crianas. 
. .
Marie-Henriette, que era bem pequena na poca, batia palmas e completava a frase do pai, com uma nota de orgulho na voz:

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- Eu sei de quem voc est falando!  prima Augustina! Ela  horrvel e sempre me manda calar a boca e ir embora.
- Viu o que voc fez? - censurava a princesa Olga.
- No se pode esconder a verdade e eu repito, querida, que voc devia ser uma gr-duquesa ou, melhor ainda, uma rainha!
Beijava a esposa e ao se dirigir para a porta despedia-se:
- At logo, crianas! Preferia ficar aqui com vocs a ter que ir ao palcio. Mas, amanh, para compensar o meu desconforto, faremos um piquenique no jardim e usaremos 
nossas roupas mais velhas.
Todos davam vivas e acenavam quando os pais saam. Passavam o resto da noite conversando e planejando os preparativos para o dia seguinte.
"ramos to felizes naquela poca", lamentou Letcia para si mesma, enquanto olhava dos lados verificando se ningum a observava sair em direo ao castelo.
Atravessou o porto que levava ao jardim do palcio e correu por entre os arbustos at chegar ao lado onde no havia guardas.
Esperava ardentemente que a porta lateral no estivesse trancada e respirou aliviada ao empurr-la e ver que ela cedia sem esforo. Entrou sem que ningum percebesse 
e subiu as escadas do fundo, que s eram usadas pelos criados, at alcanar o quarto de Stephanie. Abriu a porta e percebeu, com grande alegria, que no aposento 
s estavam Stephanie e a criada pessoal. Quando a viu, a prima deu um grito de alegria:
 - Letcia, que bom v-la! Estava pensando em como poderia falar com voc.
 Letcia sabia que ela queria perguntar se Kyril havia chegado e, ao beij-la, disse:
- Tenho muita coisa para lhe contar.
A prima olhou para a criada significativamente.
- Espere l fora, Dorothya. Ajude-nos se algum aparecer. Quero conversar com Sua Alteza e ningum pode descobrir que ela est aqui.
Dorothya, que acompanhava Stephanie h anos, sorriu para Letcia,
antes de dar meia-volta e sair. No meio do caminho, voltou-se uma vez e as suas palavras foram tranquilizadoras:
-  bom v-la, Alteza! Espero que sua honorvel me esteja bem!
- Muito bem! Obrigada, Dorothya.
 A criada fez uma reverncia, e seguiu seu caminho. Assim que ficaram a ss, Stephanie se aproximou com um ar de quem est conspirando.

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- Rpido, conte-me o que tem a dizer. E se, por acaso, Dorothya nos avisar que mame vem vindo voc deve se esconder no armrio.
Letcia sabia que no dispunham de muito tempo, por isso foi diretamente ao assunto:
- Kyril voltou e quer v-la. Vai lhe encontrar hoje  noite, no lugar do costume.
Os olhos de Stephanie brilharam de excitao. Letcia sorriu diante daquela demonstrao espontnea do quanto a prima estava apaixonada. Ao mesmo tempo, sentiu-se 
na obrigao de alert-la para os perigos que os dois corriam:
- Agora oua, Stephanie. Preveni Kyril de que ele deve ter muito cuidado. Ser um desastre se sua me desconfiar do que vocs sentem um pelo outro, entende?
- Sim, eu sei...
- Mame tem certeza de que, se prima Augustina suspeitar do seu romance com Kyril, o mandar para a Escola de Treinamento do Exrcito prussiano.
Stephanie soltou um grito.
- Oh, eu no suportaria isso! Papai acha horrvel aquele lugar.
- Creio que isso destruiria Kyril. Portanto, Stephanie, lembre-se sempre de que precisa ter prudncia e ocultar seus sentimentos. Acho que seria melhor no protestar 
quando sua me disser que deve se casar com o rei.
Stephanie estremeceu, e sua voz saiu entrecortada pelos soluos:
- No posso. . . casar com ele! No vou casar! Oh, Letcia. . o que ser da minha vida?
Letcia desejou consol-la, mas j era tarde e logo estaria na hora do jantar. Por isso, limitou-se a acarici-la no rosto e a tranquiliz-la:
- No pense a respeito. Esquea todos os problemas por enquanto e se alegre com o retorno de Kyril.
- Voc prometeu me ajudar e impedir o rei de... pedir minha mo.
-  o que estou tentando fazer.
- Mas temos apenas mais dois dias. Ele chegar quinta-feira.
- Tenha calma! Por favor, Stephanie, por enquanto se preocupe s em rezar para que as coisas no sejam to ruins como se prev. Ao mesmo tempo, lembre-se: esses 
encontros clandestinos so muito perigosos.
- Prometo que me lembrarei. Tenho rezado, horas e horas, dia e noite, para que Kyril e eu possamos ficar juntos.

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- Continue e tenha f. De alguma maneira, um milagre acontecer e seu sonho vai se concretizar.
Stephanie ficou alegre de novo, abraou-a e beijou-a animada.
- Eu te adoro! Tudo que desejo  ser sua cunhada.
Sua maneira espontnea e ingnua de falar emocionou Letcia.
- Preciso ir! Se algum contar para sua me que estou aqui, ela pode desconfiar.
- Ningum a viu chegar?
- Acho que no. Mas aqui as paredes tm olhos e ouvidos...
Interrompeu o que estava falando, ao observar que a prima j no a escutava, ocupada em parecer atraente para Kyril.
- J que vou v-lo, vestirei uma roupa bem bonita.
- Se vai trocar de roupa,  melhor que se apresse. Seria um erro descer atrasada para o jantar e aborrecer sua me.
Ela se despediu e se dirigiu rpido para a sada. Assim que abriu a porta deu de cara com Dorothya, que estava do lado de fora, vigiando. A criada fez-lhe um sinal 
de que ningum as observava e Letcia agradeceu baixinho:
- Obrigada, Dorothya!
A criada fez uma pequena reverncia e voltou para o quarto. Letcia desceu as escadas com cuidado, at  porta do jardim. Agora, o nico perigo era ser vista ao 
cruzar o ptio para chegar aos arbustos.
Felizmente, poucas salas daquele lado do palcio estavam ocupadas. Ela apressou o passo, tomando cuidado em manter a cabea baixa e no olhar para trs. Desse modo, 
mesmo que a vissem, julgariam que se tratava de uma criada escapando s escondidas para se encontrar com algum dos jardineiros ou sentinelas.
Quando no podia mais ser vista nem das janelas mais altas do palcio, correu at ao ptio e entrou ofegante em sua casa. Assustou-se, ao avistar Kyril que a esperava.
- Tudo certo. Estive com Stephanie, e ela est entusiasmada com a ideia de rev-lo.
- Avisou-a para ter cuidado?
- Sim, claro! Ningum melhor do que ela para saber quanto prima Augustina se tornaria vingativa diante da menor suspeita de que h algo de novo no relacionamento 
de vocs.
Kyril soltou um suspiro de alvio. Havia tomado um banho e estava em mangas de camisa, o que realava seu corpo musculoso. Ele sorriu e ps os braos em volta da 
irm, abraando-a forte.
- Obrigado, querida irm! Eu no tinha o direito de lhe pedir que entrasse na toca do leo, mas estou muito grato.

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A "toca do leo" seria a descrio adequada. Se a gr-duquesa no fosse at mais perigosa do que qualquer "fera", refletiu Letcia sorrindo, enquanto subia para 
o prprio quarto.
O pior  que, se ela j estivera tensa todos esses dias, as coisas da para a frente s piorariam. No teria mais um segundo de paz, com receio de que Kyril no 
fosse prudente o suficiente. Uma palavra indiscreta ou um olhar interceptado e a gr-duquesa desconfiaria e poria tudo a perder.
- Por favor, Deus, mantenha-o a salvo!
Logo depois do jantar, Letcia sentiu que empalidecia ao escutar Kyril dizer que iria se deitar cedo. Virou-se nervosa na cadeira, torcendo para que a me no suspeitasse 
dos planos do irmo.
Pouco depois, quando todos se retiraram para os prprios aposentos, ela distinguiu o barulho da porta sendo aberta sorrateiramente. Seu corao bateu acelerado. 
Tinha medo de que algo terrvel acontecesse a Kyril e torceu para que ningum o visse atravessar por entre os arbustos.
Era uma linda noite de luar, e, se ele no tomasse cuidado, seria fcil algum v-lo subindo os muros do palcio. Poderia at levar um tiro de algum sentinela mais 
escrupuloso.
Mas no via motivos para se preocupar, uma vez que nunca acontecia nada em Ovenstadt. No havia revolucionrios nem desordeiros como os que Aspsia descrevera. Consequentemente, 
os guardas de segurana haviam se tornado muito relapsos e, caso ningum estivesse observando, ficariam longas horas conversando. Chegariam mesmo a se encostar nas 
grades e abaixar os rifles, em vez de carreg-los sobre os ombros.
Muito simpticos, proseavam de bom humor com qualquer pessoa que encontrassem. Como conheciam Letcia e Marie-Henriette, ficavam desapontados quando elas no paravam 
para tagarelar.
Na semana anterior, haviam discutido sobre a visita do rei e os Regimentos que tinham sido chamados de volta  Capital para formar alas pelo itinerrio e apresentar 
uma notvel Guarda de Honra quando Sua Majestade chegasse.
- Isso significa muito trabalho para nos apresentarmos impecavelmente - queixara-se um dos sentinelas. - Teremos que ficar acordados dia e noite.
- Pense como voc vai ficar garboso e como as garotas vo admir-lo - brincara Letcia.

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- Contanto que minha garota no admire ningum mais alm de mim, est tudo bem! No me agrada muito competio.
Letcia rira do que ele dissera e enquanto caminhava para o palcio pensou que sem dvida esse era o tipo de conversa que no agradaria  gr-duquesa. Ia levando 
um bilhete da me, aceitando o convite para o almoo oficial e o baile.
Como j era previsto, haviam recebido o mnimo de convites a que tinham direito, como famlia.
A princesa Olga tinha sido convidada para o almoo que seria oferecido imediatamente depois da chegada do rei. Letcia e Marie-Henriette foram excludas e convidadas 
apenas para o baile oficial.
Marie-Henriette s pensava no que vestiria. E Letcia, alm de trabalhar no vestido cigano, vinha fazendo milagres para modificar os vestidos de gala que tinham 
usado por anos. Mas parecia impossvel que eles parecessem novos e atraentes.
- Se ao menos eu pudesse lhes dar um dos meus vestidos - dissera Stephanie, uma tarde em que as achara trabalhando apressadas na sala de jantar.
- Ah, seria maravilhoso! - exclamou Marie-Henriette. - Por mais que eu faa, este vestido ainda parecer deselegante e fora de moda.
- Mame me mataria se descobrisse que me desfiz de alguma coisa sem consult-la - lamentou Stephanie com tristeza.
Mas, ao olhar para os babados do vestido de Letcia, que aps anos de uso estavam amarrotados e gastos, seus olhos brilharam de contentamento:
- Tive uma ideia!
- Qual ? - espantou-se Marie-Henriette, com a euforia da prima.
- No ano passado mame comprou duas peas de tule com a inteno de fazer vestidos para mim. Mas a costureira que trabalha no palcio adoeceu e creio que mame se 
esqueceu desse tecido.
Marie-Henriette fitou-a animada.
- Um pouco de tule armado  exatamente o que preciso para enfeitar a barra do meu vestido e dar um maior realce nos babados do de Letcia.
- Tenho certeza de que ningum vai reparar se as peas desaparecerem do armrio - sugeriu Stephanie. - Uma pea  branca e a outra azul bem claro, exatamente da 
cor de seus olhos, Hettie.
Marie-Henriette apertou as mos.
- Oh, por favor, por favor, Stephanie! Seja corajosa e d o tule para ns!

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- Darei. Mandarei Dorothya traz-las assim que retornar ao palcio.
Ela cumpriu a palavra e Dorothya chegara uma hora depois com um cesto de roupa nos braos. Dentro, estavam duas peas de tule, escondidas embaixo de um pedao de 
pano velho.
Era exatamente o que Letcia precisava para armar os babados do vestido e dar-lhe um ar atraente e leve, bem prprio para uma debutante.
Havia tambm tule suficiente para um drapeado no corpete, tornando o traje to sofisticado que, com rei ou sem rei, ela apreciaria o baile simplesmente porque estaria 
muito elegante.
Marie-Henriette estava em xtase com o que o tule havia feito por seu vestido azul claro, que tinha sido confeccionado pouco antes do pai morrer. De um modelo muito 
infantil, parecia imprprio para uma garota de quase dezassete anos.
- Vou transform-lo num traje que parecer que veio direto de Paris! - exultava.
Colocou dois babados de tule em volta da barra e o vestido ficou com o comprimento certo. Para combinar, completou com babados nos ombros e aprofundou o decote, 
tornando-o discreto, mas insinuante. Quando o vestiu, Letcia sentiu que, se houvesse um prncipe atraente como desejavam no baile, ele se apaixonaria por Hettie.
Por sorte, quase terminara o vestido cigano quando Stephanie aparecera com o tule. Quando no estavam com Kyril, que na verdade permanecia pouco tempo em casa, trabalhavam 
at altas horas na reforma dos vestidos de baile.
"Seria desastroso agora", pensou Letcia, "que prima Augustina descobrisse algo sobre Kyril e Stephanie e nos proibisse de ir ao palcio!"
Ento, disse a si mesma que dava azar se preocupar com essas coisas. Em vez disso, deveria planejar uma sada no dia seguinte.
Depois de muitas suposies, decidiu-se por uma desculpa que lhe pareceu irresponsvel:
- Mame, no lhe contei ainda que recebi hoje um recado de Fraulein Sobieski.
- Um recado, querida?
- Sim. Ela me pede para ir v-la. Creio que no est muito bem, a senhora sabe como ela est velha.
Fraulein Sobieski fora uma das primeiras governantes de Letcia

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e Marie-Henriette. Quando parou de trabalhar, foi morar num cottage no muito longe do castelo Thor.
Vivia sozinha e isolada. Sempre que tinha tempo, Letcia ia at l a cavalo e passava algumas horas com a antiga governanta.
- Se a senhora concordar, pensei em ir v-la amanh. Poderia passar a noite l e voltar cedo no dia seguinte.
A princesa pensou por um momento antes de responder:
-  melhor assim do que ir e voltar no mesmo dia. No quero que voc esteja cansada para o baile.
Letcia sorriu.
- Ns podemos assistir s festividades do lado da estrada! No fomos convidadas para o almoo, como a senhora, no primeiro dia, por isso veremos o rei passar em 
revista a Guarda de Honra e voltaremos para casa, enquanto a senhora aprecia algum menu extico na grande sala de jantar!
- Voc est se fazendo de Cinderela! Eu trocaria de lugar com vocs de bom grado. Nem imagina o quanto so cansativos e pomposos esses almoos.
- Hettie e eu pretendemos animar o baile, se no pudermos fazer mais nada. S espero que consigamos nos esconder no andar de cima e descobrir com Stephanie as novidades.
- Prima Augustina no vai gostar disso, se souber - censurou Olga, com olhar preocupado.
- Vamos ficar longe dela - prometeu Letcia. - Mas a senhora sabe, mame, que precisamos continuar a insistir com Stephanie para que seja cuidadosa.
- No suporto falar sobre isso. Sinto tanto medo! Kyril prometeu ser muito discreto e,  claro, ele no foi convidado para nada a no ser o baile.
Felizmente, Olga sequer considerava a hiptese de que Kyril e Stephanie se encontravam s escondidas. Caso contrrio, no conseguiria mais nem dormir. Letcia achou 
melhor no lhe revelar nada e beijou-a, tranquilizando-a:
- Procure no se preocupar, mame. Darei lembranas suas a Fraulein. Sabe o quanto ela gosta da senhora.
- Precisa levar-lhe um presente, querida. Tenho certeza de que deve haver algo que a agrade.
Letcia sorriu. Era to prprio da me dar presentes, enquanto ela mesma tinha to pouco!
- Acharei alguma coisa, mame.

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Disse boa-noite e foi para o quarto pensando que tudo tinha sado melhor do que ela esperava.
J havia embrulhado o vestido de cigana cuidadosamente num pano que colocaria na sela de Kaho. Tambm j avisara Kyril que de maneira nenhuma devia pegar Kaho se 
quisesse cavalgar.
- Prefiro Kaho ao Chino - protestara ele.
- Sei disso, mas vou precisar percorrer uma longa distncia para fazer o que pretendo e, como Kaho  mais confivel, voc ter que deix-lo para mim.
O tom decidido com que falou fez Kyril suspeitar que se tratava de algo relativo ao romance dele com a prima. Preocupado, tentou faz-la revelar o que estava planejando.
- Voc precisa me contar o que pretende. No vou permitir que corra riscos por minha causa.
- No vou lhe contar, porque eu mesma ainda no sei de nada. Peo apenas que voc deseje realmente que eu tenha sucesso.
Os olhos de Kyril brilharam ao comentar:
- Imagino, ao ouvir essas palavras, que voc est usando magia cigana. Sei que eles acreditam que a fora de vontade  capaz de vencer coisas impossveis.
- Papai sempre acreditou que se quisssemos mesmo alguma coisa ela se realizaria. Ele me contou que, quando quis se casar com mame e todos disseram que era impossvel, 
ele mentalizou o casamento, emitindo o que chamou de "relmpagos". Porque vinham do corao e eram to fortes, papai tinha esperana que eles conseguiriam obter 
o que ele desejava.
- Bem, sem dvida ele conseguiu se casar com mame - concordou Kyril.
- Mame involuntariamente fazia a mesma coisa e a corrente de fora que se criou entre eles ficou irresistvel.
-  isso que voc est tentando fazer agora?
- Exatamente! E o que quero que voc faa  que mande os "relmpagos". Diga ao destino e a Deus que Stephanie tem que ser sua. Talvez, com a ajuda dos ciganos, d 
certo.
- Voc me assusta. Prometa-me que no far nada que possa prejudic-la de alguma maneira.
A ansiedade em sua voz mostrou a Letcia o quanto ele a amava.
- Voc sabe, querido, que eu faria qualquer coisa, por mais difcil que fosse, para torn-lo feliz. Entretanto, garanto que no estou planejando

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nada condenvel. No mximo, pode ser considerado um pouco ousado e inconvencional.
- Conte-me - suplicou Kyril.
Ela balanou a cabea negativamente, e retirou-se depois de beij-lo com ternura.

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CAPTULO IV

Assim que se viu longe do castelo, em campo aberto, Letcia diminuiu a marcha de Kaho. Acariciou o pescoo do animal e lhe disse meia dzia de palavras carinhosas, 
enquanto observava o belo efeito que os reflexos do Sol, j alto, produziam na paisagem. Os campos se estendiam a perder de vista e, ao fundo, as montanhas se recortavam 
imponentes, dominando todo o resto. Era emocionante sentir-se livre para cavalgar naquela imensido.
Envolvida pelo encanto que a natureza lhe causava, fez uma prece aos cus, agradecendo o bom encaminhamento que as coisas tomavam. Logo, seus pensamentos voaram 
at pouco antes de ela ter sado de casa. Mal se levantara da mesa do caf da manh e Stephanie chegara correndo com um bilhete para Kyril. Quando Letcia a convidara 
para entrar, a moa recusara, explicando:
- No posso parar. Mame est fazendo um rebulio em todo o palcio. Ps todos os criados ocupados em polir cada fechadura da casa para a visita do rei e me chama 
a cada cinco minutos.
Letcia sorriu, pois j lhe eram familiares as peridicas manias de limpeza da gr-duquesa.
Ela espalhava as criadas por toda a parte e repreendia o caseiro por no ter mantido tudo imaculado a ponto de se poder passar um leno de seda sem se deparar com 
uma manchinha de sujeira. Normalmente, essas atividades deixavam metade dos funcionrios do palcio arrasados. Como Letcia tambm conhecesse o mau humor que acometia 
Augustina, durante esse trabalho, limitou-se a assentir mudamente com a resposta da prima.

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Stephanie espiou em volta, averiguando se no havia ningum nas redondezas, e perguntou, num sussurro:
- Kyril voltou sem problemas do nosso encontro?
- Hum, hum, ele estava aqui para o caf da manh. Mas vou tocar num assunto delicado, querida. - Fez uma pausa e encarou-a. - Voc no deve permitir que ele corra 
esses riscos. Sabe to bem quanto eu o que aconteceria se algum os descobrisse.
- Eu sei, eu sei! No entanto, no consigo esquecer que se voc no me salvar terei que me casar com o rei e nunca mais verei Kyril...
Um soluo impediu-a de continuar falando. Letcia comoveu-se com o sofrimento da prima e teve que recorrer ao bom senso para faz-la retornar.
- Volte para o palcio agora. Se prima Augustina desconfiar que voc est aqui por causa de Kyril, teremos problemas.
A ideia assustou-a de tal forma que ela beijou Letcia rapidamente, deu meia-volta e ps-se a correr em direo ao castelo.
Letcia observou-a afastar-se, e no seu ntimo cresceu a determinao de salv-la e a Kyril, a qualquer custo. com passos decididos, rumou para o quarto da me, 
no andar superior.
A princesa Olga no costumava se levantar cedo pela manh. As filhas insistiam em que ela tomasse o desjejum na cama, e se revezavam para lhe levar a refeio preparada 
por Gertrude.
No momento em que Letcia entrou com a bandeja, ela estava sentada na cama. Parecia descansada e tinha um ptimo aspecto. Assim que viu a filha, cumprimentou-a com 
um sorriso gentil.
- bom dia, querida. Encontrou uma lembrancinha para Fraulein?
- Sim, mame. Um cachecol que Stephanie me deu no Natal e um esboo de Kyril, feito por Hettie. No  uma obra-prima, mas sei que Fraulein gostar.
- Tenho certeza que sim. Uma ltima coisa, querida, tome cuidado e no volte tarde amanh, seno ficarei preocupada.
Pode ficar tranquila, mame. Prometo que estarei aqui logo cedo.
Inclinou-se e beijou Olga. Saiu rpido em direo  porta, mas, Quando ps a mo na maaneta, escutou as ltimas palavras da me:
Gustave cuidar de voc. Ele  um bom homem!
Ela no respondeu, esperando que mais tarde, quando a me descobrisse que Gustave no a acompanhara, pensasse que a recomendao passara despercebida por Letcia.

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Correu para os estbulos, onde Gustave a esperava com Kaho selado e pronto para partir. O velho colocara as roupas que lhe haviam sido entregues na parte de trs 
da sela. O embrulho chamava a ateno, dando a impresso, para quem a visse, de que ela estava de viagem. No entanto, precisaria daqueles trajes e no havia modo 
melhor de transport-los.
J montada, olhou em volta, verificando se ningum a observava, e deu as ltimas instrues para o criado.
- Sua Alteza pensa que voc vai me acompanhar, Gustave. Por tanto, evite ao mximo que ela o veja.
Gustave, j acostumado com as atitudes pouco convencionais de Letcia, sorriu com ironia, antes de sosseg-la:
- Tenho que fazer compras, e depois disso ficarei longe de Sua Alteza. Ela no me ver.
- Obrigada, Gustave! - ela agradeceu, esporeando o cavalo que partiu a galope.
Fazia um dia adorvel, com uma ligeira brisa que impedia o calor excessivo. Os pssaros cantavam, e parecia quase impossvel que algo no estivesse certo no mundo. 
Letcia, porm, sentia-se apreensiva. Apenas as palavras do Voivode, ecoando em sua cabea, mantinham acesa a chama da esperana.
Pela estrada, levaria quatro horas de viagem at chegar ao castelo Thor, mas pelo caminho direto, atravs dos campos, Letcia no precisaria de mais de duas horas. 
Entretanto, como ia fazer uma parada na casa de Fraulein Sobieski, achou melhor se apressar.
Quando chegou  pequena vila, onde a boa senhora morava, fazia apenas meia hora que sara do castelo. A casa da antiga governanta ficava num dos pequenos vilarejos, 
construdos no sop da cadeia de montanhas, e era protegida por pinheiros.
Os cottages, com as paredes brancas e telhados vermelhos, tinham um ar muito pitoresco e se encaixavam perfeitamente naquela paisagem de conto de fadas.
O cottage de Fraulein Sobieski, um pouco maior que os demais
dispunha de um pequeno jardim, cheio de flores, na frente.
Letcia desmontou, amarrou as rdeas de Kaho na cerca de madeira e atravessou por entre os canteiros, at chegar  porta. Bateu de leve e, segundos depois, escutou 
o rudo de algum afastar uma cadeira e aproximar-se com passos lentos.
Quando abriu a porta, a velha soltou uma exclamao de surpresa:
- Letcia! Minha querida, eu no a esperava!

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- Estava com saudades e resolvi visit-la.
- Voc deve estar a caminho do castelo para conhecer o rei Vicktor, quando ele chegar essa noite.
Letcia no a contradisse. Entrou na pequena cozinha, seguida da mulher:
Conte-me tudo sobre sua famlia, enquanto lhe preparo uma
xcara de caf.
Observando a habilidade da velha no fogo, Letcia ps-se a falar sobre a volta de Kyril e os preparativos para o baile oficial.
Somente quando Fraulein Sobieski serviu-lhe o caf fumegante e sentou-se  sua frente, comentou:
- Trouxe-lhe dois pequenos presentes e espero que goste.
- Quanta gentileza! Ouvi falar que as coisas tm sido difceis para vocs desde a morte do prncipe Paul. Imagino que precisem poupar cada tosto.
- Como sabe disso?
- Fofocas, minha querida. Todos que vm da Capital para c comentam como sua me  tratada pela gr-duquesa.
- Ento, isso  do conhecimento pblico.
Fraulein olhou-a por um momento e assentiu com a cabea.
- Deve me perdoar se estou lhe contando coisas que talvez devesse guardar comigo. Seus pais sempre foram bons para mim e no posso suportar a ideia de que vocs 
no sejam mais to felizes.
Letcia sentiu que no adiantava fingir e contou-lhe como a gr-duquesa os detestava e os mantinha afastados do palcio, impedindo-os de tomar parte nos acontecimentos 
sociais.
 medida que Letcia falava, a raiva na expresso da boa senhora
tornava-se evidente. At que, finalmente, explodiu:
-  cruel! Cruel! Mas corresponde exatamente ao que tenho ouvido de muitos admiradores de seu pai. Pessoas que adorariam voc, se pudessem conhec-la.
Letcia deu um pequeno suspiro.
- No h nada que possamos fazer, a no ser, como voc costumava dizer quando eu me machucava: "sorria e aguente firme"!
Fraulein Sobieski riu.
Voc era uma menina aventureira, sempre caindo das rvores ou das escadas, Eu costumava considerar todos os dias a possibilidade de Voc quebrar a perna de uma maneira 
ou de outra.
Letcia riu, ao imaginar o que diria a velha governanta caso

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desconfiasse de sua atual aventura. Mas era impossvel lhe revelar o segredo. Por isso, apressou-se em terminar o caf e sugeriu:
- Voc se importaria se eu ficasse aqui at depois do almoo; No quero chegar cedo demais ao meu destino.
Fraulein Sobieski mostrou-se encantada com a proposta.
- Claro, minha querida! Ponha o cavalo no estbulo atrs do cottage. Na verdade, no passa de um pequeno barraco, mas  mais seguro do que a rua.
Letcia fez como a antiga governanta sugerira e, quando voltou Fraulein j arrumara o almoo na mesa para as duas. Consistia de uma omelete de legumes frescos, um 
queijo cremoso que a velha mesma havia feito e alguns, morangos.
Conversaram sobre os velhos tempos, e Letcia chegou a repetir os pratos de to saborosa que achou a comida. Depois do caf, apesar dos protestos de sua anfitri, 
ajudou-a a lavar a loua. Dessa forma o tempo passou rpido.
Quase na hora de sair, descobriu que Fraulein Sobieski podia dar-lhe algumas informaes que lhe seriam teis. Assim, deteve-se mais um pouco para ouvi-la.
- Contaram-me que o rei solicitou que houvesse o mnimo de formalidades hoje  noite.
- Como descobriu isso, Fraulein?
- O filho de uma das famlias do vilarejo trabalha para o prncipe Cloviky, que, como voc sabe,  dono de todas as terras nessa parte de Ovenstadt. Pois bem, ele 
me falou que apenas o prncipe ir saudar o rei na sua chegada ao castelo.
Letcia rebuscou na memria e logo recordou-se de que lhe haviam dito sobre o nobre. Cloviky j era um homem idoso e tinha fama d' pacato. Vivia num confortvel 
castelo das proximidades e raramente era visto na corte, devido  distncia entre o vilarejo e o palcio & gro-duque. Nesse momento, decidiu verificar o que mais 
a governanta sabia.
- O prncipe vai recepcion-lo sozinho?
- No! O ministro da Justia o acompanhar, representando o Governo. E, amanh, o primeiro-ministro escoltar Sua Majestade at  Capital, para encontrar-se com 
a gr-duquesa!
- Claro que ela vai arrumar uma forma de se mostrar. Afinal, foi quem arranjou tudo para essa visita.
- Exato! Desconfio que, como ele no  casado, Sua Alteza

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pretende ajeitar as coisas para obrig-lo a pedir Stephanie em casamento.
Letcia no se admirou das suspeitas da velha senhora. Os planos da "vbora" eram to evidentes, que qualquer pessoa, em seu juzo normal, levantaria aquela hiptese. 
Por isso, resolveu sondar as opinies dela a respeito.
Voc acha que Sua Majestade seria um bom marido para
Stephanie?
- Ele  um tanto velho para ela e,  claro, ouvem-se histrias que podem ou no ser verdadeiras.
- Que tipo de histrias?
- Eu no deveria repetir essas fofocas para voc, mas comentam que ele  muito atraente, e as damas o consideram irresistvel.
- Como homem ou porque  rei?
- Os reis tm por natureza um charme prprio. Mas, como trabalhei em palcios reais toda a minha vida, sei que muitos so solitrios e infelizes. Esse no parece 
ser o caso de Vicktor, ao contrrio, afirmam que se trata de um homem muito cnico e galanteador...
Letcia franziu a testa e interrompeu-a, espantada:
- Cnico? Porqu?
- Parece que ele se apaixonou quando era jovem e nunca superou isso. Dizem que agora trata as mulheres com certo menosprezo.
- Que interessante! Conte-me mais!
- A pessoa que me revelou isso mora em Zvotana, mas de vez em quando vem passar uns dias comigo. Ela foi governanta de um dos parentes do rei.
Percebendo que a mulher desviava o rumo da conversa, Letcia apressou-se em faz-la voltar ao tema, instigando-a:
- Ento ele se apaixonou?
- , e sofreu uma decepo, porque a garota no quis aceit-lo,
afirmando que ele no tinha boas perspectivas!
Deu uma risada e acrescentou, em tom zombeteiro:
- Deve estar se sentindo uma tola agora que, inesperadamente,
ele se tornou rei de Zvotana.
- Se essa moa se importava apenas com a posio dele e no o considerava nada como pessoa, ento ele deve agradecer  sorte por t-la perdido.
Fraulein sorriu com benevolncia e afagou-lhe as mos:
- Fico contente com seu romantismo! No perca nunca esses ideais, so a nica coisa que valem a pena na vida. Um dia voc

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achar um marido to charmoso e nobre como o falecido prncipe Paul.
-  o que eu desejo, mas Deus no faz muitos homens como papai.
A governanta virou a cabea e enxugou uma lgrima: - Certamente seria difcil encontrar outro homem igual a ele mas nunca perca a f. Reze sempre para que voc e 
Stephanie sejam felizes.
Letcia comoveu-se com a espontaneidade da velha, porm no disse nada. Em seu ntimo, uma voz lhe assegurava que agora a felicidade de Kyril e da prima dependia 
apenas dela.
Quando o calor amenizou um pouco, Letcia despediu-se de Fraulein Sobieski e, selando Kaho novamente, partiu em direo ao castelo.
 vista da construo imponente, que parecia dominar todo o vale, Letcia emocionou-se. Quantas boas recordaes de sua infncia aquele lugar guardava.
Dominada por esse sentimento de reencontro com o passado, esporeou o cavalo, para apressar a subida, atravs da estrada em ziguezague, que levava at ao cimo da 
montanha em que estava o palcio, Mas, a determinada altura, virou-se para trs e mal conteve um grito que era um misto de alvio e surpresa.
Deu graas aos cus! Os ciganos haviam cumprido a promessa: estavam l. Agora, sentia-se mais confiante para levar at ao fim o projeto de salvar a prima e o irmo.
O acampamento estava montado em uma rea plana, tradicionalmente ocupada por diferentes tribos no passado. Tratava-se de um pequeno plat, com penhascos ngremes 
acima e abaixo, e representava um lugar de descanso para os romanis desde muitas geraes.
Fixando o olhar, Letcia pde distinguir as carroas de colorido vivo, dispostas em semicrculo com um grande espao no meio, onde, mais tarde, se acenderia o fogo.
Imaginou que, quando o sol desaparecesse no poente, se tocariam os violinos, e as msicas melodiosas e sensuais subiriam em direo ao castelo. Ento, seria impossvel 
resistir ao apelo secreto que aquelas notas transmitiam.
Lembrou-se de uma ocasio h alguns anos em que, recm-chegados em visita ao castelo, no encontraram os ciganos. Como era primavera, a famlia real viajou certa 
de que depararia com alguma tribo nas redondezas: Por isso, ela e Kyril se desapontaram depois de cavalgarem pela estrada sinuosa e verificarem que o plat se apresentava 
vazio.

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Depois, quando j haviam quase terminado o jantar, a princesa Olga levantara subitamente a mo e alertara:
Escutem!
Ao escutar o som dos violinos ao longe, Kyril exclamou com os olhos brilhantes:
- Os ciganos! Sabia que no iriam nos decepcionar.
Ao fim da refeio saram todos para o terrao de onde se tinha uma vista panormica do vale.
Logo abaixo podiam avistar a grande fogueira do acampamento ardendo. O som das cordas, as notas metlicas dos pratos e o soar dos tamborins, semelhantes a um sino, 
enchiam o ar de uma melodia cheia de mistrio e magia.
A msica produziu um efeito eletrizante que despertava a vontade de danar. Em poucos minutos, Letcia, Kyril e Marie-Henriette tinham escancarado as janelas e se 
movimentavam no assoalho polido do hall.
Era tradio que a determinada hora o prncipe Paul enviasse dinheiro, atravs de um criado, para os msicos, em retribuio ao divertimento. O chefe do grupo, ento, 
recebia a recompensa e agradecia com um aceno de mo. Logo depois, o homenageavam com uma serenata ou uma cano folclrica ligada ao Regimento em que ele servira.
Nessas ocasies, os ciganos se mostravam to amistosos e dedicados que parecia incoerente que algum, como a gr-duquesa, quisesse impedi-los de permanecerem puros 
e ligados aos seus costumes. Era realmente uma violncia muito grande barrar-lhes as portas da cidade.
"Na verdade,  revoltante e desumano!", concluiu Letcia, enquanto olhava ao redor  procura de um desvio que a levasse direto ao acampamento.
Assim que desmontou, o Voivode aproximou-se para receb-la com um sorriso. Ela percebeu que, apesar de a fitarem com interesse, sua chegada no provocou nenhum espanto. 
Em suma: a esperavam e a recepcionavam com muita cordialidade. Isso deixou-a mais tranquila e  vontade. Cumprimentou-os com alegria e deixou Kaho por conta dos 
meninos, que pareciam empolgados com a oportunidade de cuidarem de um cavalo to admirvel.
- Tenho tudo pronto como Vossa Alteza pediu - afirmou o Voivode.
Letcia teve que se conter para no abra-lo, mas agradeceu em romani, com bastante entusiasmo:
- O senhor  muito gentil!
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Sorrindo, o cigano conduziu-a pelo brao at a uma carroa lindamente pintada, estacionada ao lado de outra maior e mais luxuosa, que parecia pertencer ao prprio 
Voivode. Apontando para o veculo ele ofereceu:
- Esta  sua pelo tempo que desejar ocup-la.
Letcia agradeceu novamente e entrou para comear a se aprontar. Seus olhos brilharam de satisfao ao verificar que tudo ali era muito atraente.
As paredes eram pintadas com flores e pssaros, as pequenas janelas tinham cortinas de tecido vivamente colorido e havia sobre o assoalho um tapete feito  mo.
Estava to entretida observando a decorao, que assustou-se quando uma das ciganas abriu a porta e entregou-lhe a sela de Kaho juntamente com o embrulho que continha 
o vestido cigano. Ao notar o ar simptico da moa, Letcia tomou-lhe o pacote das mos e abriu-o estendendo sobre a cama o belo vestido. Assim que o viu, a cigana 
soltou um gritinho de espanto.
-  muito bonito! Voc parecer uma de ns depois de vesti-lo, ou melhor, ficar igual a uma de nossas irms russas!
-  s o que eu desejo! - respondeu Letcia, enquanto desdobrava as anguas, enfeitadas com babados de renda, que usaria por baixo da saia ampla.
Despiu com rapidez o traje de montaria e, com a ajuda da cigana colocou as anguas, a blusa de mangas largas e a saia de seda vermelha, repleta de- lantejoulas. 
Por fim, o corpete preto circundou-lhe a cintura fina. Assim que a mulher amarrou os cordes, o colete realou-lhe o talhe esbelto e elegante.
Soltou os cabelos, deixando-os cair por sobre os ombros, e escovou-os at que ficassem brilhantes e esvoaantes.
Tornou a prend-los de lado, com fitas vermelhas, e cobriu a cabea com um vu enfeitado de moedas douradas, que lhe emolduravam a testa branca e macia.
Devido  excitao e aos tons vivos da roupa, os olhos dela brilhavam como nunca, e um leve rubor lhe coloria as faces, tornando-a muito atraente.
Finalmente, a mulher estendeu-lhe um par de chinelos vermelhos e enfeitou-lhe os tornozelos com moedas douradas, combinando com as pulseiras e colares que j colocara.
Ento, a cigana deu um passo para trs e bateu palmas.

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- A graciosa dama parece uma de ns!
- Tem certeza?
-  muito bonita! Uma cigana, mas no hngara... russa!
- Obrigada!  o que eu precisava ouvir!
Apesar da ajuda e da pressa, Letcia gastara um bom tempo para vestir-se. Mas, assim que se viu pronta, saiu timidamente da carroa para
encontrar-se com o Voivode, que a esperava com uma notcia.
- O rei Vicktor j chegou ao castelo.
Como havia estado to concentrada em se preparar, at se esquecera dos motivos que a tinham levado at ali. Por isso, demorou alguns momentos, antes de confirmar, 
com o corao aos saltos:
- Ele est no castelo?
- Sim. Foi recebido, juntamente com mais dois cavalheiros, por trs representantes daqui. Sua Majestade trouxe apenas dois acompanhantes de Zvotana.
Letcia sorriu. As coisas se encaminhavam melhor do que esperava. Afinal, um pequeno grupo no castelo facilitaria seus planos, e diminuiria os riscos de algo dar 
errado. O cigano interrompeu seus pensamentos com outra informao:
- Meus meninos tm estado observando e dizem que em poucos minutos Sua Majestade ir descer para o jantar.
Lembrando-se das palavras da governanta, Letcia deduziu que o prncipe Cloviky no pernoitaria no castelo Thor. Portanto, teria que se pr a caminho sem perda de 
tempo, pois a distncia entre os dois palcios era longa. O ministro da Justia tambm no representava qualquer ameaa ao projeto dela, porque, na certa, ele se 
esforaria para se recolher cedo, devido s festividades em que tomaria Parte no dia seguinte.
Assim, assegurou a si mesma que no havia razo para o medo inexplicvel que sentia, uma vez que tudo prometia sair melhor do que Julgara. No entanto, a ansiedade 
em seu rosto devia ser evidente e no Passou despercebida ao Voivode, que repreendeu-a com suavidade:
- O medo  destrutivo. Acredite e tenha confiana em si mesma.
-  o que estou tentando fazer!
- Se o destino for generoso, tudo sair bem.
Ele falava devagar e com firmeza e no esperou pela resposta. Em Vez disso, encaminhou-a em direo ao fogo que tinha sido aceso, num convite mudo a que ela se juntasse 
aos ciganos em sua refeio da noite.

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Ela e o Voivode tinham cadeiras para se sentar. Os demais estavam acomodados no cho, enquanto as mulheres mais jovens serviam os pratos.
Letcia no fazia a mnima ideia dos ingredientes do cozido, mas era mais saboroso do que qualquer outra coisa que tinha experimentado nos ltimos tempos.
Os ciganos usavam ervas frescas em tudo que comiam, e no se mostrava difcil identificar o sabor de algumas, que espalhavam um ptimo aroma pelo ar e possuam um 
sabor to apetitoso.
Ao final do jantar, a luz do dia j desaparecera completamente no horizonte, deixando no lugar o brilho tnue das estrelas e da Lua. Letcia ps-se de p com deciso 
e foi acompanhada pelo Voivode, que a ouvia atento.
- No se esquea de responder ao meu sinal.
- Faremos exatamente como Vossa Alteza pediu.
Diante da hesitao que ela demonstrava, o cigano encorajou-a com voz calma:
- Nossas bnos vo com voc e a magia que pediu  sua.
Essas palavras exerceram uma influncia reanimadora no esprito
de Letcia.
Era isso que ela queria ouvir. com um sorriso de gratido, tomou seu caminho com passos rpidos, sem que ningum a ficasse encarando com curiosidade.
Os ciganos, com sua acurada percepo, sabiam que se a observassem aumentariam seu embarao.
Quando chegou ao fim do plat, comeou a subir os degraus, talhados toscamente na rocha, que levavam diretamente ao castelo. A certa altura, ouviu um rudo de folhas 
sendo esmagadas e percebeu que um dos meninos ciganos vinha atrs, protegendo-a.
O garoto no falou nem a molestou, mas ela sabia que o Voivode o enviara para lhe dar confiana.
Os degraus eram ngremes e ela os escalava devagar.  medida que se aproximava do topo, o corao batia mais acelerado. Sabia que se escorregasse dificilmente sobreviveria 
 queda.
Ao alcanar o terrao para o qual as janelas do castelo se abriam, rumou na sombra at uma grande moita de arbustos floridos.
Atrs dela, havia uma entrada secreta para o castelo. Conhecia aquela passagem desde criana e muitas vezes a aproveitava em suas brincadeiras de esconde-esconde.

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O castelo Thor havia sido fortificado na Idade Mdia para resistir aos ataques dos inimigos de Ovenstadt. Contava-se que muitas vezes a famlia real permanecera 
sitiada ali para fugir de saqueadores que desejavam mat-los.
Mas eles sempre se saram vitoriosos e uma das razes era a arquitetura engenhosa da construo. Enquanto os inimigos bloqueavam aquilo que julgavam ser a nica 
entrada da fortificao, havia, na verdade, diversas passagens secretas que levavam ao interior do castelo, conhecidas apenas pelos governantes da poca.
Letcia forou a passagem entre os arbustos e encontrou a entrada que procurava.
Levou pouco tempo para afastar a hera que encobria a porta e abriu-a com facilidade. Rumou atravs de um corredor que levava a uma das torres.
A princpio estava escuro e ela estendeu as mos para se apoiar. Depois havia uma luz que entrava pelas aberturas estreitas e compridas pelas quais os primeiros 
defensores do castelo tinham arremessado suas flechas.
Agora os degraus, pouco estragados apesar dos anos, faziam curvas e curvas, e Letcia os galgou at ao primeiro andar do castelo, sobre o salo de banquetes e a 
sala de recepes.
Aquele era o pavimento destinado a servir de aposentos para o rei.
Havia ali um quarto decorado com uma magnfica cama com cortinado, que fora usada pelo gro-duque e pelo prncipe Paul. O ambiente fazia divisa com uma sala de visitas 
particular muito confortvel, onde Letcia no podia entrar quando criana, a menos que fosse convidada. Seu pai, na poca, justificara a proibio com um tom de 
brincadeira:
- Preciso ter um lugar onde possa ler os jornais em paz. O resto do castelo  de vocs, mas esta sala  minha.
Costumavam provoc-lo sobre isso alegando que ele s ia para l Para dormir quando estava cansado da conversa deles.
Agora, ao retornar ali, Letcia percebeu que podia se lembrar de cada cadeira, cada mesa, cada quadro pendurado na parede. Sabia esatamente onde ficava a taramela 
no lambril que a permitiria entrar no quarto.
Naquele momento, ao aproximar-se para girar a taramela delicadamente, ouviu uma voz de homem dizer: - Deseja mais alguma coisa, senhor?
- No, obrigado - respondeu outra voz grave, que ela deduziu ser

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do rei Vicktor. - Tenho alguns documentos para despachar e depois irei para a cama.
- Papis oficiais frequentemente so cheios de meandros e incompreensveis. Lembre-se de que o dia de amanh ser cheio e no se desgaste muito, Majestade.
- Estou ciente disso! Prometo-lhe que no me cansarei mais do que o essencialmente necessrio.
Ambos riram e o homem que falara primeiro despediu-se:
- Boa noite, senhor.  muito quieto aqui, portanto no creio que algum possa perturb-lo.
Ouviu-se o barulho de uma porta fechando e poucos segundos depois o leve rudo de papis.
Letcia entrou devagar pela abertura no lambril, e deteve-se diante de uma tela que fora colocada ali pela me dela.
O prncipe Paul reclamara de uma corrente de ar que entrava pelo canto do quarto, e pedira  esposa que instalasse um cortinado ali. A princesa Olga arrumara ento 
aquela tela feita de tapearias antigas, vindas de outros cmodos do castelo, mas velhas demais para serem usadas inteiras.
A me tinha limpado as tapearias, separado as melhores partes e costurado umas s outras, formando uma espcie de mosaico.
Letcia, desde menina, apreciara aquele trabalho artesanal e de bom gosto. Passava horas mostrando a Marie-Henriette, que mal comeara a andar, os animais, os homens 
andando a cavalo e as damas com enfeites pontudos nas cabeas.
"Ah, quando eu poderia imaginar que um dia iria entrar aqui escondida?", perguntou a si mesma, com um sorriso triste, antes de precipitar-se para o quarto.
De cada lado da lareira, onde o fogo ardia, devido ao frio que fazia  noite, havia duas enormes e grossas velas em suportes entalhados.
Vrias arandelas de prata se espalhavam pelas paredes, cada uma com duas velas acesas, e um grande castial de ouro estava sobre a mesa. O rei parecia entretido 
em ler um mao de papis que segurava sobre o joelho.
Letcia parou, sem coragem de interromp-lo. Teve, mesmo, vontade de dar meia-volta e sair dali correndo, mas instintivamente ele pressentiu

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a presena dela e levantou os olhos. Por um momento pareceu estar paralisado.
Mas, se ele a fitava surpreso, ela tambm o olhava fixamente, sem conseguir recuperar o autocontrole. Ele era muito mais atraente do que Letcia previra. Alto, musculoso, 
com olhos e cabelos negros, que revelavam sua origem cigana, e um rosto de feies bem definidas.
Parecia em tudo com o homem que Letcia sempre sonhara encontrar em seus devaneios, mas que pensava no existir. No era apenas bonito, mas havia algo nele, um magnetismo 
poderoso que o fazia parecer diferente de qualquer outro. Notou tambm que Fraulein Sobieski no se enganara ao afirmar que ele agia com cinismo, pois as linhas 
do nariz e dos lbios possuam uma expresso desdenhosa.
Quando Vicktor falou, havia um tom seco, quase zombeteiro, em sua voz:
- Voc  real ou  uma apario?
- Sou real!
- Ento s posso supor que a hospitalidade do castelo Thor supera em muito o que eu esperava!
Essas palavras e o brilho estranho dos olhos negros confirmaram para Letcia suas suposies. Aquele era um homem atraente, mas, sem dvida, convencido do efeito 
que produzia sobre as mulheres. Sentindo que devia tomar a iniciativa e ganhar o controle da situao, ela apressou-se em explicar:
- Sou uma cigana e, portanto, estamos unidos pelo sangue.
- Isso  algo que em geral me apontam como lamentvel.
- Podem lhe dizer isso em Zvotana, mas aqui eu e outros ciganos temos muito orgulho da sua ascendncia.
- De onde voc vem? Como conseguiu entrar no castelo sem que as sentinelas e todos os que me atendem percebessem?
Ela esquivou-se de responder e, preferiu ir direto ao assunto:
- Gostaria de mostrar a Vossa Majestade o local onde uma tribo Kalderash est acampada.  tradicional para os ciganos abrigarem-se sob a proteo da sombra deste 
castelo.
Enquanto falava, caminhou para a janela e abriu uma das folhas. Aquele era o sinal que os ciganos estavam esperando.
Por isso, no momento em que o rei se levantou da cadeira e atravessou o quarto em direo a ela, chegaram os primeiros acordes dos Violinos ciganos.
Letcia reconheceu a melodia que estavam tocando. Tratava-se de uma cano de amor, seduo, anseio e desejo.

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- Ento  de l que voc veio. Qual  mesmo o nome da tribo?
- Kalderash.
Houve uma pequena pausa, como se ele estivesse tentando lembrar o que sabia sobre o grupo. Antes que falasse alguma coisa, Letcia esclareceu-o calmamente:
- Os que fazem trabalhos em metal e magia!
Percebendo que conseguira lhe despertar o interesse, ela animou-se em concluir o convite:
- Vossa Majestade estaria interessado em conhecer a magia que fazemos? Eu gostaria que me permitisse mostrar nossa dana.
- Voc  uma danarina?
Letcia fez que sim com a cabea, mas no acrescentou nada.
- Qual  o seu nome?
Depois de uma pequena pausa, Letcia respondeu hesitante:
- Saviya.
O rosto de Vicktor se contraiu, como se constitusse um insulto o fato de ela possuir o mesmo nome de sua bisav.
- Sabe que esse nome tem um significado especial para mim?
- Claro! E sinto-me honrada de ter o mesmo nome que a maior danarina de nossa raa de todos os tempos.
Viu que ele estava satisfeito com o elogio e continuou:
- No poderia nunca aspirar a tal fama, mas ficaria intensamente orgulhosa se Vossa Majestade me permitisse danar para o senhor... o senhor e mais ningum!
Virou-se da janela ao falar e enquanto caminhava em direo ao tapete da lareira sentiu sobre si o olhar perscrutador do rei. Ao mesmo tempo, ouviu-o dizer, com 
um tom malicioso.
- Voc  muito bonita, Saviya. Suponho que muitos homens j lhe disseram isso.
- Na verdade, conheci poucos homens fora da tribo. Talvez, Vossa Majestade no saiba, mas as mulheres ciganas so muito resguardadas, primeiro por seus pais, depois 
por seus maridos.
- Est me dizendo que  casada?
Letcia sorriu.
- No.
- Ento, s o que posso deduzir  que os homens de sua tribo no tm olhos! - Fitou-a com intensidade e deu alguns passos em sua direo. - Fale-me de voc. Estou 
interessado.
- 
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Letcia assustou-se e recuou at  sada secreta.
Os violinos nos chamam, Majestade.
Est bem! Conversaremos mais tarde, antes irei v-la danar.
Suponho que deseja que eu v sozinho.
- No precisa ter receio. No  a sua posio que vai proteg-lo, mas seu sangue.
- Estou achando isso muito intrigante. Toda a minha vida evitei os ciganos, porque tm caoado de meu sangue cigano ou ento por falarem dele como uma grande infelicidade, 
e agora voc o encara como uma honra.
- Esta noite espero que o senhor mude de ideia e compreenda a sorte que tem por ser o bisneto de Saviya.
- Sempre me disseram que ela era linda, mas no acredito que fosse mais bonita do que voc.
Letcia deu um pequeno sorriso e lanou-lhe um olhar provocativo, antes de virar-se e encaminhar-se at  porta. Ali, tornou a voltar-se e tranquilizou-o:
- Levarei Vossa Majestade para fora do castelo por uma passagem secreta. Assim, ningum desconfiar de sua ausncia.
Atravessou o lambril da passagem secreta, seguida por ele. Estava satisfeita com o resultado de sua abordagem e o rei no demonstrava nem um pingo de contrariedade. 
Ao contrrio, em seu rosto havia um misto de divertimento e espanto diante de uma situao to indita.
Conduziu-o pelo mesmo caminho por onde ela havia subido do plat. No pensava em nada e procurava apenas concentrar-se nos violinos.  medida que a msica ficava 
mais alta, Letcia podia senti-la entrando em seus ouvidos, despertando-lhe um irresistvel desejo de movimentar-se.
Alcanaram o ltimo degrau e avistaram o Voivode, que os esperava ainda mais magnfico do que antes. Usava correntes de ouro e rubis. O cigano adiantou-se alguns 
passos e cumprimentou-os, respeitosamente:
- Permita-me dar-lhe as boas-vindas, Majestade, no como um rei, mas como um dos Roms.
- Estou encantado por unir-me a vocs - respondeu o rei com simplicidade.
As duas cadeiras, em que o Voivode e Letcia tinham sentado para o jantar, haviam sido substitudas por duas poltronas de braos entalhados e estofado vistoso.

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Havia tambm um tapete para os ps do rei e uma mesa de centro na qual estava uma das taas enfeitadas em que Letcia bebera.
Uma cigana aproximou-se e encheu-a de vinho enquanto o rei se unia ao Voivode num brinde. Absorta nessa contemplao, Letcia demorou para perceber que uma das ciganas 
a puxava.
Era a mulher que a ajudara a se vestir. Sem nada dizer, ela tirou-lhe o vu vermelho e substituiu-o por um arranjo de cabea com fitas vermelhas enfeitadas com ouro 
e pedras preciosas, que brilhavam mesmo na sombra.
A cigana ajustou um colar de moedas de ouro em seu pescoo e
atarrachou-lhe nas orelhas um enorme par de brincos com moedas de ouro intercaladas com pedras vermelhas.
Letcia deixou-se arrumar sem se dar conta de nada, os olhos fixos nas mulheres mais jovens da tribo que se movimentavam de mos dadas ao redor do fogo, ao som da 
msica selvagem e alegre dos violinos. Uma a uma, elas saam da roda, danando primeiro devagar e graciosamente, depois com movimentos cada vez mais rpidos e envolventes. 
Por fim, quando a melodia terminou e as danarinas desapareceram nas sombras, Letcia estremeceu. Afinal, chegara sua hora.
A msica mudara e era mais suave, doce e terna. Enquanto ela caminhava em direo ao fogo, os ciganos comearam a cantar uma cano encantadora. Suas vozes pareciam 
se fundir no s com a msica, mas tambm com as estrelas no cu e a luz que prateava as montanhas e o castelo.
A princpio, o som foi delicado e, tilintava como um sino de prata, depois, gradativamente, tornou-se selvagem, revigorante e excitante.
O ritmo foi crescendo, e Letcia o acompanhava sem esforos, naturalmente, os passos mais e mais acelerados.
Cada movimento ou pirueta pareciam ser espontneos, de maneira que ela no precisava raciocinar, seu instinto lhe dizia o que fazer.
Depois, quando a msica ficou ainda mais selvagem, ela sapateou em volta do fogo com incrvel graa. Enfim, num impulso, saltou sobre a fogueira duas vezes, seus 
ps parecendo possuir asas.
Comeou a se mover de novo mais vagarosamente e lhe pareceu que no estava mais danando com o corpo, mas com a alma. O ritmo se alternava, indo desde uma nota violenta 
e vibrante at uma paz prxima  calma de um arco-ris depois da tempestade.
Como se comandada por uma voz secreta, Letcia se equilibrou ao lado do fogo e ergueu os braos. Todo o seu corpo brilhava como se ela fosse uma das chamas. Jogou 
a cabea para trs em xtase e olhou para as estrelas. De sbito parou, e foi se abaixando.

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Permaneceu absolutamente imvel at parecer desvanecer-se na escurido e desaparecer, enquanto a msica morria lentamente num sussurro.
Por um momento houve completo e absoluto silncio. O rei, que no se movera da cadeira desde o momento em que Letcia comeara a danar, tomou flego e sacudiu a 
cabea incrdulo.
Somente quando a msica recomeou de maneira suave ele sentiu que voltava  realidade e instintivamente esvaziou o copo de vinho que tinha nas mos.
- No imaginava que a dana cigana pudesse ser to maravilhosa! - Vicktor elogiou, voltando-se para o Voivode, como se devesse quebrar o silncio. - Tenho certeza 
de que Saviya  excepcional. No pode haver outra danarina to boa como ela!
- Se h, ainda no vi.
O rei se conteve para no dizer que achava desperdcio ela ficar ali. Por sorte, percebeu que isso seria indelicado, e comentou:
- Mal posso acreditar que no estive sonhando.
O Voivode sorriu.
- Amanh Vossa Majestade dir a si mesmo que foi culpa da nossa magia ou do vinho que bebeu. No acreditar no que viu e sentiu.
O rei permaneceu em silncio. A dana que acabara de presenciar lhe despertara uma experincia emocional nica. E, embora no tivesse vontade de admitir isso, estava 
ciente de que no havia necessidade de exprimi-lo em palavras, porque o Voivode intua o que ele estava sentindo.
Percebendo que necessitava recobrar a tranquilidade, esforou-se em acrescentar:
- Se isso for magia, no preciso lhe dizer o quanto a aprecio! Por favor, mostre-me mais.
- Vossa Majestade realmente deseja isso?
- Claro! Tenho sempre ouvido falar sobre os ritos ciganos, mas nunca a oportunidade de presenci-los antes.
- Temos uma cerimnia muito especial nesta tribo. Penso que talvez ela interessasse  Vossa Majestade, isto , caso no tenha receio de tomar parte nela.
- Receio? Claro que no!
- Tem certeza disso? Absoluta?

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Houve um silncio e Vicktor reforou o pedido:
- Mostre-me.  algo que desejo ver e posso no ter nunca outra oportunidade.
O Voivode olhou-o e anunciou calmamente:
- O ritual que estou sugerindo e no qual Vossa Majestade se prope a tomar parte  a magia de um casamento cigano!

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CAPTULO v

Houve silncio por um momento, enquanto o rei fitava o Voivode, surpreso.
Ento, timidamente, Letcia saiu das sombras e aproximou-se dos dois homens. Havia tirado a coroa de jias, os brincos e o colar que a cigana lhe emprestara para 
a apresentao, e os substitura pelos seus. Novamente, o vu vermelho com moedas douradas lhe emoldurava a testa, cobrindo os cabelos sedosos.
Devido ao esforo quase selvagem que a dana exigira, sentia as faces coradas e a pulsao acelerada. Seus olhos brilhavam intensamente, como se parte das chamas 
tivesse se transferido para dentro dela no momento em que saltara sobre o fogo.
O rei fitou-a com interesse, antes de voltar-se para o Voivode e Perguntar:
- E com quem sugere que eu me case?
- Quem mais a no ser Saviya? Mas primeiro quero esclarecer uma coisa para os dois...
Falava to solenemente que tanto Vicktor como ela o olhavam espantados  espera de uma explicao. Aps alguns instantes de absoluto Meneio, o cigano retomou a palavra:
- Se vocs pertencessem  minha tribo, eu no poderia realizar essa cerimnia...
O rei interrompeu e, como se tivesse levado um choque:
Saviya no pertence  sua tribo?
O Voivode balanou a cabea em negativa, e declarou, orgulhoso:
Nosso sangue  puro. No permitimos mistura com outros cls.

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- Fitou-os com firmeza e concluiu: - Est bem. Embora nem Vossa Majestade nem Saviya sejam totalmente Rom, podero ver, ouvir e sentir o que  proibido para os grgios.
Vicktor permaneceu imvel, sem esboar qualquer reao, como se no compreendesse a extenso do que o cigano acabara de propor. Em contrapartida, Letcia soltou 
um gritinho de excitao, enquanto os seus olhos brilhavam de alegria.
Aquela era uma chance nica. Finalmente, teria a oportunidade de presenciar e participar de um tipo de cerimnia que sempre desejara conhecer.
Toda a vida alimentara a esperana de compartilhar de um rito de magia, mas os ciganos dificultavam o acesso aos seus segredos para quem no fosse do prprio grupo. 
Mantinham reservas no s para com os grgios, mas para com qualquer outro agrupamento. No ocultavam tambm a importncia que atribuam queles que mantivessem 
o sangue puro. Quem ousasse quebrar essas tradies seria, na certa, alvo do desprezo dos restantes.
O Voivode pareceu ler, na mente dela, esses pensamentos e assentiu com um gesto de cabea. Logo, porm, assumiu uma pose altiva, que revelava a sua condio de superioridade 
em, relao aos demais, e acrescentou:
- Para ns, o casamento  sagrado e deve durar at  morte. Em nossos conceitos seria um sacrilgio quebrar esse sacramento. Fazer isso significaria ser expulso 
da tribo.
Fez uma pausa e continuou calmamente:
- Mas h uma cerimnia que, embora no seja usada entre os Kalderash,  muito popular em outras tribos, principalmente nas da Rssia e Frana.
Voltou-se para o rei ao dizer isso como se se lembrasse que ele havia morado l. Depois prosseguiu:
- Trata-se, na verdade, de um jogo no qual os noivos esto sob o comando dos deuses.
O rei e Letcia escutavam atentamente as explicaes do Voivode e no se aventuravam a fazer qualquer comentrio.
- A parte principal da cerimnia consiste em quebrar um jarro de barro. O nmero de pedaos em que ele se quebrar indica os dias, semanas, meses ou anos durante 
os quais ambos devem permanecer fiis um ao outro. No fim desse perodo, marido e mulher estaro livre para se separarem ou quebrarem outro jarro de barro.
com um movimento expressivo das mos, ele deu o assunto por encerrado. Letcia suspirou fundo. A sorte havia sido lanada. O Voivode

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cumprira com a promessa de ajud-la e, para tanto, recorrera a uma frmula engenhosa. Agora tudo dependia do rei. S restava torcer para que ele no se recusasse 
a tomar parte do ritual, ou que o encarasse levianamente.
Caso Vicktor concordasse em participar da cerimnia e levasse a cabo o compromisso assumido, se veria impedido de pedir a mo de Stephanie, durante a sua estada 
em Ovenstadt.
Mais uma vez, o cigano pareceu intuir a apreenso dela.
- Devo prevenir, Majestade, que quebrar os liames da magia na qual estar envolvido antes do tempo proporcionado pelos deuses o deixaria vulnervel s maldies 
e m sorte que todos os ciganos temem.
Depois de uma breve hesitao, o rei assegurou:
- Pode confiar em mim. Como bisneto de uma cigana de sangue puro, cumprirei com as condies que a cerimnia impe.
Ao ouvi-lo, Letcia no evitou uma demonstrao de alvio. Seu corao batia to descompassado que ela riu diante da ideia de que algum poderia escutar-lhe as pulsaes. 
Pela firmeza daquelas palavras, pressentiu que o rei jamais quebraria o juramento.
A resposta do Voivode, acompanhada de um sorriso de satisfao, tranquilizou-a ainda mais.
- Se  o que deseja, lhe mostrarei algo que ningum sem sangue romani j viu ou ouviu.
Era to excitante que Letcia pde apenas juntar as mos. Ento, o Voivode prosseguiu:
- A cerimnia de casamento ir comear agora. Mas primeiro, Majestade,  hbito que o noivo compre a esposa. Se tiver uma moeda de ouro deve d-la para mim.
- Penso que pelo que voc me oferece, uma moeda de ouro  muito pouco - respondeu o rei.
Dito isso, retirou uma das condecoraes do casaco branco do uniforme que vestia. Tratava-se de uma estrela de diamantes, e ao coloc-la na mo do Voivode, a luz 
do fogo se refletiu nela com intensidade.
O cigano virou-se para um jovem que estava por perto, enquanto fardava a jia no bolso, e ordenou:
- Traga a taa do amor.
Logo depois, o moo entregava-lhe uma enorme taa, trs vezes maior do que as anteriores. Era feita de ouro e trabalhada com a mesma percia ancestral das outras. 
Pedras preciosas de todas as cores a recobriam, formando um belo mosaico.
O Voivode entregou-a primeiro ao rei e depois a ela. Ambos provaram

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do delicioso vinho e pouco depois Letcia sentiu-se tomada por uma sensao de que tudo era bonito e dourado. Alm disso, ela comeou a adquirir uma percepo aguda 
de tudo que havia  sua volta.
Era difcil explicar, mas seria capaz de afirmar que o brilho das estrelas chegara mais perto, a luz do fogo tornara-se mais lvida, e as sombras escuras se transformaram 
num veludo macio que os rodeou e protegeu.
- Esta noite - dizia o Voivode -, com a unio de vocs, representar o final e no o comeo da festa, principiaremos pelo banquete...
Trouxeram uma cadeira para Letcia e a depositaram entre as poltronas do Voivode e do rei. Na frente deles, foi colocada uma mesa baixa com pratos dourados, to 
esplndidos como as taas.
A partir de ento foi servida uma infinidade de pratos, cada um mais apetitoso e original que o outro. Nunca em toda a vida ela experimentara comidas to exticas 
e to abundantes. As mulheres iam e vinham carregando enormes bandejas, que se esvaziavam ao som de violinos. Ao final da refeio, alguns ciganos vieram, um de 
cada vez, exibir-lhes truques de mgica que Letcia aplaudia animada. Nunca presenciara espetculo to empolgante.
Um cigano fez surgir pombas aparentemente do nada. Levantou os braos e elas voaram na direo de Letcia, pousando-lhe na cabea, nas mos ou nos ps.
O mgico dava uma ordem em voz baixa e trs delas desapareciam em diferentes direes. Depois voltavam e o circundavam trs vezes, antes que ele lhes permitisse 
pousar em seus braos. Uma foi muito longe para buscar uma folha de uma rvore, uma outra para trazer no bico uma flor.
Os pssaros faziam tudo o que ele lhes pedia. Ento, subitamente, mal o cigano lhes ordenou para partirem, os pssaros desapareceram e o deixaram sozinho em frente 
ao fogo.
Olhando de relance para Vicktor, ela percebeu que o rei tambm estava encantado com a astcia e a beleza do espetculo, e olhava ansioso a nova atrao: uma mulher 
suntuosamente vestida, com os braos carregados de pulseiras de pedras preciosas que os Kalderash apreciavam, caminhava em direo a eles com trs cestos de vime 
que depositou no cho.
A mulher levou aos lbios um instrumento semelhante a uma flauta e dos cestos surgiram trs cobras. Eram magnficas e pareciam muito perigosas quando se erguiam 
com as lnguas venenosas, torcendo-se traioeiramente para dentro e para fora, os olhos brilhando.
Os rpteis obedeciam docilmente s notas da msica, e balanavam-se

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seguindo o ritmo da flauta. Moviam-se do jeito que a cigana quisesse, torcendo-se e enrolando-se em seu pescoo.
por fim, quando ela repentinamente tocou uma nota aguda e autoritria, os animais escorregaram de volta para dentro dos cestos.
Depois disso, apareceu um cigano que fazia surgir flores do nada; e fez uma planta num vaso crescer na frente deles. Inesperadamente, quando a planta estava bem 
mais alta do que suas cabeas, ele mostrou-lhes um pssaro num ninho, que surgiu por entre os galhos. A demonstrao era to perfeita, to real, que parecia ser 
obra de hipnotismo.
O tempo passou num instante e, com um gesto de cabea, o Voivode deu o banquete por encerrado. Logo a mesa foi retirada da frente deles, e o Voivode se levantou.
Um dos ciganos aproximou-se e colocou algo ao lado do chefe. Letcia espantou-se ao perceber que se tratava de um feixe de ramos.
De acordo com o que dissera o prncipe Paul, certos ramos apanhados de sete rvores diferentes constituam o smbolo mais sagrado em um casamento cigano.
Receou que o Voivode fizesse a magia sobre os ramos, ou os quebrasse um por um e os atirasse ao vento. Se ele fizesse isso, Letcia estaria casada com o rei pelos 
votos sagrados romanis, at que um dos dois morresse. Mas o Voivode no quebrou os ramos. Colocou-os de lado e apanhou o sal e o po que estavam sobre uma banqueta.
Colocou o sal no po e deu um pequeno pedao para o rei e um outro para Letcia, dizendo:
- Quando estiverem cansados desse po e desse sal estaro cansados um do outro. - Virou-se para o rei. - Agora, Majestade, d seu pedao de po para Saviya e pegue 
o dela. Podem com-los.
Eles seguiram as instrues, observando que uma das mulheres se aproximava para entregar um jarro de barro na mo do Voivode.
Estava cheio de gua e, ao mesmo tempo em que o erguia alto no ar, como se fosse uma oferenda aos deuses, o cigano recitou uma prece em romani, que Letcia traduziu 
num murmrio quase inaudvel:
- Dirija seu poder para este jarro, senhor, e abenoe este homem e esta mulher que vo se unir como esposos pelo tempo que lhes for determinado.
Ento, violentamente, usando de toda a fora, arremessou o jarro ao cho entre os dois que o fitavam espantados. Quando o vaso se quebrou, Letcia prendeu a respirao, 
ansiosa por saber em quantos pedaos ele se partira.
O rei permaneceria em Ovenstadt at receber a chave da cidade,

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na sexta-feira. Se a cerimnia dessa noite tornasse impossvel para Vicktor pedir a mo de Stephanie no espao de trs dias, ele voltaria para Zvotana, e a gr-duquesa 
aceitaria que seu ambicioso plano falhara.
Estava to apreensiva que sequer conseguia contar os cacos que se espalhavam pelo cho. Ouviu algum murmurar Semno, e respirou aliviada. Isso significava cinco, 
portanto mais do que o necessrio. Olhou para o cho e confirmou que o jarro tinha se quebrado em cinco pedaos.
O Voivode agachou-se e apanhando a ala deu-a ao rei. Entregou um pequeno pedao para Saviya e anunciou solene:
- Agora esto unidos um ao outro por um liame indissolvel, determinado pelos deuses, durante cinco dias ou qualquer mltiplo de cinco. Guardem esse pedao e preservem-no 
cuidadosamente. Se o perderem antes do tempo estipulado pelas divindades, a tristeza, a solido e o azar cairo sobre vocs.
Falou de maneira to impressionante que Letcia estremeceu ao pensar se o rei, no acreditando naquelas previses, se expusesse  ira divina.
O Voivode prosseguiu a cerimnia, tirando uma faca da cintura e pegando a mo direita do rei e a esquerda de Letcia. Fez um corte minsculo no pulso de cada um, 
apenas o suficiente para fazer surgir uma gota de sangue na pele.
Depois segurou os pulsos de ambos, para que o sangue se misturasse, e amarrou-os com um cordo de seda dando trs ns.
Embora ele no tivesse explicado o simbolismo do rito, Letcia sabia que o primeiro n era para a constncia, o segundo para a fertilidade e o terceiro para uma 
vida longa.
Sentiu-se angustiada ao imaginar que, se o rei compreendesse isso, poderia julgar-se enganosamente envolvido em um casamento mais duradouro que os cinco dias impostos 
ao quebrarem o jarro.
A voz do cigano tirou-a desses pensamentos, ao abeno-los:
- Vo em paz e saibam que os deuses os abenoaram. Vocs presenciaram a cerimnia que s aos do nosso sangue  permitido ver. Vocs tambm tm, entre si, um mistrio 
que  s de vocs! Uma magia que vem do corao... a magia do amor!
Quando terminou de falar, os violinos irromperam em hinos de louvor e triunfo que ressoaram na escurido. De repente, como num sonho, surgiu um menino cigano segurando 
uma tocha acesa e andando em direo ao penhasco.
Atrs dele ia um homem tocando violino, e o rei e Letcia deduziram, sem que ningum precisasse dizer, que ambos deviam segui-los.

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Ao caminharem, passando ao lado do fogo, os ciganos recomearam a cantar uma cano de amor, ao mesmo tempo suave e convidativa, sedutora e provocante. A melodia 
tinha uma nota comovente, apesar de ser um tema de triunfo e realizao.
Alcanaram os degraus que subiam do plat em direo ao castelo e seguiram a tocha que os guiava.
Mais tarde, Letcia acharia estranho que ela e o rei tivessem conseguido subir os estreitos degraus lado a lado, com as mos amarradas, mas agora nem percebia nada.
Alcanaram o topo, e o cigano, que ainda tocava uma msica envolvente, juntou-se a eles.
Pouco adiante, o garoto parou e esperou que os dois o ultrapassassem. O homem do violino inclinou-se respeitosamente e saudou-os.
O rei parou diante deles e anunciou em agradecimento:
- Comuniquem ao Voivode que vocs sero sempre bem-vindos em Zvotana. Na minha volta, decretarei uma lei para que os ciganos nunca sejam perseguidos ou expulsos 
do meu pas durante o tempo em que eu permanea no poder.
Impulsivamente o cigano se ajoelhou e beijou a mo do rei, murmurando algumas palavras de gratido em romani. Vicktor pousou a mo sobre os ombros dele, ajudando-o 
a erguer-se, e voltou-se para Letcia. Tomou-a pelo brao e conduziu-a para o terrao, sem dizer nada.
Ela no olhou para trs por acreditar, como os ciganos, que dava azar fitar um lugar que se havia deixado com a inteno de nunca se retornar a ele.
Recobrando o autodomnio, Letcia indicou a entrada secreta que conduzia  escada pela qual podiam chegar ao primeiro andar sem serem vistos.
Subiram os degraus em silncio e atravessaram a passagem para a sala em que haviam se conhecido algumas horas antes.
Ao avistar as velas derretidas e baixas e o fogo que no passava de um brilho vermelho perdido entre as cinzas, Letcia tomou conscincia de que acabara de viver 
momentos carregados de emoo. Agora, embora fosse difcil, teria que retornar  realidade. A representao terminara!
com um arrepio, percebeu que Vicktor segurava-lhe a mo amarrada pelo cordo de seda. Sacudiu a cabea, como se assim pudesse afastar os pensamentos e sugeriu em 
voz baixa:
- Posso... desamarrar?
No esperou pela resposta dele e desatou o cordo. Somente quando

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pde tirar a mo da dele e perceber o pequeno corte que o Voivode fizera com a faca, olhou-o diretamente no rosto.
Notou ento que ele a fitava insistentemente com os olhos pretos brilhando de curiosidade. Havia uma expresso em seu rosto que parecia gritar que ambos estavam 
a ss. Letcia corou com essa lembrana, e as palavras do rei, embora ditas em tom calmo, a deixaram ainda mais apreensiva:
- Ento estamos casados! O que vai ser, Saviya? Cinco dias, cinco semanas ou talvez para sempre?
Ela estava surpresa com a pergunta. O que ele pretendia com aquilo? No soube responder para si prpria, mas, recordando-se de Stephanie, alertou-o, rpido:
- Imagino que para Vossa Majestade cinco dias so... um tempo muito longo, mas, por favor... deve respeit-lo.
- Dei minha palavra e nunca quebro uma promessa intencionalmente.
- Estou contente... muito feliz com sua... afirmao.
- Como eu poderia me comportar de outro modo, se esta noite no s me mostrou coisas que nunca imaginei que existissem como me trouxe tambm voc?
Havia uma sbita intensidade em sua voz e um brilho estranho em seus olhos, que a deixaram assustada. Percebeu, pela primeira vez, que seu plano estava indo longe 
demais e agora ela corria perigo. Desejou ter dado um passo atrs para escapar dele, mas era tarde demais.
Braos fortes e musculosos a rodearam, puxando-a de encontro ao peito forte. Ao mesmo tempo, com uma nota de doura, Vicktor anunciou:
- Voc  minha esposa, minha esposa cigana que o destino ou os deuses me deram.
Antes mesmo que pudesse levantar as mos para afast-lo, Letcia sentiu que os lbios dele procuravam sua boca, num beijo repleto de desejo.
Nunca havia sido beijada antes e sempre imaginara que seria algo suave, doce e de certa maneira confortador. Mas os lbios do rei eram duros, possessivos e quase 
a machucavam.
Embora a razo lhe gritasse que precisava lutar e se livrar dele, ela permaneceu imvel, dominada por uma estranha magia.
Era uma sensao semelhante  que a invadira durante a dana depois de beber o vinho cigano. O magnetismo dele parecia crescer e se intensificar, at que Letcia 
sentiu no s seus lbios se tornarem suaves e obedientes, mas todo o seu corpo se embalar como ao som de uma msica.

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Os braos do rei a puxaram para mais perto. Ela sentiu que a resistncia lhe fugia, deixando no lugar um arrebatamento e um xtase que nunca imaginou que existissem.
Compreendeu, ento, que aquele beijo os unira com uma magia muito maior que qualquer outra que tivessem recebido do Voivode. Uma magia que no era apenas parte do 
corpo, mas do corao e da alma! Algo to intenso, to poderoso e ao mesmo tempo to irresistvel como a prpria vida.
Os lbios do rei se tornaram mais insistentes e possessivos. Ele demonstrava que a desejava ardentemente, e a acariciava com ternura.
Letcia pensou vagamente que tudo aquilo era muito forte, muito bonito, e nada poderia destruir esse sentimento. Naquele momento, de uma maneira ou de outra, ambos 
estavam unidos espiritual e fisicamente.
Ele ergueu a cabea e fitou-a nos olhos, murmurando com a voz rouca de emoo:
- Voc  to perfeita!  tudo que tenho procurado durante toda a minha vida!
Beijou-a de novo, de uma forma selvagem e triunfante, como se repetisse a msica dos violinos na hora da despedida. Arrastou-a a um encantamento que parecia conduzi-la 
para cima, em direo s estrelas que brilhavam alto no cu.
Simultaneamente, ela sentiu como se tivesse fogo nas veias e soube que Vicktor tambm ansiava por unir-se a ela, em um nico ser. Estava quase gritando, quando o 
rei tirou os lbios dos dela para dizer:
- Voc  minha esposa! Eu te quero agora, da mesma forma que voc me deseja!
Por um momento, ela mal pde compreender a extenso daquela declarao. Mas, como se um pouco de juzo voltasse  sua mente, tomou conscincia de que no era Saviya, 
uma danarina cigana.
Era uma princesa, e no poderia trair a confiana de sua me. De alguma maneira precisava escapar dali.
Em seu ntimo, travou-se uma batalha. Por um lado, queria que o rei continuasse a beij-la, queria estar cada vez mais perto dele. Queria que ele a amasse e dar-lhe 
o seu amor em troca. Desejava isso de maneira selvagem, irreprimvel, a todo custo. Como se cada nervo de seu corpo gritasse por ele. Por outro, a razo a impulsionava 
a partir.
- Preciso... ir! Preciso... ir! - disse a si mesma.
Era impossvel abandonar aqueles lbios maravilhosos, ignorar o fogo que ardia dentro deles dois. O rei a beijava mais uma vez, no mais nos lbios. Agora, com a

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boca vida, explorava-lhe a curva do pescoo, despertando-lhe uma sensao que nunca experimentara antes. Todo o seu corpo tremia de encontro ao dele, a sua respirao 
acelerou-se, e o corao batia descompassado.
- Eu te amo! - sussurrou - eu te amo, te amo!
- E eu tambm te amo, minha linda noiva! Venha, minha querida, porque perder tempo ficando aqui?
Ele a puxou em direo  porta que conduzia ao quarto que o prncipe Paul sempre usara.
Ao lembrar-se da figura do pai, Letcia refletiu que, na certa, o bom homem a impediria de agir to loucamente.
A imagem dele lhe pareceu ntida, olhando-a srio como fazia quando ela se portava mal, como se afirmasse que aquele no era o melhor caminho a seguir.
"Est errado", pensou com o corao aos saltos.
Tinham chegado  porta do quarto, e, quando o rei a abriu, Letcia pde ver a grande cama com dossel. Nesse momento, decidiu que precisava escapar, no devia trair 
sua me e a educao que recebera.
- Por favor -, pediu uma voz que no era mais que um sussurro - poderia... beber algo?
O rei sorriu.
- Claro. Acho que o sal nos deixou sedentos.
Depositou-a na cama, com delicadeza, e rumou em direo  mesa que ficava num canto do quarto. Ali sempre havia vinho para quem quisesse. Ela esperava isso tambm, 
porque era uma tradio do castelo que houvesse um pequeno jarro de limonada fresca.
O rei parou, olhando para o conjunto de garrafas e copos.
- Vinho, champanhe ou limonada? O que prefere? - perguntou. Esperou pela resposta de Letcia e, como houve apenas silncio,
virou-se.
No havia ningum no quarto a no ser ele!
Letcia, tendo fechado, silenciosamente, o painel secreto na parede, desceu correndo a escada em caracol da torre e saiu pela porta que dava no meio dos arbustos.
Andou o mais rpido possvel at ao topo do penhasco onde havia os degraus. Ao chegar l, avistou logo abaixo, escondido entre as rvores, o menino cigano com a 
tocha.
Ele se levantou quando a enxergou e desceu os degraus na frente, segurando a tocha para iluminar o trajeto.
Letcia no tirou a vista do cho, concentrando-se nos degraus, at chegar embaixo. S ento, olhou para o palcio.

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Espantou-se ao verificar que o plat se encontrava vazio. De todo o acampamento, s restava a carroa que lhe havia sido designada.
O garoto conduziu-a at l e ela percebeu que o cavalo j estava atrelado aos varais da carroa. Uma mulher cigana a esperava para ajud-la a tirar o vestido e colocar 
a roupa de montaria.
Ao despir o colete de veludo preto, alguma coisa caiu no cho e Letcia viu que era o pequeno pedao do jarro de barro. Apanhou-o, enquanto a outra sugeria:
- Guarde-o com cuidado, princesa, d muita sorte.
Letcia sorriu diante do conselho e apanhou o pequeno caco.
- Sim, eu sei.
- O Voivode deixou mais uma coisa para Vossa Alteza.
Ao falar, a cigana apontou o pequeno feixe de ramos que o Voivode no quebrara durante o casamento.
- Obrigada - disse, tentando compreender porque os ramos tinham sido deixados para ela.
com a ajuda da cigana, levou apenas alguns minutos para trocar de roupa. Quando ficou pronta, falou, comovida:
- Quero agradecer-lhes e nem sei como. Gostaria de possuir alguma coisa para lhes dar e assim demonstrar minha gratido.
- No h necessidade, princesa. Meu marido contou a promessa do rei de que seremos bem-vindos em Zvotana. Nenhum presente poderia se comparar ao que isso significa 
para ns.
Letcia sabia que a outra no exagerava, pois, em muitos pases, os ciganos eram perseguidos e presos. Por isso estendeu a mo,
despedindo-se:
- Ento s posso desejar-lhes muita felicidade.
A cigana fez uma reverncia. Ao sair da carroa, Letcia viu que Kaho estava  sua espera, j selado.
O menino cigano amarrou o embrulho de roupas na sela e ajudou-a a montar.
Ao ir embora, ouviu a carroa atravessando o plat atrs dela para se juntar ao resto da tribo, que seguira na frente. Deduziu que, depois que ela e o rei haviam 
voltado ao castelo, os ciganos partiram imediatamente para evitar qualquer pergunta embaraosa, caso Vicktor viesse procur-la.
- Acho que ele no se dar ao trabalho de fazer isso - murmurou Letcia a si mesma, com um misto de tristeza e arrependimento.
No entanto, desejou com todas as foras que o rei a quisesse naquele momento tanto quanto ela o queria. Agora, raciocinando friamente, doa mais a sensao de ter 
deixado

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a felicidade escapar, fugindo do nico homem que a interessara na vida. Os beijos dele e as emoes que despertara nela estavam alm de qualquer coisa que Letcia 
j tivesse imaginado ou sonhado!
Sentia saudades de Vicktor e imaginava se ele lamentaria o fato de nunca mais encontrar Saviya, sua esposa cigana.
Quando Kaho chegou  parte mais baixa da estrada sinuosa que levava ao castelo, ela virou-se e olhou para trs.
A construo agora bem acima dela, com as montanhas pontiagudas atrs, parecia muito slida e grandiosa. Todas as janelas estavam escuras, menos uma!
Nessa, as cortinas ainda estavam abertas e tambm os vidros, da mesma forma que ela os abrira para deixar entrar a msica dos violinos.
"O que Vicktor estar pensando agora que descobriu que fugi?" indagou a si mesma. "Imagina talvez que tudo no passou de uma iluso, parte da magia que os ciganos 
haviam prometido? Que eu no fui nada alm de uma miragem que ele logo esquecer!", concluiu com lgrimas nos olhos.
Essa simples ideia produzia uma sensao de agonia, como uma faca cortando-a. Tudo no passara de uma representao para salvar Stephanie, mas tinha se tornado uma 
coisa muito mais sria para ela.
Virou Kaho novamente para a frente e, ao faz-lo, percebeu que os primeiros raios da aurora subiam pelo cu e as estrelas desapareciam.
O amanhecer chegou rpido em Ovenstadt e ela retornaria para casa com a luz do dia, como planejara.
Mas ainda queria ficar! Sabia que, independente do que o futuro pusesse  sua frente, seu corao ficara irrevogavelmente com o rei, no castelo.
Kaho parecia ansioso para voltar  prpria baia e corria feito louco. Passava um pouco das cinco horas quando Letcia avistou o palcio bem na sua frente.
Achou impossvel que tanta coisa tivesse acontecido em apenas um dia. Quando partira, na manh anterior, seguia ansiosa, com medo de que seu plano falhasse, ou de 
que o Voivode no cumprisse a promessa.
Naquela primeira visita aos ciganos, ela lhe suplicara que usasse alguma magia para impedir o rei de propor casamento a Stephanie, durante sua permanncia em Ovenstadt.
- Caso Sua Majestade pea a mo dela enquanto estiver em visita oficial, a gr-duquesa aceitar no lugar da princesa e ser impossvel para minha prima descobrir 
uma maneira de romper o contrato ou tentar
- 
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qualquer coisa para fugir a um compromisso com um homem que ela no ama.
por isso, recorrera a eles. Os romanis jamais permitiriam uma unio sem amor. Mesmo assim, era surpreendente a soluo astuta e brilhante que o Voivode encontrara. 
Excedia a qualquer expectativa que Letcia tivesse formado em suas horas de meditao. Ao mesmo tempo, ela prpria se envolvera de um modo que nunca previra.
Havia sentido, quando danara para o rei, que lhe transmitia suas emoes, em forma de "relmpagos", como dissera a Kyril. Conseguira despertar nele um desejo por 
ela, forte o suficiente para lev-lo a assumir um compromisso que o impedia de se interessar por Stephanie. Deveria se alegrar com o resultado de seu projeto. Afinal, 
aquilo era praticamente um milagre. Mas, ao contrrio, sentia-se triste e abatida. Jamais poderia prever que ficaria tambm to cativada quanto o rei.   - Eu o quero! 
Eu quero os seus beijos! Eu quero o seu amor! - dizia a si mesma e sentia-se amedrontada com o significado real dessas palavras.
 Num ltimo esforo para vencer o cansao, levou Kaho para a baia,  tirou a sela e as rdeas e o deixou satisfeito, comendo ruidosamente na manjedoura.
 Depois, entrou rpido pela porta do fundo, subiu cautelosamente para o prprio quarto; tentando no perturbar ningum, despiu-se com cuidado e foi para a cama.
Ao deitar a cabea no travesseiro, imaginou que seria impossvel dormir! Encontrava-se muito agitada e s conseguia pensar no rei. Lembrava de seus lbios quentes 
prendendo os dela e estremecia revivendo as sensaes selvagens que ele despertara em seu ntimo quando lhe beijara o pescoo.
      Soubera ento o que significava "o fogo do amor". Mais do que isso, sentira-o arder em seu prprio corpo. Era muito diferente do que imaginara e, todavia, 
muito mais excitante, maravilhoso e arrebatador.
- Como posso estar apaixonada por um homem que vi hoje pela primeira vez?
Fora o destino que a mandara para ele ou talvez os deuses invocados pelo Voivode para decidir quanto tempo o estranho casamento cigano deveria durar.
com desespero perguntou-se de que adiantava um casamento, se no podiam ficar juntos e nem se apresentar como marido e mulher. Teve vontade de chorar pela infelicidade 
do que perdera.
Tudo o que podia sentir se resumia no rei beijando-a e o fogo dos

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lbios dele entrando em seu corpo e se apoderando dos seus sentidos e de todo o seu ser.
- Isto  amor! - Letcia disse a si mesma.
Um esplendor que parecia encher o mundo inteiro e o cu. Algo muito forte que no admitia indiferenas e fazia sucumbir a todos que atingisse, como um deus poderoso 
e implacvel.

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CAPTULO Vi


Letcia ouviu a porta se abrir devagar e despertou com um leve sobressalto. Sonhara com o rei e ainda estava dominada por uma sensao de irrealidade. Percebeu que 
Marie-Henriette a encarava com carinho, enquanto exclamava de bom humor:
- Voc est acordada! Pensei que fosse dormir por mais cem anos!
com esforo, Letcia sentou-se na cama.
- Que horas so?
- Mais de uma! Gertrude perguntou se voc queria alguma coisa para comer.
- No acredito! Como pude dormir tanto tempo?
- Mame preveniu-nos para que no lhe molestssemos.
com a meno do nome da me, Letcia soltou um pequeno grito.
- O rei! Ele chegou!
- Sim, creio que sim. Mame no nos deixou ir assisti-lo a inspecionar a Guarda de Honra.
Letcia afastou os cabelos da testa, e perguntou de maneira quase automtica: - Porque no?
- Disse que seria degradante ficarmos no meio do povo quando Devamos estar no palcio para receb-lo.
Letcia deu uma risadinha.
- Prima Augustina nunca nos permitiria isso!
-  verdade, mas ns o veremos esta noite no baile.

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Letcia teve a sensao de estar voltando de um lugar distante e desconhecido. Cada palavra da irm exigia-lhe um enorme esforo de memria para responder.
Seus pensamentos estiveram to concentrados no rei e no casamento cigano da noite anterior que ficava difcil raciocinar sobre qualquer outra coisa. Para falar a 
verdade, ela se esquecera completamente da agitao que estava acontecendo no palcio. "
com um nimo sbito no corao, conscientizou-se de que, a menos que algo sasse muito errado, ela havia salvado Stephanie da possibilidade de casar-se com Vicktor, 
segundo as pretenses da gr-duquesa.
 medida que esses pensamentos sucediam-se em sua mente, sentiu-se fraca e reclinou-se para trs contra os travesseiros. Marie-Henriette no deu mostras de perceber 
o mal-estar da irm e anunciou com simpatia:
- Vou buscar seu caf da manh. Voc deve estar faminta.
Letcia ouviu-a descer a escada correndo at  cozinha e disse a si
mesma que agora s precisava se preocupar em manter-se longe do rei.
Na certa, ningum da famlia do prncipe Paul seria apresentado ao rei, uma vez que a gr-duquesa os detestava e, alm disso, com mais de duzentos convidados no 
salo de baile, ele sequer notaria sua presena.
E, para melhorar, o rei no esperaria nunca reencontrar a noiva cigana danando como uma debutante no palcio. E ningum enxerga aquilo que no espera ver, conforme 
dizia o prncipe Paul.
Ao refletir a respeito, convenceu-se de que seu disfarce havia sido bastante eficaz. Durante todo o tempo que permanecera com o rei, tanto quando se encontraram 
pela primeira vez como mais tarde ao voltarem ao castelo, ela fizera questo de no tirar o vu vermelho com moedas douradas da testa.
Isso significava que seus cabelos negros, to marcantes e diferentes dos das outras moas, estiveram ocultos pelo enfeite. Mesmo na hora em que danara usando apenas 
a coroa de jias, as fitas coloridas disfaravam a cor dos cabelos de Letcia.
- Ele nunca me reconhecer - garantiu a si mesma, confiante. Ao mesmo tempo, alguma coisa irreprimvel em seu corao desejava
que ele a reconhecesse e a levasse novamente ao xtase daqueles beijos provocantes.
A maneira como a segurara cada vez mais prxima dele, as sensaes selvagens que lhe despertara enquanto acariciava-lhe o pescoo com a boca eram muito fortes para 
carem no esquecimento.
- Eu o amo! - sussurrou.

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Ouviu que a irm subia novamente e disse a si mesma que o sonho e a magia haviam terminado. Agora, precisava se comportar corretamente como sua me e seu pai esperavam 
que ela fizesse.
Marie-Henriette entrou no aposento e colocou a bandeja ao lado de Letcia. Depois, sentando-se na cama, perguntou:
- Como vai Fraulein Sobieski? Porque voc voltou para casa to cedo?
- Fraulein est bem e quis saber tudo de voc e Kyril. Como sempre, ela tinha um monte de fofocas para me contar.
Marie-Henriette olhou para ela inquiridoramente e Letcia explicou:
- Ela ouviu falar que prima Augustina estava decidida a fazer Stephanie se casar com o rei.
Marie-Henriette deu uma risadinha.
- Fraulein  como tia Aspsia, elas sempre sabem tudo sobre todo o mundo.
Ento, abaixando a voz como se receasse ser ouvida por mais algum, acrescentou:
- Voc fez alguma coisa para ajudar Stephanie? Ela veio aqui ontem  noite depois que voc partiu.
- De novo! No! Eu a avisei de que era perigoso.
- Ela estava desesperada porque prima Augustina a instrura sobre o que responder caso o rei lhe propusesse casamento. A coitadinha est certa de que no h mais 
esperanas.
-  a que ela se engana! - assegurou Letcia com segurana. - Voc no vai dizer uma palavra para ningum sobre isso, Hettie, mas eu... tenho quase certeza... na 
verdade "tenho a certeza de que o rei no ir pedir a mo de Stephanie!
Marie-Henriette deu um grito de excitao.
- O que aconteceu? O que voc fez?
- No posso lhe contar porque pode dar azar. Precisamos continuar a rezar para que o rei...
Ia dizer: "mantenha a palavra", mas conteve-se a tempo, percebendo que podia se envolver com perguntas embaraosas sobre como ela o havia visto e o que tinham dito 
um ao outro.
Em vez disso, continuou:
- Precisamos rezar e desejar intensamente, como papai costumava fazer, que tudo corra bem.
- Espero que sim! Realmente espero que sim! Ao mesmo tempo,

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no acredito que prima Augustina permita que Stephanie se case com Kyril. Ela nos odeia tanto!
- Pensei a respeito, mas precisamos vencer um obstculo de cada vez e a nossa primeira preocupao deve ser arranjar uma frmula para nos livrar do rei.
As ltimas palavras lhe saram a custo, pois a ltima coisa que desejava era nunca mais encontrar-se com Vicktor.
Queria que ele estivesse no palcio para que pudesse ao menos v-lo ou ouvir-lhe a voz. Mesmo que ele no a notasse, se estivesse na mesma sala, as vibraes que 
os uniram indivisivelmente na noite anterior fariam com que Letcia sentisse vivamente a presena dele.
Imaginou que no era impossvel que o rei sentisse o mesmo em relao a ela. Mas balanou a cabea desconsolada. Na certa, essa ideia se mostrava muito presunosa.
"Sinto-me assim em relao a Vicktor porque conheci poucos homens", raciocinou Letcia, "porm, ele, de acordo com tia Aspsia e Fraulein Sobieski, vive rodeado 
de mulheres bonitas e glamourosas!"
Essa lembrana no deixava de ser depressiva e, para piorar seu nimo, no abandonou essa ideia nem enquanto mudava de roupa.
Quando desceu, descobriu que a me j voltara do almoo no palcio.
A princesa Olga estava adorvel, apesar do vestido ter trs anos, assim como o gorro que o complementava. O traje havia sido reformado apressadamente com algumas 
fitas novas, que pertenciam a uma caixa onde se guardavam todas as bugigangas que poderiam ser teis.
- bom dia, querida! - Olga cumprimentou a filha, assim que Letcia apareceu. - Ou melhor, boa tarde!
- Estou envergonhada por ter dormido at to tarde - desculpou-se Letcia beijando a me.
- Foi a melhor coisa que podia fazer Deve ter sido muito cansativo ir a cavalo at ao cottage de Fraulein. Ela estava to doente como voc temia?
Letcia recordou-se rpido que a desculpa que utilizara para ir visitar a antiga governanta era que recebera um recado dela informando que se encontrava enferma, 
e apressou-se em tranquilizar a princesa:
- Ela est melhor, mame. Fez-me vrias perguntas sobre voc e,  claro, sobre Kyril, que sempre foi o favorito dela.
- No h dvidas sobre isso!
Ento, acrescentou rpido, quase num sussurro:
- Ela sabia sobre Kyril e Stephanie?

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Letcia balanou a cabea em negativa.
- No, claro que no. Mas tinha ouvido falar de como prima Augustina nos trata mal e afirmou que o povo est muito chocado com o comportamento dela.
A princesa apertou os lbios por um momento.
- Tenho algo para lhes contar e espero que isso no as aborrea.
As moas olharam para a me de olhos arregalados. A ideia de que
talvez prima Augustina fosse proibi-las de ir ao baile passou pela cabea de Letcia. Vagarosamente, a princesa anunciou:
- Augustina decidiu que nenhuma de vocs ser apresentada ao rei e acrescentou, de maneira insultante, que vocs no devem nem tentar atrair a ateno dele.
Letcia soltou uma exclamao de raiva.
- No est certo, mame, tratar-nos dessa maneira! A senhora certamente objetou?
- Percebi que se o fizesse no obteria nenhum resultado. E, pelo modo como primo Louis olhou para mim, vi que ele j tentara alterar a deciso da esposa e falhara.
- Penso que se tivssemos um pouco de orgulho nem iramos ao baile - replicou Letcia.
Mas tinha conscincia de que, por mais rude que a gr-duquesa se mostrasse com elas, ela no deixaria de ir porque pretendia rever o rei ainda que fosse  distncia.
Necessitava olh-lo e se certificar de que ele era to atraente quanto parecera na noite anterior e que o amor que insistia em consumir-lhe o corpo ia muito alm 
de uma simples magia do Voivode.
- A senhora no nos contou o que achou do rei, mame.
-  um homem muito bonito! No  como eu pensava e com certeza os cabelos e os olhos dele so de cigano, o que, alis, prima Augustina no aceita. Tem maneiras maravilhosas 
e um indiscutvel senso de humor.
Letcia escutava-a, esforando-se para manter a naturalidade, mas no pde reprimir a curiosidade.
- O que a fez achar isso?
- Cada vez que prima Augustina tentava empurrar Stephanie para o rei, de um jeito que considerei indiscreto e embaraoso, os olhos dele brilhavam de uma maneira 
estranha, como se soubesse de antemo o que estava acontecendo.

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Fez uma pausa e depois esclareceu:
- Senti pena da pobre menina! Ela estava claramente nervosa e apreensiva...
- com o qu, mame? - interrompeu-a Marie-Henriette.
- com o fato de ficar sozinha com o rei. Depois do almoo, prima Augustina lhe disse:
"Sei que Vossa Majestade gostaria de ver o jardim, que  lindo, Stephanie adoraria mostr-lo. "
Letcia prendeu a respirao,  espera do restante da histria, porm, permaneceu muda. A irm, em compensao, gritou indignada:
- Mas isso  bastante inconvencional, no ?
-  algo que com certeza minha me no permitiria - concordou a princesa Olga. - At mesmo primo Louis ficou chocado e afrontou, com firmeza! Foi at engraado ouvi-lo 
retrucar com aquele vozeiro: "Que boa ideia, Augustina! Como est muito quente aqui dentro, iremos todos ao jardim".
Marie-Henriette bateu palmas de contentamento.
- Ah, como isso deve ter aborrecido prima Augustina!
Letcia, que estivera prendendo a respirao, sentiu uma sbita onda
de alvio. Restava apenas torcer para que a determinao e a obstinao prussiana da gr-duquesa fossem derrotadas ou postas de lado pelo tempo.
"Ela tentar de novo at conseguir", pensou Letcia, com uma pontinha de desespero.
Perguntou-se se o rei manteria a palavra durante os cinco dias determinados pelos deuses, mesmo tendo que enfrentar uma pessoa maquiavlica como a gr-duquesa.
Todavia, Vicktor afirmara que sempre cumpria as promessas, e isso reconfortou-a. Devia confiar que ele no cederia s presses, fazendo algo que no desejasse.
Ao mesmo tempo, Stephanie era muito bonita e, se o rei tinha que se casar com algum, seus oficiais e os de Ovenstadt, que haviam sugerido a unio primeiro, provariam 
serem mais persuasivos ao longo dos dias do que a ala de um jarro de barro. Aquilo fora s o que restara de palpvel para relembr-lo da magia que tinham visto, 
ouvido e, sobre tudo, sentido, na noite anterior.
Como Letcia se mostrasse muito quieta, a princesa Olga olhou-a preocupada.
- Voc est bem, querida? Cansada demais depois da viagem?

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- No, estou... ptima - tranquilizou-a Letcia.
- Bem, acho que vocs duas devem descansar esta tarde. Apesar de no terem permisso para conhecer o rei, quero que estejam perfeitas esta noite. Haver muitos outros 
homens atraentes no baile, ansiosos para serem o par de vocs.
Seguindo a sugesto da me e tambm porque desejava ficar sozinha, Letcia despediu-se e subiu para o quarto. Cerrou as janelas e deitou-se na penumbra, a mente 
assaltada por um verdadeiro turbilho de ideias.
Fechou os olhos e pensou no rei, que mudara toda a sua vida com um simples beijo, que a paralisava com um simples toque, que dominaria toda a sua existncia dali 
por diante.
Parecia ridculo que ela pudesse sentir-se daquela maneira depois de um nico encontro, em que ficaram sozinhos por pouqussimo tempo.
Apesar disso, no podia evitar uma analogia com o romance de seus pais, que, igualmente, reconheceram o amor assim que se viram. De acordo com o prncipe Paul, quando 
encontrara Olga descobrira que estava diante da nica mulher que amaria na vida e que queria para esposa.
- Era como se uma luz brilhasse em volta dela - dissera pensativo. - Estava muito bonita, mas havia algo mais do que isso: uma aura, vinda do corao ou talvez da 
alma.
Letcia apreciava essas histrias e o instigava a falar mais.
- E mame sentiu o mesmo por voc, papai?
- Ns tivemos muita, muita sorte. Ns nos conhecemos e, depois de alguma oposio, tivemos permisso para casar, com a graa de Deus. Rezo para que acontea o mesmo 
a voc no futuro, minha querida.
Ao escut-lo, naquela tarde j remota, Letcia imaginou que isso seria bem possvel de acontecer. No podia ainda prever as reviravoltas porque passaria.
Agora, na cama, com as cortinas cerradas para que o sol no entrasse, ela estava ciente de que, mesmo que o rei no se casasse com Stephanie, no haveria final feliz, 
pelo menos no que dizia respeito a ela.
Se ele a achasse de novo, o que se mostrava bastante improvvel, ou se eles se encontrassem e ele quisesse se casar com ela, o que era inconcebvel, a gr-duquesa 
os impediria.
com os sentimentos que a "vbora" nutria por toda a sua famlia,

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jamais toleraria que uma das filhas do prncipe Paul ocupasse o trono de Zvotana. E, como membro da famlia real de Ovenstadt, Letcia no podia se casar sem a permisso 
do gro-duque.
- E prima Augustina nunca permitiria que ele me desse autorizao! - desabafou em voz alta, enterrando o rosto no travesseiro para abafar um soluo. - Portanto, 
quanto mais cedo eu apagar essas ideias ridculas de minha cabea, melhor!
Isso era mais fcil de dizer do que fazer. Desejou ardentemente que os dois fossem ciganos, assim poderiam ser felizes e ela o seguiria por onde Vicktor lhe pedisse.
"Seramos muito felizes", lamentou-se, com um suspiro, os olhos cheios de lgrimas que lhe rolavam lentamente pelas faces.
- Vocs duas esto adorveis! - assegurou a princesa Olga quando as filhas ficaram prontas para sair para o palcio.
Naquela noite, a princesa no havia sido convidada para o jantar danante porque j participara do almoo oferecido para o rei em sua chegada.
No jantar, estariam principalmente nobres das vizinhanas, que passariam a noite no palcio ou com parentes ou amigos que morassem nos arredores.
E,  claro, o favorito da gr-duquesa, o primeiro-ministro, tambm se faria presente.
Alis, a presena do homem fora motivo de uma discusso acalorada entre o gro-duque e a esposa. Louis parecia decidido a impedi-lo de ser convidado.
- O rei encontrar todos os dignatrios civis amanh, quando receber a chave da cidade.  um grande erro, Augustina, inclu-lo hoje no que , na verdade, uma reunio 
de famlia. O baile que estamos dando no  apenas para o rei, mas para Stephanie e demais jovens da idade dela.
- Quero que o primeiro-ministro esteja presente. Afinal de contas foi graas a ele que o rei veio at aqui e penso que seria incorreto deix-lo de fora dos divertimentos 
que organizamos.
O gro-duque, como sempre, fora dominado e, embora o primeiro-ministro parecesse um tanto deslocado, porque no passava de um homem do povo com tendncias a ser 
agressivo, a gr-duquesa sorria aprovadoramente.
Entretanto, quando olhava para Vicktor, acomodado  sua direita no

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jantar, as feies da gr-duquesa transformavam-se. Francamente, ela no aprovava a maneira dele se comportar.
Em vez de conversar com Stephanie, que ela instalara propositadamente do lado oposto a ele, o rei se entre tia em trocar ideias com o prncipe herdeiro de Teck, 
que chegara naquela tarde para ficar no palcio.
Tratava-se de um jovem muito agradvel, e, em certa poca, a gr-duquesa considerara a hiptese de torn-lo um par adequado para Stephanie. Mas seus planos se frustraram 
na poca em que, pensando em enviar uma delegao a Teck, foi informada de que ele ficara noivo de uma princesa da Hungria.
Decidiu, ento, que seria ainda melhor para Stephanie tornar-se rainha de Zvotana, apesar dos problemas que havia na Capital e das ameaas de anarquistas contra 
a vida do rei.
"Ele devia tratar seus sditos com mo de ferro", considerou a
gr-duquesa, com os prprios botes.
A partir desse dia, estabelecera que, quando Stephanie estivesse noiva dele, o instruiria exatamente a respeito de como agir para impor disciplina aos insubordinados.
Nessa poca, os anarquistas estavam causando muitos problemas para as cabeas coroadas da Europa. Havia atentados contra a vida de muitos de seus amigos no norte 
e o rei Frederick, cujo pas ficava ao sul de Ovenstadt, tinha sido seriamente ferido por uma bomba que explodira quando estava fazendo um discurso na Capital, logo 
antes do Natal.
"Mo firme  o que essas pessoas precisam, e uma execuo sumria para os desordeiros que forem apanhados", conclura Augustina com um brilho de dio no olhar.
Voltou-se mais uma vez para o rei e percebeu que prosseguia em sua conversa com o prncipe herdeiro. Ficou deveras irritada ao constatar que Stephanie tambm no 
se empenhava nem um pouco em participar da conversa.
Ao contrrio, a moa se reclinava para trs na cadeira e assumira uma expresso um tanto vaga.
- "Preciso ter uma conversa sria com ela amanh de manh" - decidiu a gr-duquesa, virando-se com um sorriso forado para o convidado da esquerda, que a interrogava 
sobre alguma coisa.
Quando as primas entraram no salo de baile, um grande nmero de convidados j havia chegado, e a gr-duquesa deixou bem claro para o rei que ele devia abrir o baile 
danando primeiro com Stephanie.

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- Eu adoraria, mas estou certo de que, primeiro, h muitas pessoas que me deveriam ser apresentadas.
Apesar de notar que a gr-duquesa no apreciara sua observao, prosseguiu em voz calma:
- Como foram gentis de vir aqui para me conhecer, no gostaria de desapont-los.
No havia nada que a gr-duquesa pudesse fazer a no ser apresentar-lhe alguns dos convidados no salo de baile. No a agradava que a maioria deles estivessem acompanhados 
por uma filha, que ela desejou que o rei achasse to sem atrativos quanto ela considerava.
com um olhar rpido, Augustina avistara Letcia e Marie-Henriette em um ponto distante da porta que os convidados do jantar tinham utilizado para chegar ao salo 
de baile.
Deixara perfeitamente claro  princesa Olga que suas filhas no conheceriam o rei e no estava disposta a quebrar a promessa.
Ao mesmo tempo, elas poderiam avanar para a frente e isso no a surpreenderia, mas logo tranquilizou-se com a posio tmida que as duas ocupavam em meio aos demais 
hspedes.
O rei percorreu o salo sem fazer nenhum esforo para iniciar o baile; ao contrrio, parou aqui e ali para conversar propositadamente com qualquer cavalheiro que 
portasse um grande nmero de condecoraes, at que avistou a princesa Olga.
Ela estava conversando animadamente com o general que comandava o Regimento de Kyril e que acabara de tecer alguns comentrios elogiosos sobre o rapaz.
- O que me disse me deixa muito feliz, general. Agora quero que conhea minha filha - agradeceu ela ao representante da guarda.
Chamou Letcia com um gesto enquanto falava e quando ela se aproximou a princesa disse:
- Querida, este  o general Leinizen, que disse coisas muito gentis sobre Kyril.
Letcia fez uma reverncia, e o general tomou sua mo, dizendo:
- Devia ter imaginado que voc seria to bonita quanto sua me.
Letcia sorriu para ele.
- Tanto eu como minha irm tentamos alcanar mame, mas como o senhor bem pode imaginar, general,  uma tarefa rdua!
Enquanto isso, a princesa Olga ouviu uma voz a seu lado interpelando-a:

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- Esperava v-la durante o jantar para podermos continuar a conversa do almoo.
- Majestade - cumprimentou a princesa Olga fazendo uma graciosa reverncia.
O rei olhou para o general e a princesa apressou-se em fazer as apresentaes:
- Majestade, o general Leinizen, comandante do Regimento de meu filho e de meu falecido marido.
O rei estendeu a mo, com um sorriso afvel.
- Encantado por conhec-lo, general.
-  uma honra, Majestade!
Quando Vicktor se aproximara de sua me, Letcia deduzira desnorteada que precisava sair dali.
No entanto, de alguma forma estranha, a presena dele dava-lhe a sensao de que seus ps estavam grudados no cho. Quando conseguiu recobrar o autodomnio, era 
tarde demais.
- Gostaria tambm, Majestade, de lhe apresentar minha filha, Letcia!
Letcia sentiu que tremia e no ousou encar-lo. com um esforo
sobre-humano, conseguiu esboar uma reverncia.
Mas, na hora em que o rei lhe segurou a mo, ela sentiu as vibraes dele passando por todo o seu corpo, como na noite anterior, e no conseguiu se mexer do lugar. 
Parecia que ele a tomava nos braos e colava os lbios possessivos sobre os dela. Reuniu um resto de foras e encarou-o.
Ele estava to bonito e irresistvel como na vspera, mas no demonstrou reconhec-la, pois virou-se para Olga convidando-a:
- D-me a honra desta dana?
Por um momento a princesa se mostrou surpresa demais para responder. Depois, deu uma olhada pelo salo para o lugar onde a gr-duquesa se detivera a conversar com 
uma convidada, e desculpou-se, encabulada:
- Penso que seria um erro. Vossa Majestade no abriu ainda o baile!
- Neste caso, como tenho certeza de que todos esto com vontade de danar, abrirei o baile com sua filha!
Voltou-se para Letcia e ao falar colocou o brao em volta da cintura dela.

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Ela sabia que devia protestar quando o rei a levou para o centro do salo, mas sua voz a abandonara por completo.
A orquestra irrompeu os acordes de uma valsa vienense, e ambos se puseram a rodopiar pelo salo, embalados pela melodia.
Por um momento nada mais importava a Letcia, a no ser que estava de novo perto dele, sua mo segurando a dela e o brao musculoso circundando-lhe a cintura.
Percebeu a expresso de raiva que transtornou o rosto da gr-duquesa, ao perceber o que acontecera, e um ligeiro brilho de satisfao no olhar do gro-duque.
Stephanie fitou-a com alvio e correu os olhos pelo salo na direo onde devia estar Kyril. Sabia que o moo estava to contente quanto ela pelo fato de o rei estar 
danando com outra. Para os dois, isso parecia um pressgio de boa sorte, um aviso de que as coisas podiam no ser to ruins como previam.
De acordo com o costume, os outros pares no se juntaram a eles at que tivessem completado uma volta pelo salo.
Agora,  medida que rodopiavam sob os lustres de cristal, o rei disse, no que parecia ser uma conversa puramente social:
- Estou encantado por conhec-la, princesa. Ouvi falar tanto de seu pai e invejei a popularidade dele em Ovenstadt.
No era o que, Letcia esperava que ele dissesse. Ao mesmo tempo, estava convencida de que ele no a reconhecera como sua noiva cigana e sentiu-se segura para agradecer:
- Sinto-me honrada que tenha ouvido falar de papai. Todos ns sentimos muito a falta dele... Nossas vidas nunca mais foram iguais desde que ele morreu.
- Foi o que me disseram!
- Quem? No tinha ideia de que em Zvotana, Vossa Majestade, ouvisse falar de ns ou de nossos... problemas.
- Quando visito um pas, me empenho em descobrir tudo o que posso sobre sua histria e de seu povo. Na verdade, falaram-me da bonita princesa Letcia antes mesmo 
de eu chegar aqui.
Ele parecia acentuar de alguma maneira o nome dela. Letcia assustou-se e errou o passo, mas se recomps rpido e desculpou-se:
- Eu... sinto muito!
- Eu lhe perdoo, mas exijo que me conte mais sobre voc. O que faz quando no est danando num baile como este? E,  claro, recebendo uma quantidade enorme de elogios.

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Letcia riu. Agora estava convencida de que o rei no a reconhecera. assumindo um ar descontrado, respondeu de maneira esinea: - Talvez fique surpreso se eu lhe 
disser que este  o meu primeiro e que seu elogio  um dos nicos que j recebi.
- No pode esperar que eu acredite nisso!
- Eu lhe asseguro. E, por estranho que parea, sempre digo a verdade, se for... possvel.
Falou sem refletir e percebeu que no havia sido completamente sincera na ltima noite, quando o deixara imaginando que ela estava com os Kalderash e era uma danarina.
Sentiu que suas faces coravam e rezou para que o rei no lhe notasse o embarao e, caso percebesse, o atribusse  dana.
Rodopiaram pelo salo novamente em silncio. Quando a orquestra parou, o rei despediu-se:
- Cumprirei agora o meu dever! Mas preciso danar com voc outra vez e insisto para que no v embora antes disso.
Falou de uma maneira to autoritria que deixou Letcia surpresa. Ento, ao fit-lo nos olhos, pareceu-lhe que o salo de baile desaparecia, deixando no lugar apenas 
as estrelas no cu e a voz do Voivode unindo-os.
Porm, foi a voz estridente da gr-duquesa que arrancou-a daquele instante de magia, ao sugerir:
- Espero que Vossa Majestade tenha apreciado a dana e agora seja gentil o bastante para danar com sua anfitrizinha que espera ansiosamente pela honra!
Era impossvel ignorar o tom cido das palavras da gr-duquesa, mas o rei limitou-se a sorrir, justificando-se:
- Claro, adorarei! Creio, princesa, que Stephanie e eu devamos ter aberto o baile juntos. Deve me perdoar se esqueci de seguir uma das tradies do pas.
- Oh, no, Majestade! - interferiu Stephanie antes que a gr-duquesa pudesse impedi-la. - No  um hbito de Ovenstadt, mas do pas de mame, a Prssia, que ela 
introduziu aqui.
- Ento espero que possa ser perdoado por dar um faux ps - retrucou o rei com descontrao.
IH Quando a msica recomeou, ele e Stephanie principiaram a danar. Como fora distinguida pelo rei e tambm porque, junto com Marie-Henriette,

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era uma das moas mais bonitas do salo, Letcia viu-se assediada por diversos pares.
Alguns um tanto velhos, mas distintos, outros jovens e de boa aparncia, mas nenhum que se comparasse ao rei. Vicktor era, sem dvida, o homem que mais se sobressaa 
no salo. Mesmo que no houvesse o brilho das condecoraes no casaco branco do seu uniforme, ele se destacaria de todos os outros homens presentes.
Letcia se perguntava, ao v-lo passar no salo de baile, se ele no sentia falta do distintivo que dera ao Voivode na noite anterior.
Achou-se muito infantil e imaginou que, quando voltasse ao seu pas, Vicktor encomendaria outra medalha para substitu-la.
Vrias vezes se questionara porque ele dera ao Voivode algo to caro, em lugar das habituais moedas de ouro que faziam parte de toda cerimnia cigana.
Confortava-a a certeza de que o Voivode jamais pensaria em se desfazer daquele objeto. Ao contrrio, iria guard-lo ao lado das outras
jias e das taas de ouro, para que fosse passada s geraes futuras.
Houve uma ceia no meio da noite e a gr-duquesa se certificou de
que o rei acompanhava Stephanie.
Depois da meia-noite, o gro-duque permitiu aos convidados mais velhos que sassem. Afinal, a maioria tinha alguma distncia a percorrer at seus castelos ou casas.
O salo de baile se esvaziou um pouco, e Letcia preocupou-se, imaginando que o rei tinha se esquecido da segunda dana que lhe pedira.
Entretanto, depois da animada quadrilha, ela estava conversando com seu par numa das janelas abertas do salo, quando inesperadamente o rei surgiu a seu lado.
- A prxima dana  minha, princesa Letcia!
Letcia no hesitou. Apesar de j haver prometido a honra a outro convidado, no desejava perder outra oportunidade de estar nos braos do rei. Queria estar perto 
dele mais uma vez, embora soubesse o perigo e os riscos que aquilo representava.
Estava quase certa de que ele no a reconheceria, com os cabelos pretos presos em caracis dos dois lados do rosto e tendo como nico enfeite trs rosas brancas 
atrs da cabea.
Mas havia sempre a possibilidade de ele se lembrar de sua voz, dos olhos, ou talvez, e isso a fazia tremer s de pensar, de seus lbios.
O par de Letcia se inclinou e retirou-se com um agradecimento:

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- Obrigado, princesa! Foi uma dana maravilhosa.
Assim que o rapaz se virou, Vicktor tomou-a pela mo e a conduziu para fora at ao jardim. Apenas dois degraus separavam o terrao de mrmore da grama macia, e eles 
logo se viram ao ar livre.
Sem dar qualquer explicao, o rei fugiu das luzes do palcio e ultrapassou os canteiros e os arbustos floridos at chegarem a uma pequena fonte, num local conhecido 
como Jardim das Ervas.
As estrelas que haviam brilhado sobre eles na noite anterior e a Lua que iluminara o castelo davam a tudo um misterioso brilho prateado.
Acomodaram-se em um banco logo alm da fonte. Ento, ainda sem dizer palavra, ele puxou-a para si, sem soltar-lhe as mos que trazia firmes entre as suas. Tomou-lhe 
o brao e retirou delicadamente a mitene de renda que Letcia usava no lugar de luvas brancas de pelica.
Ela no protestou nem disse nada. No conseguia reagir ao toque mgico das mos do rei. O magnetismo que Vicktor emanava destrua nela qualquer tentativa de resistncia 
e a subjugava como na noite anterior.
Ainda sentia, embora tentasse ignorar, o fogo que viera dos lbios dele e lhe penetrara o corpo, ardendo selvagemente dentro de seu peito.
Quando sua mo ficou nua ele a virou de palma para cima e,  luz da Lua, a pequena marca no pulso apareceu escura, contrastando com a alvura de sua pele.
O rei olhou a cicatriz durante algum tempo. Depois perguntou:
- Como pde desaparecer daquela maneira que me deixou furioso? Porque me abandonou quando sabia que pertencia a mim e tinha se tornado minha esposa?
Letcia tentou explicar-se, mas sua voz soou entrecortada, num murmrio:
- Eu no sabia... que... tinha me reconhecido.
O rei sorriu.
- Assim que entrei no salo percebi que voc estava l, em algum lugar!
- Como... suspeitou disso?
- Esqueceu de que como voc tenho sangue cigano nas veias? E, mesmo que voc no fizesse parte da magia que nos encantou, posso usar a minha intuio e minha percepo 
bem melhor do que os homens comuns.
- Ontem  noite, voc pensou... que eu tinha ido embora com a tribo?

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O rei sorriu de novo.
- Eu tinha certeza de que no. Na verdade, depois que voc partiu de maneira to inexplicvel, tive primeiro que me convencer de que voc no era uma iluso como 
o pssaro na rvore ou as pombas surgindo do nada!
Sorriu docemente e continuou:
- Pensei e conclu que, pela lgica, devia existir uma boa explicao no s para o seu desaparecimento mas tambm para a sua insistncia na minha fidelidade.
Fez uma pausa. Olhando para ele, incrdula, Letcia perguntou:
- Pensou... realmente nisso?
- No sou completamente tolo e, como fui persuadido, suplicado e quase forado a vir a Ovenstadt para propor casamento  filha do gro-duque, s podia concluir que 
houvesse uma boa razo para que algum tentasse me impedir de faz-lo.
- Qual voc achou... que podia ser... a razo?
- Acredito que o fato de a princesa Stephanie no querer se casar comigo!
Letcia deu um gritinho.
- Isso  muito astuto de sua parte... muito astuto!
- Ao mesmo tempo, somente algum muito ntimo dela podia conhecer-lhe os sentimentos a esse respeito. Como eu tinha ouvido, at em Zvotana, que a filha mais velha 
do prncipe Paul era no s extraordinariamente linda mas tambm muito semelhante  minha bisav, Saviya, da para descobrir o resto no foi difcil.
Letcia juntou as mos.
- Ento... sabia quem eu era!
- A princpio no - admitiu. - Simplesmente pensei que os deuses tinham sido muito gentis em me livrar do que teria sido sem dvida uma noite montona no castelo 
Thor.
A sua maneira de falar fez Letcia corar de vergonha.
- Voc ficou... chocado?
- No, mas intrigado. Mais tarde, porm, com o vinho, a magia e os inexprimveis sentimentos que despertamos um no outro, penso que ns dois ficamos um pouco loucos, 
e eu imaginei que a tivesse assustado. Portanto, voc fez a nica coisa que podia, ao me deixar.
Ela estremeceu ao se lembrar de quanto sofrimento lhe custara aquela deciso. Como se compreendesse o que Letcia sentia, ele inclinou a cabea e beijou a pequena 
cicatriz no pulso dela.

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- Agora, Letcia Saviya, o que vamos fazer de ns?
- O que voc... quer dizer?
- O Voivode nos deu a magia do amor e a fez minha esposa.
- Por cinco dias!...
- Ou, se quisermos, por cinco anos, ou cinquenta e cinco, ou talvez cinco sculos.
Letcia tremia de nervosismo ao perguntar:
- O que voc... est... dizendo?
- Que voc  minha esposa! Embora tenhamos que nos casar de novo para agradar meu povo e o seu, estamos unidos pelas leis ciganas, nas quais ns dois acreditamos.
- No... no! - gritou Letcia. - Seria... impossvel!
- Porqu?
- Porque... nunca... terei permisso... de me casar com voc... mesmo que voc... quisesse... isso.
- "Se" eu quisesse isso? - repetiu o rei. - Voc sabe o que eu quero sem que eu precise repeti-lo em palavras, Letcia. Pertencemos um ao outro.
- ... impossvel... voc no pode... ter certeza!
Desviou os olhos dele ao falar e o rei pegou-lhe o queixo entre os dedos, virando-lhe o rosto e obrigando-a a fit-lo:
- Olhe para mim!
Ela tentou no obedec-lo, mas foi impossvel. Todo o seu corpo vibrava em contato com o dele. Ela fixou o olhar naquele rosto amado, e teve a sensao de que todas 
as estrelas do cu desciam para formar uma aurola, que os envolvia numa luz estranha, vinda tambm de dentro deles.
O corao de Letcia batia acelerado e dava a impresso de que se derreteria no fogo que Vicktor despertara dentro dela na noite anterior, e que agora ardia de novo, 
com uma fora nova.
Ao mesmo tempo, o ar parecia carregado de uma estranha msica que subia em direo s estrelas e vinha no de violinos ciganos mas do fundo da alma dos dois.
O rei olhou-a por um longo momento, antes de interrog-la:
- Agora, diga-me a verdade! O que sente por mim?
- Eu... o amo - sussurrou Letcia. - Eu o amo... desesperadamente... mas no obterei permisso para despos-lo nem em mil anos.
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- Como pode ter tanta certeza?
A emoo que a dominava era to forte, que Letcia no encontrou palavras para justificar sua explicao.
Tudo que desejava era chegar mais perto do rei, sentir-lhe os braos musculosos envolvendo-a, os lbios vidos dominando os dela at faz-la sentir que no precisava 
se preocupar com nada nem ningum no mundo, alm deles dois.
Perdida nessas divagaes, Letcia estremeceu ao ouvir o som de uma risada no jardim. O barulho vinha de alguma distncia, mas soou como se a arrancasse de suas 
fantasias e a trouxesse de volta  realidade com um tapa no rosto.
O rei a soltou e Letcia se virou.
- Voc... no compreenderia. A gr-duquesa nos odeia a todos, inclusive minha me, e ela nunca... deixaria que meu primo nos desse permisso para nos... casarmos.
- Como pode ter certeza disso?
- Pelas atitudes dela. Ns no fomos convidadas nem para o almoo nem para o jantar que foram dados em sua homenagem. Tambm nos foi dito enfaticamente que no seramos 
apresentadas a voc... no baile.
O rei franziu as sobrancelhas.
- Parece incrvel, uma vez que seu pai foi to popular e, alm disso, era primo-irmo do gro-duque.
- Concordo. Mas prima Augustina  egosta e autoritria... e sempre faz as coisas...  sua maneira.
- No comigo! - afirmou o rei com deciso.
- Ela pode no conseguir for-lo a propor casamento a Stephanie, mas nunca me permitiria casar com voc... nem em mil anos.
- Ento teremos de pensar numa maneira de engan-la. J lhe dei a minha palavra como cigano de que seria fiel a voc. De qualquer maneira precisamos nos casar!
- Porqu? Para um... circo romano?
O rei riu e sacudiu a cabea, divertido.
-  uma descrio muito apropriada. Mas tambm, e isso  muito mais importante, agora que a conheci, no s desejo me casar como quero que meus filhos sejam igualmente 
ciganos, como ns.
Sorriu e depois acrescentou suavemente:
- Espero que eles descubram a magia que encontramos e o amor, que  mais importante do que qualquer outra coisa na vida.

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Letcia virou-se de novo para encar-lo.
- Realmente... acredita nisso?
- Pensa que estou mentindo? O que lhe diz seu instinto?
- Que voc est falando a verdade.
- Ento, escute-me. Pode ser que no seja possvel enquanto eu estiver aqui, mas vou embora amanh, depois de receber a chave da cidade, e, de alguma maneira, farei 
de voc minha esposa.
Sua voz soou mais grave ao concluir:
- Pode levar algum tempo, mas voc ter que confiar em mim.
- Se isso puder realmente acontecer... ser a coisa mais maravilhosa e perfeita que pode me acontecer... Mas temo que seja apenas um sonho.
- Ento, pense que ficaremos juntos como estvamos ontem  noite! Ontem, a magia parecia irreal e, depois que voc me deixou, pensei que tudo no passasse de um 
sonho. No entanto, hoje, depois de v-la, confirmei todas as minhas sensaes e me convenci de que a desejo mais que tudo no mundo.
O tom de sua voz pareceu a Letcia igual  cano de amor que os ciganos tocaram enquanto eles deixavam o plat para voltarem ao castelo.
O rei inclinou a cabea e beijou mais uma vez a minscula cicatriz no pulso dela.
- Isso mostra que voc me pertence, e no futuro no haver necessidade de cicatrizes ou marcas, porque nossos coraes so um. Quando a beijei, voc me deu no s 
seus lbios e seu corao, mas tambm sua alma.
- Foi isso que senti ontem  noite, e hoje, quando pensei em voc, me convenci de que no poderia amar mais ningum, jamais me casarei com outro homem.
- Voc  minha! Eu mataria qualquer homem que tocasse em voc!
A violncia com que falou a fez estremecer. Num impulso, Letcia
ergueu-se um pouco e inclinou-se com a inteno de beij-lo. Mas, percebendo que havia outras pessoas nas proximidades, o rei se conteve e a fez recuar.
- Preciso lev-la de volta ao salo de baile, seno todos iro comentar.
- A gr-duquesa ficar... furiosa!
- No tenha medo. com a intuio de um cigano, sei que nada nem ningum no mundo poder separar ou impedir que sejamos no duas, mas uma s pessoa, como os deuses 
ordenaram.

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Deu uma pequena risada ao ver o espanto que havia no rosto de Letcia e brincou:
- Se no confia em mim, minha querida, confie nos deuses. Posso lhe assegurar que eles so muito mais poderosos que uma prussiana cansativa e mandona!
Seu modo de falar fazia tal contraste com o que havia dito antes que Letcia se viu sorrindo.
Caminharam em silncio pelo trajeto de volta ao salo e Letcia sentia agora que havia uma chama de esperana ardendo irresistivelmente em seu corao. Deu graas 
aos cus; amava e era amada. No podia existir ddiva maior.

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CAPTULO VII

Letcia voltou para casa com a sensao de que o rei havia tirado as estrelas do cu para coloc-las em suas mos. No conseguia concentrar-se em nada que no fosse 
sua recente paixo.
Embora soubesse, pela expresso de dio do olhar da gr-duquesa, que pagaria caro por sua felicidade, depois que o rei partisse, ela nem se preocupou.
Como moravam perto, me e filhas voltaram a p atravs do jardim. A princesa Olga, entretanto, considerava uma afronta que tivessem chegado ao palcio sem carruagem, 
numa ocasio to solene.
Marie-Henriette divertiu-se com a indignao da me, e observou sorrindo:
- Como no temos carruagem, mame, isso seria bastante difcil!
A brincadeira criou um pequeno silncio constrangedor. Todos sabiam que, se a gr-duquesa agisse adequadamente, mandaria um veculo do palcio para apanh-las.
Apenas Letcia mantinha-se alheia a tudo aquilo. Mesmo quando sara pela porta da frente, com os criados se inclinando respeitosamente, sentia-se feliz demais para 
reparar que eram os nicos convidados que saam sem um coche a esper-las.
Marie-Henriette, porm, no se conformava e, colocando a mo na da princesa Olga, anunciou:
- Agora Cinderela deve voltar para a cozinha e se sentar entre as cinzas! E isso se aplica a ns trs!
A princesa Olga riu, mas estava claro que era uma expresso forada. Somente quando entraram na pequena casa ela ousou quebrar o silncio repreendendo Letcia, com 
doura:

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- Posso compreender, querida, que tenha achado o rei Vicktor fascinante, mas receio que todos possamos sofrer porque voc ficou mais tempo do que devia junto com 
ele no jardim.
com esforo, Letcia se obrigou a escutar o que a me estava falando.
- O que quer dizer, mame?
- Prima Augustina ficou to brava que me disse: "Sua filha est se comportando pessimamente e no se iluda, Olga, tomarei medidas para assegurar que esse tipo de 
coisa no acontea de novo. "
- Voc quer dizer que ela est planejando nos mandar embora daqui ou nos exilar de Ovenstadt?
- No creio que ela chegue a tanto, mas pode, com certeza, nos tirar esta casa. Eu sei que no deveria lhes dizer isso... mas estou com medo.
Como no era do temperamento da me falar daquela maneira, Letcia abraou-a depressa.
- Oh, mame, sinto muito! Sei que fui imprudente com o rei, mas no pude resistir.
- Posso compreender isso, querida. Ao mesmo tempo, ele voltar para Zvotana e nos esquecer, mas ns permaneceremos aqui sob as garras da prima Augustina.
Letcia considerou por um momento a hiptese de contar  me o que o rei estava planejando. Mas desistiu da ideia porque no desejava que a me descobrisse como 
o havia conhecido antes.
Em lugar disso, optou por consol-la:
- No acredito que as coisas sejam to ruins como prev, mame. Ultimamente tenho sentido que papai cuida de ns e, se algum pudesse enfrentar prima Augustina, 
seria ele!
Sentiu, ao falar, que escolhera as palavras certas, pois a me reforou sua opinio:
- Voc est certa, minha querida.  claro que papai nos proteger, acontea o que acontecer!
- Odeio prima Augustina - declarou Marie-Henriette com fria. - Fez-nos viver miseravelmente e estraga tudo. Pude ver que no gostou que dancei trs vezes com o 
simptico prncipe Ivor, da Saxnia.
A ateno da princesa se desviou de Letcia para a filha mais nova.
- Fico contente que voc tenha gostado de Ivor. Eu costumava ver muito os pais dele quando Paul ainda vivia, e os dois eram encantadores.
- Penso que ele vir me visitar... na prxima semana - informou a jovem com um brilho no olhar.

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Enrubesceu ao falar e, ento, como se no quisesse dizer mais nada, Beijou a me e Letcia e saiu correndo da sala.
- Por favor, fique tranquila, mame. Tenho um instinto muito forte que me diz que a felicidade est esperando por todos ns... logo depois da esquina.
Sua me riu e afagou-lhe os cabelos.
- Voc me animou, querida. Prometo que s pensarei nas coisas boas que aconteceram esta noite e esquecerei prima Augustina.
Subiram a escada juntas, mas, ao entrar no quarto, Letcia se perguntou se no estava sendo otimista demais, levantando falsas esperanas em sua me e nela prpria.
Apressou-se em afastar essas preocupaes para lembrar-se apenas de tudo que o rei lhe dissera e dos arrepios que lhe percorreram o corpo quando ele beijara a cicatriz 
em seu pulso. Mais uma vez sentiu-se com foras para enfrentar o mundo inteiro, se isso fosse necessrio para salvar seu amor.
Teve receio de no conciliar o sono, devido  apreenso do que aconteceria depois que Vicktor viajasse, mas, surpreendentemente, adormeceu logo e acordou se sentindo 
ainda mais feliz do que na vspera. Demorou-se debaixo das cobertas, observando o sol que entrava pela janela, e rememorando os acontecimentos do baile.
Enquanto se recordava dos lbios quentes e insistentes do rei sobre a cicatriz em seu pulso, a porta se escancarou e Marie-Henriette entrou correndo no quarto.
- Levante-se, Letcia! - gritou. - E se apresse!  to excitante!
- O que aconteceu? - perguntou Letcia se sentando na cama.
- Mame disse que, como o rei no props casamento a Stephanie, ele seguir para o Civic Hall em outra carruagem com a me, e  para ns irmos com ela!
Letcia sentiu o corao pular de excitao.
O rei no havia proposto casamento a Stephanie, e agora, embora ele partisse naquele dia, ela o veria de novo.
Desde que o pai falecera, elas no eram includas em qualquer desfile Oficial ou recepo oferecida a qualquer dignatrio que visitasse o pas. Alegrou-se ainda 
mais pela me, que, depois de ser to oprimida e Ignorada, apreciaria os vivas do povo que no a via h dois anos. - Apresse-se! - gritou Marie-Henriette, dirigindo-se 
para o prprio quarto.
Enquanto se lavava e comeava a se vestir, Letcia se perguntou com que roupa se apresentaria. Havia muito pouca escolha, mas, como ia ver o rei, tinha de escolher 
com cuidado.
Acabou optando por um vestido branco, bem conservado apesar

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dos anos. Na poca em que a princesa Olga a presenteara com ele,
tratava-se de um traje caro e muito elegante.
com o passar do tempo, ela o modificara e acrescentara uma renda de outro vestido na barra para torn-lo mais comprido. Como faixa, usou um bonito cachecol de chiffon 
da me, que lhe deu uma nota colorida.
O complemento era cor-de-rosa escuro, e Letcia imaginou que essa cor faria o rei se lembrar de sua saia de cigana e do vu que usara sobre a cabea quando se casaram.
Apressadamente, colocou algumas rosas num tom um pouco mais escuro no gracioso chapu enfeitado com fitas brancas.
Assim que desceu os degraus, deu de encontro com Gertrude, que a esperava com uma xcara de caf e um croissant nas mos.
- Voc no vai sair sem comer alguma coisa, Alteza! - disse a mulher com firmeza.
Ainda bebia o lquido fumegante, quando a me desceu a escada.
A princesa estava usando um vestido cor de malva que comprara como meio luto, depois de usar preto durante um ano, e que nunca conseguira substituir.
Igual s filhas, estava excitada com a ideia de figurar no cortejo real, o que lhe proporcionava uma aparncia adorvel. Letcia elogiou-a impulsivamente:
- Est linda, mame! E, pela primeira vez, estar ocupando seu lugar de direito na corte. Imagino que primo Louis tenha insistido para que Stephanie seguisse no 
carro com voc.
- Tenho certeza disso!
Deu um pequeno suspiro e acrescentou:
- O querido Louis confessou ontem  noite que adorava nos ver juntas no palcio.
- Ele deve ser mais firme com prima Augustina para ver como isso acontecer mais vezes! - afirmou Marie-Henriette categoricamente, enquanto se juntava a elas.
Letcia quis evitar que a irm iniciasse mais uma de suas longas crticas contra a gr-duquesa, e sugeriu rpido:
- Vamos para o palcio. Se estivermos adiantadas, podemos esperar l.
Na verdade, o que ela esperava era uma chance de falar com o rei antes da partida.
Mesmo que s dissessem "bom dia!" um ao outro, as vibraes deles se uniriam com amor e os deixariam mais prximos que nunca, renovando as sensaes maravilhosas 
que experimentaram na noite anterior.

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- Pegaram suas luvas? - perguntou a princesa automaticamente.
- Sim, mame! - responderam as duas em coro, acenando com as luvas de pelica branca.
Vocs podem coloc-las enquanto atravessamos o jardim.
Gertrude ficou esperando na porta para v-las sair e observou:
- Estou realmente orgulhosa de vocs, isso  verdade!
Gostaria que voc pudesse vir tambm, Gertrude - comentou
Marie-Henriette.
No se preocupe. Estarei na multido vendo vocs voltarem ao
palcio e ningum vai me impedir de fazer isso!
Andaram do ptio at ao jardim, em direo  porta da frente do palcio. Estavam no meio do caminho quando viram uma carruagem aberta passando com escolta de cavalaria 
na frente e atrs.
Ficaram todas paradas para observar, sabendo que as duas pessoas na carruagem eram a gr-duquesa e o prncipe Otto, a caminho do Civic Hall. Ambos deviam estar l 
quando o rei Vicktor chegasse.
Nem a princesa Olga nem as filhas falaram, mas estavam todas pensando a mesma coisa: era um insulto ao gro-duque que a esposa e o filho tomassem o seu lugar.
Somente quando os ltimos cavalos da escolta estavam fora de vista, elas retomaram o caminho para o palcio.
Assim que chegaram, os sentinelas apresentaram armas e o mordomo real deu um passo  frente para fazer uma reverncia e recepcion-las:
- bom dia, Alteza. Fui encarregado de conduzi-las at ao salo onde
Sua Alteza Real e Sua Majestade esto esperando.
Letcia sentiu o corao pular. Poderia no apenas ver o rei de novo, como falar com ele.
Levaria algum tempo para que a gr-duquesa e Otto chegassem ao centro cvico, onde seriam recebidos pelo prefeito e pelo primeiro-ministro. Dessa maneira, ela teria 
tempo no s de cumprimentar o rei, mas tambm de trocar algumas palavras com ele.
O mordomo real acompanhou-as ao salo e dois criados de libr abriram as portas.
O gro-duque e o rei estavam sozinhos, e Letcia imaginou que os ajudantes de campo e outras pessoas que os acompanhariam em suas carruagens esperavam em outra sala.
O gro-duque estendeu a mo para a princesa cumprimentando-a.
- bom dia, minha querida Olga! Tenho certeza de que gostaria de uma taa de champanhe antes de enfrentar a multido e a cerimnia, na qual os discursos so inevitavelmente 
longos e inspidos.
A princesa fez uma reverncia e riu.

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- No deve deixar Sua Majestade apreensivo com o que o espera Louis.
Fez uma reverncia para o rei, que lhe beijou a mo. Letcia, depois de cumprimentar o gro-duque, postou-se ao lado de Vicktor, que a olhava sem disfarar a adorao 
que sentia.
Por um momento, esqueceu de fazer a reverncia. Mas logo voltou a si e, depois de faz-la, sentiu que a mo do rei tocava na sua. Teve a impresso de que o amor 
deles era to forte que seria impossvel que sua me e o gro-duque no percebessem.
Felizmente, nesse instante Stephanie entrou apressada no salo:
- Lamento estar atrasada, papai, mas detestei o vestido que mame escolheu para mim e o troquei assim que ela saiu.
- Parece-me que ter problemas quando sua me notar o que voc fez.
- Sempre tenho problemas!
Ao fazer a reverncia para o rei, acrescentou:
- Fui seriamente repreendida, Majestade, hoje pela manh. E s porque o senhor no abriu o baile comigo! Devo preveni-lo que acho injusto que o senhor tenha escapado 
livre!
O rei sorriu e replicou em tom de brincadeira:
- Tenho certeza de que ser perdoada mais tarde, porque est muito bonita.
- Duvido! - respondeu Stephanie.
No esperou pela resposta dele e beijou a princesa Olga e as meninas.
Todos perceberam que estava de ptimo humor porque o rei no a pedira em casamento. Ademais, alegrava-a o fato de poder seguir em outra carruagem, era sinal de que 
a me, pelo menos por hora, havia aceitado a derrota.
"Isso no significa", pensou Letcia, "que a gr-duquesa tenha desistido da caada. Talvez j tenha outro rei em mente!"
Mas o bom humor de Stephanie mostrou-se contagiante, e, enquanto bebiam o champanhe, todos riam e conversavam de um jeito to descontrado, que seria impossvel 
na presena de Augustina.
Pouco depois, sem sequer se dar conta de como, Letcia se viu numa das janelas com o rei, um pouco separados dos outros. Ouviu-o dizer, numa voz muito baixa, de 
maneira que s ela pudesse escutar:
- Voc est ainda mais bonita do que ontem  noite. Sonhou comigo?
- Como poderia fazer outra coisa?
- Eu a amo e juro que, mesmo que eu tenha que mover cus e terras, voc ser minha!

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No encontrou palavras suficientes para responder  declarao, "enquanto o olhava ouviu a porta se abrir e o mordomo real entrar.
- Creio, Alteza Real, que  hora de sair para o centro cvico.
- Claro - concordou o gro-duque, largando a taa e olhando ao redor como se se perguntasse onde seu distinto convidado tinha ido. Percebendo a movimentao, o rei 
aproximou-se rpido.
Os dois homens saram do salo lado a lado, e a princesa Olga e Stephanie vieram atrs, seguidas de Letcia e Marie-Henriette.
Passaram pelo hall, onde os ajudantes de campo e os ocupantes da quarta carruagem se encontravam. Foram cumprimentados por uma infinidade de reverncias.
O gro-duque e o rei saram para a frente do palcio, onde os esperava uma carruagem. Enfeitado de dourado, o veculo era muito vistoso, e os quatro cavalos que 
o puxavam levavam plumas nas cabeas.
O cocheiro e o lacaio que ficavam atrs trajavam um uniforme carmesim branco e dourado do sculo XVII, com chapus de trs bicos sobre as perucas brancas.
Assim que o gro-duque convidou o rei a entrar na carruagem com um gesto de mo, ouviu-se o som de um galope e um instante depois um oficial chegou correndo a cavalo.
Como todos olharam em sua direo, o rei parou. Ao se virar, Letcia percebeu que o oficial que se aproximava em tal velocidade era Kyril.
O irmo parou o cavalo ao lado da carruagem e, enquanto um dos lacaios corria para segurar o animal, ele galgou os degraus at o gro-duque.
No foi s a velocidade com que vinha cavalgando mas algo em sua aparncia que fez todos esperarem em silncio para ouvir a mensagem que ele trazia.
Saudou o gro-duque e, surpreendentemente, tirou o elmo antes de anunciar com calma e clareza:
- Lamento, senhor, mas trago ms notcias para Vossa Alteza.
- O que , Kyril? - perguntou apreensivo o gro-duque.
- Atiraram uma bomba na carruagem em que ia Sua Alteza Real e o prncipe Otto! Ela explodiu e s posso expressar meus profundos e sinceros sentimentos pela triste 
perda.
Por um momento fez-se absoluto silncio. Depois, o gro-duque perguntou com uma voz que no parecia a sua:
- Os dois esto... mortos?
- No houve chance de salv-los, senhor.

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O gro-duque endireitou os ombros e comentou:
- Preciso ir com voc e ver o que posso fazer.
- Creio que seria um erro, senhor. Os mdicos esto retirando os corpos dos que assistiam ao cortejo e morreram durante a exploso e esto levando os feridos para 
o hospital.
Fez uma pausa e acrescentou:
- H no momento muita confuso na cidade. Por isso, julgo que seria melhor que Vossa Alteza permanecesse aqui at as coisas se acalmarem.
- Compreendo - concordou o gro-duque.
- Cuidarei de tudo, senhor.
Kyril recolocou o elmo na cabea, fez uma saudao e montou no cavalo, esporeou-o e partiu a toda  velocidade.
Parecia que todos ali tinham se transformado em pedra. A primeira a se mover foi a princesa Olga, que se encaminhou at o gro-duque, dizendo:
- Kyril tem razo, querido Louis. No h nada que voc possa fazer agora, e, se a multido est aflita e agitada,  melhor para voc ficar aqui.
- Sim, claro!
Esquecendo-se do rei, a princesa levou o gro-duque de volta para dentro do palcio. Atravessaram o hall e entraram direto em uma saleta particular do gro-duque, 
onde ficaram de porta fechada.
Letcia segurou a mo de Stephanie entre as suas e dirigiram-se para o salo, seguidas pelo rei e Marie-Henriette.
- No... posso acreditar! - exclamou Stephanie com horror.
- Sinto muito, querida - consolou-a Letcia, solidria.
- Pobre mame!
Enquanto Stephanie e Letcia se sentavam no sof, Marie-Henriette
juntou-se ao rei na mesa onde estavam as bebidas. Os minutos se passaram at que ela quebrou o silncio e confessou num sussurro.
- No sou hipcrita para fingir que estou triste.
- O que quer dizer? - perguntou o rei.
- Quero dizer que agora h uma boa chance de Stephanie conseguir permisso para se casar com meu irmo Kyril.
- Veja como so as coisas! - observou o rei e seus olhos brilhavam. - Bem, imagino que no haver dificuldades, agora que ele  o prncipe herdeiro.
Marie-Henriette olhou-o surpresa.
- Nunca pensei nisso, mas  claro! Agora que Otto est morto, ele  o herdeiro mais prximo.

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Deu um pequeno suspiro, e exclamou:
- Que maravilha! Que maravilha!
- Devo observar que no  o momento adequado para tal entusiasmo.
- Voc sentiria o mesmo se tivesse sofrido como ns.
- Tenho minhas prprias razes para me sentir exultante, de maneira que na verdade a compreendo.
A moa fitou-o curiosa e perguntou:
- Est me dizendo que ama Letcia?  certo que causou um
escndalo pela maneira como se comportou ontem  noite.
- No s a amo, como pretendo me casar com ela.
Ela deu um gritinho de alegria.
-  a coisa mais maravilhosa e excitante que j ouvi!
Ficou nas pontas dos ps e beijou o rosto do rei. Letcia, que os observava do sof, arregalou os olhos espantada. Viu que a irm se aproximava delas:
- Embora eu saiba que a ocasio no  propcia, podemos esquecer um pouco a tristeza, com o prenncio de boas novas. O rei afirmou, Stephanie, que voc no ter 
dificuldade agora para se casar com Kyril porque ele ser o prncipe herdeiro! E comunicou tambm que pretende se casar com Letcia!
Houve um momento de silncio. Depois, Letcia esboou um protesto:
- Francamente, Hettie...
Stephanie a interrompeu, ansiosa:
- Isso  verdade?
- Claro!
- Sei que papai me deixar casar com Kyril porque gosto dele.
Nesse momento, a porta se abriu e a princesa Olga entrou no
salo. Stephanie receou que ela pudesse ficar chocada com algo que tivesse por acaso ouvido, mas a princesa andou em direo ao rei.
- Sinto muito, Majestade, que o tenhamos deixado daquela maneira. O gro-duque pediu-me que lhe apresentasse suas desculpas e disse que no estava pensando com clareza 
naquele momento.
- Foi um grande choque, e, embora o que aconteceu seja profundamente lamentvel, s posso dizer que estou contente que a vida do gro-duque tenha sido poupada. Aceita 
uma bebida?
- No, obrigada! Embora muitas pessoas tenham chegado para v-lo, Louis me pediu para voltar e ficar com ele. Vim apenas verificar como Vossa Majestade estava.
- Estou sendo agradavelmente entretido pela princesa Stephanie e por suas filhas.

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Como se acabasse de lembrar da existncia da sobrinha, a princesa Olga dirigiu-se a ela com carinho:
- Sinto tanto, minha querida criana!
- Estou bem, prima Olga. Sei que papai deseja que voc fique com ele, no se preocupe comigo.
- Sim, preciso voltar agora.
Fez uma reverncia rpida para o rei e saiu.
Stephanie estendeu a mo para Marie-Henriette e convidou:
- Venha para o meu quarto comigo, Hettie. Quero conversar com voc.
Letcia imaginou que Stephanie queria conversar com Marie-Henriette sobre quando seria possvel o casamento dela com Kyril.
Passou tambm por sua cabea que, agora que a gr-duquesa estava morta, o gro-duque iria contar cada vez mais com sua me e, talvez, j que eram pessoas ss, os 
dois encontrassem a felicidade juntos.
As duas moas fizeram mecanicamente uma reverncia para o rei e saram correndo da sala, onde ele e Letcia permaneceram sozinhos.
Por um momento, eles se olharam fixamente, at que Vicktor estendesse a mo, dizendo:
- Penso que devamos ir para o jardim. Podemos ser importunados aqui.
Ele ofereceu-lhe o brao. Enquanto caminhava, pensou que era impossvel que o milagre que haviam esperado se tornara realidade. Agora a chama de esperana que se 
acendera nela na noite anterior no se extinguiria.
Andaram em silncio at ao Jardim das Ervas, onde tinham ficado na vspera. Acomodaram-se lado a lado no mesmo banco, e o rei levou as mos de Letcia aos lbios 
antes de comentar:
- V, minha querida, meu instinto estava certo. No foi nem preciso se criar uma revoluo mundial para podermos nos casar! Mas se voc pensa que vou esperar o ano 
de luto de praxe, est muito enganada.
Tremendo de excitao devido ao roar dos lbios dele, Letcia s pde murmurar fracamente:
- V Voc est... indo depressa demais.
- Bobagem! Estou apenas imitando voc, minha querida. Tento obstinadamente conseguir o que desejo.
Riu e depois acrescentou:
- Voc me deu um exemplo de determinao que eu no posso seno admirar e seguir. Voc no  a pessoa mais indicada para me ensinar convenes, lembre-se disso!

120


Letcia corou e desviou o olhar, abaixando a cabea.
- Quando voc me fala dessa maneira, comeo a imaginar se sou a pessoa certa para ser... sua esposa... e uma rainha.
- . No me importa se voc est certa ou errada. Quero voc e logo.
Havia uma tal firmeza na voz dele que Letcia nunca ouvira antes.
- Eu o amo e farei... qualquer coisa que me pea. Mas tem certeza mesmo... de que me quer?
- Como pode me fazer uma pergunta to absurda?
- S estava pensando! Tudo o que fiz foi para salvar Stephanie, agora que ela est segura porque a gr-duquesa est morta, voc... no tem que levar uma esposa de 
Ovenstadt.
- Sei exatamente o que est fazendo, minha querida. Est se resguardando de qualquer acusao que eu poderia lhe fazer no futuro sobre ser pressionado a casar, por 
voc ou pela magia...
Interrompeu-se para observar o efeito das prprias palavras, e logo retomou o raciocnio:
-  exatamente isso que est acontecendo: voc ou a magia cigana, no me importa qual, tornou completamente impossvel meu casamento com qualquer outra pessoa. Portanto, 
quanto mais cedo voc cumprir sua parte no negcio, melhor!
Levou uma das mos de Letcia aos lbios e concluiu:
- J estamos casados segundo os preceitos ciganos, quer queiram ou no,  a lei do nosso sangue.
Falou muito srio, e Letcia sentiu-se feliz. Virou-se para ele com algumas lgrimas de felicidade nos olhos e confessou:
- Amo voc por acreditar nisso. Por favor, quero ser sua esposa, desejo isso to... ardentemente que  s porque agora isso  possvel que estou lhe dando uma... 
oportunidade de escapar.
- Eu sei, mas no h sada nem para voc nem para mim, querida. - Enquanto falava ps os braos em volta dela e a puxou para perto.
- algum... pode nos ver! - murmurou Letcia.
Os lbios dele estavam bem prximos dos dela.
- Deixe-os! A nica coisa que me importa  lhe convencer de uma vez por todas que voc me pertence totalmente.
Colou os lbios aos dela, num beijo cheio de desejo e carinho. Letcia sentiu que novamente seu corpo parecia se fundir ao dele e pressentiu que todas aquelas palavras 
eram verdadeiras.
Ela pertencia a Vicktor, e no havia alternativa para nenhum dos dois, a no ser ficarem juntos.
A multido dava vivas alucinantes, e as vozes se elevavam cada vez mais na excitao do momento.

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O barulho enchia o ar de maneira ensurdecedora, enquanto a carruagem em que seguiam o rei e Letcia se enchia de flores que o povo atirava durante todo o trajeto.
Era impossvel falar, mas o rei segurava a mo dela firmemente ao mesmo tempo em que acenava para a multido. Uma aura de felicidade e amor os envolvia como uma 
luz resplandecente desde que haviam se unido como marido e mulher diante do altar da catedral.
Fingindo que os problemas em seu pas eram muito piores do que na realidade, Vicktor persuadira o gro-duque e a princesa Olga de que precisava no s se casar com 
Letcia dentro de trs meses mas tambm que a cerimnia fosse realizada em Zvotana.
Tinha sido to eloquente que nem a princesa Olga nem o gro-duque levantaram objees.
Consequentemente, vieram todos se hospedar no palcio do rei, se empolgando com o jbilo do povo de Zvotana, que constitua um verdadeiro alvio para os nimos depois 
do luto e da tristeza em casa.
- Na realidade, eles desejam hastear bandeiras porque ela no est mais aqui! Agora todos podem ser felizes como antes de ela introduzir aquelas odiosas ideias em 
nosso pas!
O gro-duque, entretanto, tinha que se comportar de maneira convencional, e, se por um lado concordava em que Stephanie se casasse com Kyril, porque agora ele era 
o prncipe herdeiro, disse-lhes que precisavam esperar pelo menos seis meses para anunciar o noivado.
- No  justo! - reclamara Stephanie, ao saber que a prima podia se casar com o rei to rpido.
- Voc pode ver Kyril todos os dias e estar com ele o tempo que quiser - justificou Letcia, - mas sabe muito bem que, como o rei tem muito a fazer, s podemos nos 
encontrar raramente.
Realmente, tinha sido quase impossvel os dois se avistarem porque, cada vez que o rei chegava  capital de Ovenstadt, havia muita pompa e protocolo.
Houve apenas duas ocasies em que ficaram juntos, no castelo Thor, com a princesa Olga, Kyril e Marie-Henriette.
Foram para l com o mnimo de criados necessrios, e Letcia conseguiu ficar com Vicktor sozinha na sala onde haviam se beijado pela primeira vez e onde ela quase 
se tornara sua esposa cigana sem a bno da Igreja.
- Eu a amo! - disse o rei para ela na primeira noite em que a

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princesa Olga lhes permitira ficar juntos por exatamente vinte minutos.
- Eu tambm te amo! - respondeu Letcia.
- Se eu fosse um cigano em vez de um rei, no teramos que aguentar essa maldita demora. Sairamos na nossa carroa, poderamos fazer amor e eu lhe diria o quanto 
voc significa para mim dia e noite, sem meia dzia de serviais batendo na porta para me dizer que tenho outro compromisso.
Falou com raiva e Letcia riu da indignao dele.
- No falta muito agora, querido. Meu maravilhoso Vicktor, quero estar com voc tanto quanto voc deseja ficar comigo!
- No sei o que voc fez comigo, ou se foi a magia do Voivode, mas no consigo pensar em nada a no ser em voc. Enquanto estou aprovando leis ou escutando os mais 
srios debates, tudo o que vejo  seu rosto.
Agora, enquanto passavam pela multido que agitava flmulas, Letcia refletiu que iniciava um novo captulo em sua vida. Algo to maravilhoso que no havia palavras 
para descrever.
Quando entrara pelo brao de Kyril at ao altar onde o rei a esperava, seguida de Stephanie e Marie-Henriette como damas de honra, fez uma fervorosa prece de agradecimento.
Agora, alm de poder se casar com o homem que amava, Kyril havia ocupado o lugar do mimado e cansativo Otto, e um dia o irmo seria o gro-duque de Ovenstadt, como 
ela sempre desejara que o pai fosse.
Lembrou-se das palavras do Voivode:
"Deve seguir seu corao".
Apenas por seguir esse conselho ela conseguira tudo o que desejava e que pensara que nunca obteria.
A carruagem em que viajavam chegou aos portes da cidade. Ali, um faetonte puxado por cavalos soberbos os esperava para lev-los ao palcio de vero do rei, onde 
passariam as primeiras noites da lua-de-mel.
Depois disso, ela no sabia ao certo para onde iriam, e Vicktor lhe dissera que era um segredo. Despediram-se de todos, o rei a ajudou a subir, pegou as rdeas, 
e Letcia se sentiu como se estivesse num sonho. Agora, finalmente, podia ficar a ss com o homem que amava.
Ao partirem o rei virou-se e olhou-a cheio de ternura, numa muda promessa de que aquela felicidade nunca se esgotaria.
Atrs deles vinha uma escolta de quatro policiais montados da Cavalaria Real, mas, a no ser isso, eles estavam completamente livres.

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- No h com o que se preocupar, querida - garantira o rei na noite anterior. - As autoridades j capturaram o homem responsvel pela morte da gr-duquesa e de Otto. 
Ele representava o ltimo perigo real nessa parte da Europa.
- Tem... certeza?
- Claro que haver outros, mas esse homem estava me perseguindo h algum tempo e foi o responsvel pela bomba que feriu o rei Frederick.
- Sempre me preocuparei com voc.
- Teremos que pedir uma mgica que nos mantenha seguros! Mas creio que o nosso amor  a melhor proteo, e a sua beleza dar aos meus sditos um bom assunto de conversa.
Os relatrios da Capital foram confirmados: a ordem se restabelecera com o casamento do rei e as novas medidas econmicas que favoreciam os mais pobres.
Letcia ficou encantada ao notar, no caminho para a catedral, que havia muitos ciganos na multido entre os que acenavam para eles. Vicktor cumprira a promessa e 
introduzira uma lei segundo a qual os ciganos no podiam ser molestados e deviam ser bem recebidos em qualquer parte do pas.
- Isso nos trar sorte - disse Letcia a si mesma, intuindo que os ciganos de todas as tribos lhes dariam uma bno especial no dia do casamento.
O rei guiou rpido e com destreza, o que lhes possibilitou chegarem ao palcio em apenas uma hora.
Era uma construo branca, ao lado de um grande lago, tendo por trs a mesma cadeia de montanhas que atravessava Ovenstadt por trs.
Parecia muito imponente ao sol da tarde, e, ao se aproximarem, Letcia ps a mo no joelho dele e disse:
- Nosso primeiro lar... juntos.
- Um lar que ns encheremos com a magia do amor que eu lhe darei esta noite.
Ela corou por causa da paixo que percebia na voz do marido. com uma alegria intensa, ela pediu timidamente:
- Quando chegarmos, quero que me leve ao jardim. Tenho uma coisa muito especial para lhe mostrar.
- No jardim?
- Sim.
Ele havia dado instrues para que houvesse apenas os criados de costume para cumpriment-los quando chegassem.

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A casa estava fresca comparada ao calor de fora e  primeira vista Letcia viu que era muito bonita.
Ela subiu para tirar a roupa de viagem e se maravilhou diante do quarto, que tinha sido redecorado. Nunca imaginara algo to bonito e luxuoso.
As paredes azuis, as cortinas cor-de-rosa e o teto pintado com cupidos entre deuses eram parte da beleza no s de seus sonhos, mas das cores vivas que os ciganos 
adoravam.
No se demorou no exame, porque queria juntar-se ao rei. Pouco depois, foi ao seu encontro numa sala cheia de flores e com enormes janelas que davam para um jardim 
de rosas.
Correu para o marido, que a puxou para perto e beijou-a com paixo. Ento, como se soubesse que precisava controlar seu desejo um pouco mais, lembrou:
- Voc me disse que queria ir para o jardim.
- Sim... e  importante. Voc se lembra disso? - Mostrou-lhe um monte de ramos que trazia na mo.
- Acho que  o feixe de ramos que o Voivode tinha ao lado em nosso casamento, mas ele no fez nada com os galhos.
- Ele os deixou para mim na carroa e agora sei porque ele fez isso.
- Porqu?
- Porque, embora eu nunca pensasse que isso pudesse acontecer, o Voivode sabia que seramos marido e mulher... para sempre! Estes galhos so de sete tipos de rvores 
diferentes; se ele os tivesse quebrado como num casamento Kalderash, os teria atirado um por um ao vento.
- E depois?
- Teria nos dito que eles simbolizavam o verdadeiro vnculo matrimonial. A seria impossvel para ns quebrarmos a promessa.
O rei sorriu. Pegou os galhos, quebrou-os um por um e os atirou entre as rosas no jardim.
- Agora sei que acredita que estamos casados para sempre, no s pelos juramentos que acabamos de fazer na Igreja mas pela magia dos ciganos.
- Eu sabia... que voc compreenderia.
- Compreendo, minha adorada esposa - disse e beijou-a.
Mais tarde jantaram  luz de velas e saborearam deliciosos pratos acompanhados por um suave vinho cor de rubi, que Letcia julgou parecido ao que o cigano lhes oferecera.
Percebeu que o rei a observava sorver um gole da bebida. No

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atinando com o significado daquilo ela o olhou de modo interrogativo. Vicktor apressou-se em esclarecer:
- Voc est certa,  o vinho cigano!
- Como o obteve?
- Trs garrafas foram deixadas ontem no palcio e os criados foram instrudos por uma mulher cigana para entreg-las a mim. Havia tambm um bilhete com as garrafas.
- O que dizia?
- Dizia: "com as bnos dos Kalderash, para um rei que cumpriu a palavra".
Letcia bateu palmas.
- Esto agradecendo por torn-los bem-vindos em Zvotana.
-  verdade. Quando desfiz o pacote, descobri que havia algo para voc tambm.
O rei tirou trs pulseiras de seus bolsos.
- Estavam em volta do gargalo das trs garrafas.
Letcia ficou encantada, as jias estavam trabalhadas com a extraordinria destreza que caracterizava as taas dos Kalderash. Deviam ser de ouro macio: uma de rubis, 
outra de diamantes e a terceira de esmeraldas.
Ao olh-las, Letcia soltou uma exclamao e o rei assentiu mais uma vez:
- Tambm reparei nisso; as cores da bandeira de Zvotana.
- Se os ciganos esto gratos, imagine eu. Afinal, foi graas  magia deles que pude me casar com voc.
- Foi o que pensei, e, agora, como eu tambm estou grato, tenho uma coisa para lhe mostrar.
Para surpresa de Letcia ele a levou at ao jardim, para uma parte diferente de onde tinham estado antes. O rei caminhava em silncio, com um dos braos rodeando 
a cintura dela.
Letcia no compreendeu a inteno dele e se espantou quando pararam diante de uma clareira entre as rvores.
Os troncos ficavam to perto um do outro que pareciam formar uma parede em volta deles. Havia um espao aberto de onde podiam ver o lago, que estava lindo com os 
ltimos raios do sol, tornando-o dourado.
Quando se virou para olhar a clareira, percebeu que de um lado havia troncos arrumados para uma fogueira que ainda no estava acesa.
Do outro lado havia algo que ela nunca imaginara antes. Observando-lhe a curiosidade, Vicktor apontou para o local.

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A um canto havia um leito de flores ciganos, como os usados pelos agrupamentos depois de um casamento.
- Voc me enfeitiou, minha esposa cigana - declarou ele suavemente. - Onde mais eu poderia torn-la minha?
- Como pde pensar em algo to... maravilhoso, perfeito e mgico?
- Primeiro, precisamos acender o fogo; depois beberemos  nossa felicidade com o vinho que os ciganos nos trouxeram e h mais um presente que ainda no lhe mostrei.
- O que ? - perguntou Letcia.
O rei acendeu o fogo, e enquanto as chamas subiam contra a escurido das rvores o sol se ps no horizonte, dando lugar  noite. Mas, apesar da escurido, ela pde 
distinguir nitidamente a taa que ele lhe oferecia. Se tratava de uma rplica exata da taa do amor que lhes fora oferecida durante o casamento cigano.
O rei colocou-lhe a taa nas mos e encheu-a com o vinho da terceira garrafa. Depois abraando-a com ternura, disse sinceramente:
- Isto  uma taa do amor, querida, e ao bebermos nela juro que a amarei, adorarei, protegerei e manterei comigo no s todos os dias de nossas vidas, mas durante 
toda a eternidade.
O juramento parecia vibrar no ar e, quando ele terminou de falar, Letcia levou a taa aos lbios e bebeu, estendendo-a depois para o marido, que fez o mesmo.
Os ciganos tinham lhes dado cinco presentes, um nmero mgico, por isso cada um bebeu cinco vezes na taa.
Ento o rei depositou a taa no cho e, enquanto as chamas subiam cada vez mais alto e as estrelas surgiam no cu, conduziu Letcia para o leito de ptalas de flores.
Deitou-a com delicadeza e, despindo a tnica branca, acomodou-se ao lado da esposa. Letcia sentia-se inebriada, tanto pelo perfume das flores como pela proximidade 
perturbadora de Vicktor, e sussurrou:
- Se isto  um sonho, voc  o amante dos meus sonhos, aquele que sempre desejei ardentemente... mas acreditava que no existisse.
- E voc  a esposa que tenho procurado! Eu adoro voc, minha querida.
Vicktor selou essas palavras com um beijo, e Letcia teve medo de desmaiar ao sentir o contato daquelas mos fortes sobre seu corpo. Alguma coisa selvagem e maravilhosa 
despertou dentro dela para responder  paixo crescente do marido.
- Eu o amo... Eu... o amo - ela murmurou, se abandonando s carcias sensuais e ternas.

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O rei beijou-lhe os lbios, o pescoo, e, enquanto sua boca roava pela suavidade de sua pele em direo aos seios, Letcia sentiu que o xtase que surgia dentro 
deles fazia parte de uma magia inevitvel No meio de todo aquele cenrio de sonho, Vicktor levou-a aos cus, onde havia apenas a magia do amor para toda a eternidade...

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QUEM  BARBARA CARTLAND?

As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de cem milhes de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita importncia aos aspectos 
mais superficiais do sexo, o pblico se deixou conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais. E ficou fascinado pela maneira como constri 
suas tramas, em cenrios que vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso 
das reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e teatrloga. Mas Barbara 
Cartland se interessa tanto pelos valores do passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por 
sua luta em defesa de melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e  presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.
No perca a prxima edio!


Um amor para Lcia

Linda e pura como uma viso celestial, Lcia Beaumont atravessou a Piazza San Marco e entrou no Florian, o mais famoso caf de Veneza,  procura do nico homem que 
poderia salv-la de um destino cruel: o marqus Giles de Wynchcombe. Sabia que ele colecionava obras de arte em seu castelo e certamente se interessaria pelos belssimos 
quadros que seu pai pintara antes que a doena o tivesse atingido. Ou Giles comprava os quadros, ou s lhes restaria a misria! Mas em Veneza o marqus procurava 
algo mais excitante e mais humano que uma pintura: uma mulher que aquecesse seu leito e lhe beijasse os lbios, cada vez mais sequiosos de emoes; uma nova amante 
para sua coleo!

Fim
